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Tecnologia

A inteligência artificial ficou tão boa em criar imagens que algumas pessoas começaram a sentir saudade de quando ela errava

Imagens tortas, texturas granuladas e interpretações imprevisíveis já foram defeitos da IA. Agora, diante do hiper-realismo quase perfeito, alguns usuários querem justamente aquilo de volta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Houve um tempo, não muito distante, em que reconhecer uma imagem criada por inteligência artificial era quase uma brincadeira. Mãos estranhas, objetos deformados e detalhes inexplicáveis denunciavam imediatamente a máquina. Esses problemas foram desaparecendo em velocidade impressionante. Só que aconteceu algo curioso no caminho: enquanto os modelos ficaram tecnicamente melhores, alguns usuários começaram a sentir falta justamente das imperfeições que os tornavam tão peculiares.

Bastaram quatro anos para a IA começar a provocar nostalgia

A inteligência artificial ficou tão boa em criar imagens que algumas pessoas começaram a sentir saudade de quando ela errava
© Unsplash

Nas últimas semanas, uma comparação começou a circular pelas redes sociais. O experimento era simples: pedir a diferentes gerações de inteligência artificial que criassem a mesma imagem, utilizando exatamente o mesmo comando.

Entre elas estava o DALL-E 2, lançado pela OpenAI em abril de 2022, e modelos muito mais recentes.

Seria razoável imaginar que a preferência estivesse concentrada nas versões atuais. Afinal, elas interpretam instruções com maior precisão, criam detalhes convincentes e conseguem alcançar níveis de realismo que pareciam impossíveis há poucos anos.

Mas aconteceu o contrário para muitos usuários.

A imagem produzida pelo antigo DALL-E 2 começou a receber elogios justamente por suas características tecnicamente inferiores: granulação, pinceladas aparentes, texturas imperfeitas e uma estética que lembrava fotografia analógica ou pintura.

O modelo foi retirado pela OpenAI em 2026, depois de apenas quatro anos de existência. Tempo suficiente para passar de demonstração futurista a objeto de nostalgia.

E o motivo talvez esteja justamente naquilo que ele não conseguia fazer perfeitamente.

O antigo DALL-E 2 tinha algo que os modelos modernos perderam

Criar uma imagem com DALL-E 2 envolvia uma dose considerável de imprevisibilidade.

O usuário escrevia uma instrução, mas o modelo interpretava aquilo com certa liberdade. Algumas partes eram ignoradas, outras apareciam de maneiras inesperadas e ocasionalmente surgia um resultado que ninguém havia pedido exatamente daquela forma.

Hoje, a situação é muito diferente.

Modelos modernos conseguem seguir prompts cada vez mais detalhados. Quanto mais específica for a descrição, maior tende a ser a fidelidade do resultado.

Tecnicamente, isso representa um enorme avanço.

Artisticamente, porém, algumas pessoas enxergam uma perda: o acidente desapareceu.

Uma imagem que interpreta mal uma instrução pode produzir algo inesperado. Uma ferramenta que obedece perfeitamente tende a entregar exatamente aquilo que foi solicitado.

Essa diferença ajuda a explicar por que certas imagens antigas agora parecem possuir mais personalidade, mesmo sendo claramente inferiores em anatomia, composição e precisão.

O ruído que engenheiros trabalharam durante anos para eliminar acabou adquirindo outro significado: virou estilo.

A busca pela perfeição pode ter criado uma estética repetitiva

Existe outro problema no caminho até o hiper-realismo.

Modelos de geração de imagens são ajustados utilizando avaliações humanas para aprender quais resultados costumam ser considerados melhores. O problema é que aquilo que impressiona rapidamente durante uma comparação nem sempre é aquilo que continua interessante depois de vários minutos.

Composições equilibradas, cores intensas, detalhes abundantes, contrastes fortes e superfícies extremamente limpas costumam causar uma boa primeira impressão.

Quando essas características são reforçadas repetidamente, entretanto, surge uma estética familiar.

É aquela imagem de IA aparentemente perfeita que possui bordas impecáveis, iluminação cinematográfica, cores exageradamente controladas e uma limpeza quase artificial demais para parecer natural.

O paradoxo é interessante.

Durante anos, o objetivo foi fazer imagens geradas por computador parecerem menos artificiais. Agora que elas conseguem reproduzir a realidade com enorme precisão, algumas pessoas identificam a origem sintética justamente pela perfeição excessiva.

A fotografia e a música já passaram por algo parecido

Essa nostalgia tecnológica não começou com a inteligência artificial.

Quando as câmeras digitais eliminaram limitações dos filmes fotográficos, muitos fotógrafos acabaram recuperando deliberadamente grão, cores desbotadas e outras imperfeições analógicas.

Algo semelhante aconteceu com a música.

Gravações digitais permitiram reduzir ruídos e alcançar enorme clareza. Ainda assim, produtores continuam utilizando efeitos que simulam fitas magnéticas, distorções e equipamentos antigos porque aquela pequena imperfeição pode transmitir uma sensação de calor ou personalidade.

A IA generativa parece estar percorrendo o mesmo caminho, apenas muito mais rapidamente.

O DALL-E 2 oferecia interpretações livres e resultados irregulares. O DALL-E 3 avançou na fidelidade às instruções. Os modelos atuais conseguem alcançar um grau extraordinário de correção técnica e fotorrealismo.

Só que cada avanço também diminuiu parte da imprevisibilidade que caracterizava as primeiras gerações.

Mas não devemos romantizar todos aqueles erros

Existe uma armadilha evidente nessa nostalgia.

O DALL-E 2 não criava mãos deformadas ou composições quebradas porque possuía uma visão artística revolucionária. Grande parte dessas características era simplesmente resultado das limitações técnicas do modelo.

O que hoje parece uma escolha estética muitas vezes era um erro que os desenvolvedores estavam tentando resolver.

Nem todos concordam, portanto, que as ferramentas antigas fossem melhores. Os modelos atuais oferecem controle incomparavelmente maior e permitem que profissionais obtenham resultados que seriam extremamente difíceis com gerações anteriores.

A questão interessante talvez não seja escolher entre imperfeição antiga ou perfeição moderna, mas conseguir reunir as duas coisas.

Algumas ferramentas e estúdios já exploram maneiras de recuperar deliberadamente o aspecto visual associado às primeiras IAs, utilizando filtros e estilos que simulam suas texturas e irregularidades.

É quase como aplicar um filtro de filme analógico a uma fotografia capturada pelo celular.

A inteligência artificial passou anos tentando eliminar seus defeitos. Agora começa a descobrir que talvez alguns deles fossem justamente aquilo que dava personalidade às imagens.

E essa pode ser a próxima grande disputa da IA generativa: não produzir a imagem tecnicamente mais perfeita, mas aprender qual imperfeição vale a pena preservar.

[Fonte: Xataka]

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