A Terra não é uma esfera perfeita. Sua rotação faz o planeta ficar ligeiramente mais largo no equador e mais achatado nos polos, uma característica conhecida pelos geodesistas há décadas. O que acaba de chamar atenção, porém, é algo muito mais estranho: dependendo de como sua forma é observada, a Terra parece estar mudando em sentidos opostos. E não há erro nos instrumentos.
O planeta tem mais de uma forma — dependendo do que você mede
A primeira coisa que parece contraditória é, na verdade, fundamental para entender o fenômeno.
Quando falamos da forma da Terra, podemos estar descrevendo a superfície física do planeta, formada pela crosta e pelas rochas, ou uma superfície determinada pela distribuição de sua massa e pelo campo gravitacional.
Essa segunda referência é chamada de geoide. Em vez de ser uma esfera lisa, ele possui uma forma irregular, semelhante a uma batata, porque a gravidade varia conforme a massa está distribuída no interior e na superfície do planeta.
Um novo estudo conduzido pelo geodesista Christopher Kotsakis, da Universidade Aristóteles de Tessalônica, na Grécia, comparou justamente essas duas maneiras de acompanhar as mudanças na Terra.
O resultado revelou uma situação curiosa.
Dados relacionados ao campo gravitacional indicam que o geoide mudou de comportamento ao longo das últimas décadas. Durante os anos 1980 e grande parte dos anos 1990, ele apresentava uma tendência de se tornar mais arredondado.
Mas, no final dos anos 1990, essa tendência mudou.
Desde então, o componente associado ao achatamento gravitacional voltou a aumentar. Em outras palavras, olhando para a distribuição de massa, o planeta parece estar ficando novamente mais achatado.
Só que a rocha sob nossos pés conta outra história.

As estações no solo encontraram uma mudança na direção oposta
Para descobrir o que estava acontecendo com a própria estrutura sólida do planeta, Kotsakis analisou dados de estações GNSS, sistemas de posicionamento extremamente precisos usados para acompanhar pequenos movimentos da superfície terrestre.
O estudo considerou medições realizadas entre 1997 e 2015.
O padrão encontrado foi praticamente o inverso do observado no campo gravitacional.
Os polos estavam se elevando progressivamente. No fim dos anos 1990, esse movimento era de aproximadamente 0,5 milímetro por ano; em 2015, havia chegado perto de 1 milímetro por ano.
Ao mesmo tempo, a região equatorial apresentava subsidência, ou seja, um movimento gradual para baixo.
Isso significa que, quando se observa diretamente o comportamento da crosta rochosa, a Terra está ficando ligeiramente menos achatada.
É aqui que a história parece desafiar a lógica: a parte sólida do planeta está se tornando um pouco mais arredondada, enquanto sua forma gravitacional indica um aumento do achatamento.
A explicação, porém, começa a fazer sentido quando entra em cena um dos fenômenos mais importantes das últimas décadas.
O gelo derretendo está reorganizando o peso do planeta
Grandes massas de gelo existentes na Groenlândia e na Antártida exercem pressão sobre a crosta terrestre. Durante milhares de anos, esse peso ajudou a manter determinadas regiões da superfície ligeiramente deprimidas.
Quando o gelo desaparece, parte dessa carga é retirada.
A crosta começa então a responder lentamente, elevando-se em um processo conhecido como ajuste isostático glacial. É como se a superfície rochosa começasse a recuperar parte da altura perdida depois que um enorme peso é retirado.
Isso ajuda a explicar a elevação observada nas regiões polares.
Mas existe uma segunda consequência.
A água proveniente do derretimento não desaparece. Ela é redistribuída pelos oceanos e aumenta a quantidade de massa em outras regiões do planeta. Uma parcela significativa desse acréscimo ocorre em latitudes mais baixas.
Com mais água concentrada próximo ao equador, o fundo oceânico recebe uma carga adicional e o campo gravitacional passa a refletir essa nova distribuição de massa.
Assim, duas coisas podem acontecer simultaneamente.
A crosta fica um pouco menos achatada porque os polos sobem e o equador afunda. Já o campo gravitacional pode ficar mais achatado porque parte da massa deslocada pelo derretimento do gelo se acumula em regiões próximas ao equador.
Não existe contradição nos dados.
São duas maneiras diferentes de observar a mesma Terra em transformação: uma acompanha o movimento físico das rochas; a outra acompanha como a massa do planeta está sendo redistribuída.
E é justamente essa diferença que faz o resultado ser tão interessante. A Terra não está literalmente ficando mais redonda e mais achatada da mesma maneira. Ela está mudando de forma em dois sentidos diferentes porque rocha e massa não respondem exatamente da mesma maneira às grandes transformações que acontecem no planeta.