Encélado é considerado há anos um dos lugares mais promissores do Sistema Solar para procurar vida extraterrestre. Sob a crosta congelada dessa pequena lua de Saturno existe um oceano global de água salgada, enquanto enormes gêiseres lançam parte desse material diretamente para o espaço.
Agora, cientistas descobriram algo ainda mais interessante.
Ao reproduzir em laboratório as condições que provavelmente existem no oceano subterrâneo de Encélado, pesquisadores conseguiram manter microrganismos terrestres vivos e em crescimento.
Isso não significa que vida tenha sido encontrada na lua de Saturno. O experimento mostra, porém, que as condições existentes naquele oceano podem ser compatíveis com pelo menos algumas formas de vida conhecidas na Terra.
Os resultados foram publicados na revista Science Advances.
Um pequeno mundo com um enorme oceano escondido
Encélado possui apenas cerca de 500 quilômetros de diâmetro. Apesar do tamanho reduzido, sua superfície congelada esconde um oceano de água líquida.
O que torna essa lua especialmente interessante são as enormes plumas que emergem principalmente da região de seu polo sul.
Esses jatos atravessam rachaduras na crosta e lançam água e outros materiais do oceano diretamente para o espaço.
Para os cientistas, isso funciona quase como uma amostra gratuita.
Em vez de precisar perfurar quilômetros de gelo para chegar ao oceano, uma espaçonave pode atravessar as plumas e analisar partículas que vieram diretamente de seu interior.
Foi exatamente isso que a missão Cassini, da NASA, fez.
Em 2015, a sonda atravessou as plumas de Encélado e encontrou sais, moléculas orgânicas e outros compostos importantes.
As análises posteriores indicaram que a lua possui grande parte dos ingredientes químicos considerados necessários para sustentar formas de vida semelhantes às encontradas na Terra.
Cientistas criaram um pequeno Encélado no laboratório
Para descobrir se um organismo conseguiria realmente sobreviver naquele ambiente, pesquisadores decidiram recriar o oceano de Encélado.
Eles misturaram água, sais e carbonatos e acrescentaram rocha pulverizada para reproduzir as condições alcalinas previstas para o oceano.
O experimento também simulou as reações químicas que podem ocorrer quando a água entra em contato com o fundo rochoso da lua.
Depois, os cientistas introduziram um microrganismo terrestre nesse pequeno oceano extraterrestre artificial.
A espécie escolhida foi Methanothermococcus okinawensis.
Esse organismo microscópico vive próximo a fontes hidrotermais nas profundezas do oceano, na região de Okinawa, entre Japão e Taiwan.
Ele pertence a um grupo conhecido como metanogênicos.
Esses organismos não precisam de luz solar nem de oxigênio para sobreviver. Em vez disso, conseguem obter energia utilizando hidrogênio e dióxido de carbono, produzindo metano durante o processo.
Os microrganismos não apenas sobreviveram
O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores.
Os microrganismos conseguiram crescer nas condições simuladas de Encélado e produzir metano utilizando o hidrogênio gerado pelas reações entre água e rocha.
Eles também conseguiram adaptar seu metabolismo à pequena quantidade de dióxido de carbono disponível naquele ambiente.
Nozair Khawaja, cientista planetário da Universidade Livre de Berlim e um dos pesquisadores envolvidos no trabalho, afirmou que a equipe não esperava que o experimento tivesse um resultado tão positivo.
A descoberta reforça uma possibilidade importante: mesmo sem luz solar, um ecossistema poderia teoricamente obter energia das reações químicas que acontecem no fundo do oceano de Encélado.
Na Terra, ambientes semelhantes existem ao redor de fontes hidrotermais profundas e sustentam ecossistemas que não dependem diretamente da energia do Sol.
Encélado pode facilitar nossa busca por vida
Outro estudo publicado na mesma revista trouxe uma segunda descoberta importante.
Ao reanalisar dados coletados pela Cassini, pesquisadores encontraram evidências de que as próprias plumas de Encélado podem separar e concentrar diferentes componentes presentes no oceano.
Quando a água é lançada para o espaço, ela congela e se fragmenta em partículas de gelo.
Durante esse processo, diferentes compostos e minerais podem acabar concentrados em partículas específicas.
Segundo Frank Postberg, cientista planetário da Universidade Livre de Berlim e líder do estudo, é como se Encélado realizasse naturalmente parte do trabalho que normalmente precisaria ser feito dentro de um laboratório.
Isso poderia facilitar significativamente a análise de futuras amostras.
Uma futura missão poderia procurar sinais de vida
A descoberta é especialmente importante para futuras missões destinadas a explorar Encélado.
Uma espaçonave não precisaria necessariamente pousar na superfície, perfurar sua espessa crosta congelada e alcançar o oceano subterrâneo.
Ela poderia simplesmente atravessar as plumas e coletar partículas de gelo.
Se os compostos do oceano realmente forem separados e concentrados durante esse processo, instrumentos já disponíveis atualmente poderiam ter melhores condições de procurar moléculas associadas à atividade biológica.
Ainda não existe evidência de que Encélado seja habitado.