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Ciência

Cientistas potencializaram células “assassinas” do organismo e conseguiram fazê-las entrar em tumores

Pesquisadores encontraram uma maneira de tornar determinadas células imunológicas mais eficientes para penetrar tumores sólidos. Os resultados em animais abrem caminho para uma nova etapa da pesquisa.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Nosso organismo possui células que patrulham continuamente os tecidos procurando ameaças e destruindo estruturas consideradas anormais. O câncer, entretanto, aprendeu maneiras sofisticadas de escapar desse sistema de defesa, especialmente quando forma tumores sólidos. Cientistas da Stanford Medicine acreditam ter encontrado uma maneira de virar parte desse jogo: preparar um tipo específico de célula imunológica para entrar no ambiente tumoral e atacar com muito mais eficiência. Por enquanto, os resultados foram obtidos principalmente em laboratório e em camundongos.

As chamadas células assassinas naturais receberam um reforço

Cientistas potencializaram células “assassinas” do organismo e conseguiram fazê-las entrar em tumores
© Unsplash

O estudo se concentra nas células natural killer (NK), conhecidas em português como células assassinas naturais. Descobertas na década de 1970, elas fazem parte do sistema imunológico e possuem uma característica especialmente interessante: conseguem reconhecer e atacar rapidamente determinadas células anormais, incluindo células infectadas por vírus e cancerosas.

Diferentemente de outros componentes da resposta imunológica, as NK não precisam necessariamente reconhecer previamente um alvo específico para entrar em ação.

O problema aparece quando precisam enfrentar tumores sólidos.

Essas estruturas podem criar um microambiente hostil, dificultando a entrada das células imunológicas e liberando sinais capazes de enfraquecer as defesas que conseguem se aproximar.

O grupo liderado por John Sunwoo, professor da Escola de Medicina de Stanford e autor principal do trabalho publicado na Science Translational Medicine, decidiu explorar uma variante das NK que permanece nos tecidos.

Os pesquisadores descobriram uma forma de produzir células com características de residência tecidual e, ao mesmo tempo, preservar uma forte capacidade antitumoral.

Um detalhe no laboratório fez uma diferença enorme

Para descobrir como obter essas células, os pesquisadores isolaram células NK de doadores humanos e testaram diferentes combinações de sinais celulares.

Um componente importante foi o TGF-beta, fator de crescimento envolvido na diferenciação celular.

Os experimentos revelaram algo crucial: não bastava simplesmente expor as células ao sinal. A intensidade e o tempo de exposição faziam diferença.

O TGF-beta ajudava a transformar as NK em células com características de residência nos tecidos, mas a exposição prolongada acabava diminuindo sua capacidade de matar.

A solução encontrada foi diferente. Ao expor brevemente as células NK a células tumorais epiteliais humanas, a equipe conseguiu produzir uma população com características de residência tecidual e elevada atividade antitumoral.

Em experimentos laboratoriais, essas células conseguiram penetrar organoides tumorais.

Depois veio o teste mais importante dessa etapa da pesquisa: utilizá-las em animais.

Os tumores cresceram mais lentamente nos camundongos

Quando as células modificadas foram administradas a camundongos, os pesquisadores observaram uma desaceleração no crescimento de diferentes tumores sólidos, incluindo modelos derivados de melanoma humano e carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço.

Mas os resultados mais expressivos apareceram quando a estratégia foi combinada com outro tratamento.

A equipe utilizou cetuximabe, um anticorpo monoclonal capaz de ajudar a marcar determinadas células cancerosas para que sejam reconhecidas pelo sistema imunológico.

Uma única dose da combinação suprimiu o crescimento tumoral durante cerca de um mês de maneira mais eficiente do que qualquer um dos tratamentos utilizado isoladamente. Os pesquisadores também não observaram efeitos adversos aparentes nos animais durante esse período.

O resultado é promissor, mas existe uma ressalva fundamental: um tratamento funcionar em camundongos não significa que produzirá o mesmo efeito em seres humanos.

O próprio Sunwoo alertou contra extrapolações precipitadas.

Existe outra vantagem que pode ser tão importante quanto combater o tumor

A estratégia possui uma característica que poderia resolver um dos grandes obstáculos das terapias celulares atuais: a fabricação.

Alguns tratamentos precisam utilizar células retiradas do próprio paciente, modificá-las em laboratório e posteriormente devolvê-las ao organismo. É um processo personalizado, complexo e que pode exigir semanas.

As células NK apresentam uma possibilidade diferente porque tendem a oferecer maior potencial para utilização a partir de doadores.

Segundo os pesquisadores, células obtidas de um único doador poderiam gerar aproximadamente 20 doses em cerca de duas semanas. Depois de produzidas, elas poderiam ser congeladas e armazenadas para utilização em diferentes pacientes.

Isso aproxima a ideia de uma terapia celular pronta para uso, em vez de um produto que precisa começar a ser fabricado apenas quando determinado paciente necessita dele.

Se funcionar em humanos, essa característica poderia ajudar a tornar tratamentos celulares mais acessíveis e rápidos.

Mas essa é justamente a próxima grande pergunta.

O verdadeiro teste ainda precisa acontecer em humanos

A equipe de Stanford está preparando um ensaio clínico de fase I para avaliar a terapia combinada em pessoas com carcinoma de células escamosas avançado.

Segundo as informações divulgadas, o estudo poderá começar ainda em 2026, dependendo da autorização da Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos.

Essa primeira etapa não significará que existe uma nova cura disponível. Ensaios iniciais servem principalmente para avaliar segurança, dosagem e comportamento do tratamento em seres humanos antes de estudos maiores sobre eficácia.

Ainda existe, portanto, um caminho considerável pela frente.

Mesmo assim, o trabalho chama atenção porque tenta solucionar simultaneamente dois problemas importantes: fazer células imunológicas entrarem melhor nos tumores sólidos e criar uma terapia que possa ser produzida antecipadamente em maior escala.

A ideia é fascinante justamente por utilizar uma arma que nosso organismo já possui.

Os cientistas não inventaram essas células assassinas. Elas sempre estiveram dentro do sistema imunológico. O que estão tentando descobrir agora é como prepará-las para enfrentar um inimigo que aprendeu, ao longo da evolução do câncer, a mantê-las do lado de fora.

[Fonte: Cadena3]

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