Durante anos, cientistas acreditaram que problemas de memória, dificuldade de concentração e lentidão mental aumentariam o risco de recaídas em pessoas com histórico de depressão. A lógica parecia simples: quanto maior o desgaste cognitivo, maior a vulnerabilidade emocional.
Mas um novo estudo publicado na revista BMJ Mental Health encontrou justamente o contrário.
Pesquisadores das universidades de Oxford e Birmingham observaram que pessoas que já haviam sofrido depressão anteriormente apresentavam maior chance de recaída quando possuíam melhor desempenho cognitivo. Já indivíduos sem histórico depressivo seguiam o padrão esperado: pior função cerebral estava associada a maior risco de desenvolver depressão pela primeira vez.
A descoberta sugere que a relação entre saúde mental e funcionamento do cérebro é muito mais complexa do que se imaginava.
A pesquisa acompanhou quase 4 mil pessoas
O estudo analisou cerca de 1.900 moradores do Reino Unido com histórico de depressão, comparando-os com um número semelhante de participantes que nunca haviam tido o transtorno.
Todos passaram por testes cognitivos e exames de ressonância magnética para avaliar memória, atenção, velocidade de processamento mental e outros indicadores ligados à saúde cerebral.
Os pesquisadores acompanharam os participantes ao longo de vários anos para observar quem voltaria a apresentar sintomas depressivos.
No geral, pessoas com histórico prévio de depressão tinham quase três vezes mais risco de sofrer uma recaída em comparação com aquelas que enfrentaram um primeiro episódio depressivo durante o estudo.
Mas o detalhe que mais chamou atenção apareceu quando os cientistas cruzaram os resultados cognitivos com os episódios futuros de depressão.
O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores

A equipe esperava encontrar uma relação direta entre pior desempenho cognitivo e maior risco de recaída. No entanto, aconteceu o oposto.
Entre os participantes que já haviam enfrentado depressão anteriormente, aqueles com melhor desempenho nos testes cognitivos foram justamente os que apresentaram maior probabilidade de desenvolver novos episódios depressivos.
A psiquiatra Anya Topiwala, uma das líderes da pesquisa, afirmou que os resultados mostram uma relação muito mais delicada entre cognição e depressão.
Segundo ela, muita gente encara dificuldades de memória apenas como consequência do transtorno, mas o estudo indica que o funcionamento cerebral pode influenciar o risco futuro de maneiras inesperadas.
Pessoas sem histórico de depressão seguiram outro padrão
O comportamento foi diferente entre os participantes que nunca haviam tido depressão.
Nesse grupo, os resultados seguiram o que a ciência já vinha observando há anos: quanto pior o desempenho cognitivo, maior o risco de desenvolver um primeiro episódio depressivo.
Segundo os pesquisadores, baixas pontuações cognitivas aumentaram em aproximadamente 40% o risco de uma primeira depressão.
Ou seja: a relação entre cérebro e depressão parece mudar dependendo do histórico emocional da pessoa.
Por que cérebros mais “afiados” poderiam perceber mais a depressão?
Os cientistas ainda não sabem exatamente por que isso acontece, mas uma das hipóteses envolve a própria percepção emocional.
O pesquisador Angharad de Cates explicou que pessoas com melhor funcionamento cognitivo talvez consigam reconhecer sintomas depressivos com mais clareza, perceber mudanças emocionais precocemente e buscar ajuda com mais facilidade.
Já indivíduos com maior comprometimento cognitivo poderiam ter mais dificuldade para identificar o que está acontecendo internamente.
Isso não significa, necessariamente, que pessoas com pior cognição sofram menos sintomas — mas talvez eles sejam menos percebidos, relatados ou diagnosticados.
A depressão continua ligada ao funcionamento do cérebro

Os pesquisadores lembram que alterações cognitivas continuam sendo extremamente comuns em quadros depressivos.
Problemas de memória, atenção e raciocínio afetam até 90% das pessoas com depressão maior. Em cerca de 40% dos casos, essas dificuldades persistem mesmo após melhora dos sintomas emocionais.
Por isso, os autores defendem que tratar a cognição deve fazer parte do acompanhamento de pacientes com histórico depressivo.
A descoberta também reforça uma visão cada vez mais presente na neurociência moderna: depressão não é apenas uma questão emocional isolada, mas um fenômeno profundamente ligado ao funcionamento cerebral, à percepção da realidade e à maneira como o cérebro processa experiências internas.
E, ao que tudo indica, ter uma mente mais “aguçada” talvez não seja sempre uma proteção contra o sofrimento psicológico — às vezes, pode significar perceber esse sofrimento com ainda mais intensidade.
[ Fonte: Infobae ]