Quando pensamos nas causas do câncer, geralmente lembramos do cigarro, da exposição excessiva ao sol e de fatores relacionados ao estilo de vida. Entretanto, existe outro risco importante que muitas pessoas desconhecem. Ele pode permanecer silencioso no organismo durante anos e contribuir para alterações celulares perigosas. Um levantamento internacional revelou a dimensão desse problema e mostrou que parte dos casos poderia ser evitada com medidas já disponíveis na medicina.
Milhões de casos de câncer estão relacionados a infecções
Uma investigação publicada na revista científica The Lancet Oncology, conduzida pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), revelou um dado preocupante.
Aproximadamente 2,3 milhões de novos diagnósticos de câncer no período analisado estavam associados a agentes infecciosos.
Isso representa cerca de 12% dos casos mundiais, proporção próxima de um em cada oito.
Os pesquisadores identificaram até 12 agentes capazes de contribuir para o desenvolvimento de determinados tumores.
Entretanto, cinco deles concentram a maior parte dos diagnósticos relacionados a infecções.
A bactéria Helicobacter pylori, que coloniza o estômago, aparece associada a aproximadamente 760 mil casos anuais, principalmente de câncer gástrico.
O papilomavírus humano (HPV) está relacionado a cerca de 750 mil diagnósticos, incluindo praticamente todos os casos de câncer do colo do útero e parte dos tumores de ânus, pênis, vulva, vagina e orofaringe.
Já os vírus das hepatites B e C estão associados, respectivamente, a aproximadamente 360 mil e 160 mil casos anuais, sobretudo de câncer de fígado.
O vírus Epstein-Barr também integra a lista, com cerca de 260 mil casos relacionados a determinados linfomas e tumores gástricos e nasofaríngeos.
Esses números mostram que as infecções representam um fator importante na prevenção mundial do câncer.
Como uma infecção pode favorecer o aparecimento de um tumor?
A presença de um vírus ou bactéria no organismo não significa que a pessoa desenvolverá câncer.
Na maioria das situações, isso não acontece.
Entretanto, determinados microrganismos conseguem permanecer no corpo durante longos períodos e interferir em processos fundamentais para o funcionamento celular.
Alguns vírus produzem proteínas que alteram os mecanismos responsáveis por controlar a multiplicação das células.
Outros agentes provocam inflamações persistentes, aumentando as possibilidades de danos celulares ao longo do tempo.
Normalmente, nosso organismo possui sistemas capazes de reparar alterações no DNA ou eliminar células que apresentam problemas graves.
Quando esses mecanismos são comprometidos, determinadas mutações podem se acumular e favorecer o crescimento descontrolado de células.
Esse processo costuma envolver vários fatores e pode levar muitos anos.
A duração da infecção, as características individuais e outras exposições influenciam o risco.
Por isso, ter uma infecção associada ao câncer não equivale a receber um diagnóstico de tumor.

O risco também depende do acesso à saúde
A distribuição desses cânceres apresenta diferenças importantes entre as regiões do planeta.
Em países com maior acesso à vacinação, exames preventivos e tratamentos, diversas infecções associadas ao câncer podem ser controladas com mais eficiência.
Em regiões com sistemas de saúde menos acessíveis, o cenário é diferente.
Na África Subsaariana, por exemplo, aproximadamente um quarto dos diagnósticos de câncer está relacionado a agentes infecciosos, segundo as estimativas apresentadas.
Entre os principais desafios estão os tumores associados ao HPV, ao HIV e ao vírus relacionado ao sarcoma de Kaposi.
No leste da Ásia, destacam-se os cânceres associados à bactéria Helicobacter pylori e à hepatite B.
Essas desigualdades demonstram que prevenir o câncer também depende de políticas públicas, diagnóstico acessível e cobertura vacinal.
A medicina já possui ferramentas para prevenir parte desses cânceres
Apesar dos números elevados, existe uma perspectiva positiva.
Várias infecções relacionadas ao câncer podem ser prevenidas, tratadas ou controladas.
A vacinação contra o HPV reduz o risco de infecções pelos tipos virais responsáveis pela maioria dos cânceres associados a esse agente.
A vacina contra a hepatite B também representa uma importante ferramenta de prevenção do câncer hepático.
No caso da Helicobacter pylori, o diagnóstico e o tratamento com antibióticos podem eliminar a bactéria e reduzir o risco de determinados tumores gástricos.
Os antivirais modernos conseguem curar a maioria das infecções por hepatite C, diminuindo o risco futuro de complicações, embora o acompanhamento continue necessário em alguns pacientes.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece vacinação contra HPV e hepatite B conforme as recomendações do Programa Nacional de Imunizações.
Exames preventivos e acompanhamento médico também são fundamentais para identificar alterações antes que evoluam.
A principal conclusão da pesquisa é que uma parcela expressiva dos cânceres está associada a infecções conhecidas, contra as quais já existem estratégias de prevenção.
O desafio agora é garantir que essas ferramentas alcancem mais pessoas, reduzindo diagnósticos que poderiam ser evitados.