Durante décadas, a paleogenômica revolucionou o estudo de espécies desaparecidas ao permitir que cientistas recuperassem e analisassem DNA antigo. Graças a essa tecnologia, tornou-se possível reconstruir genomas, compreender relações evolutivas e até alimentar projetos ambiciosos voltados para a desextinção. Mas havia uma limitação importante: o DNA mostra quais genes existiam, mas não revela como eles funcionavam no organismo.
Agora, um grupo de pesquisadores suecos alcançou um feito que pode transformar essa área da ciência. Pela primeira vez, cientistas conseguiram analisar moléculas associadas à atividade celular de um animal extinto, obtendo pistas diretas sobre o funcionamento de seus tecidos. O protagonista dessa descoberta foi o famoso tigre-da-Tasmânia, também conhecido como tilacino.
O desafio de estudar um animal desaparecido
El lobo marsupial o tilacino (Thylacinus cynocephalus) era endémico de la isla de Tasmania y el último ejemplar vivo murió en el zoológico de Hobart en 1936 (el video es de 1933) pic.twitter.com/DFMEQeOAYi
— El Jardín de Charles (@CRCiencia) May 6, 2024
O estudo foi publicado na revista científica Genome Research e liderado por Marc R. Friedländer, pesquisador da Universidade de Estocolmo. A equipe trabalhou com amostras preservadas de um tilacino mantido no Museu Sueco de História Natural.
O tilacino era um marsupial carnívoro que habitava a Tasmânia e partes da Austrália. Considerado um dos principais predadores da região, ele sofreu intensa perseguição humana durante décadas. A combinação entre caça sistemática e destruição de habitat levou a espécie à extinção. O último exemplar conhecido morreu em cativeiro em 1936.
Parte dos tecidos desse animal permaneceu preservada por quase um século em condições secas e em temperatura ambiente. Foi justamente essa conservação que tornou possível a descoberta.
Por que o RNA é mais importante do que parece

Ao contrário da maioria dos estudos envolvendo espécies extintas, os pesquisadores não focaram apenas no DNA. O grande diferencial foi a análise do RNA, uma molécula responsável por transmitir e regular informações genéticas dentro das células.
Enquanto o DNA funciona como um manual de instruções, o RNA mostra quais partes desse manual estavam sendo utilizadas em determinado momento. Isso permite identificar quais genes estavam ativos em tecidos específicos e compreender melhor como o organismo funcionava.
O problema é que o RNA é extremamente frágil. Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que ele não poderia sobreviver por décadas ou séculos após a morte de um animal.
O novo estudo mostrou que essa visão estava incompleta. Em condições adequadas de preservação, moléculas de RNA podem resistir muito mais tempo do que se imaginava.
Como os pesquisadores comprovaram a autenticidade das amostras
Uma das maiores preocupações era garantir que o material analisado realmente pertencesse ao tilacino e não fosse resultado de contaminações modernas.
Para isso, a equipe utilizou laboratórios especializados em material genético antigo e adotou protocolos rigorosos de controle.
As análises mostraram que a maior parte das sequências encontradas correspondia ao genoma já conhecido do tigre-da-Tasmânia. Os vestígios de material humano eram mínimos e compatíveis com a manipulação histórica do espécime ao longo das décadas.
Os pesquisadores também utilizaram técnicas de metatranscriptômica, capazes de identificar a origem de todas as moléculas de RNA presentes em uma amostra. Dessa forma, foi possível distinguir fragmentos pertencentes ao animal daqueles provenientes de bactérias, fungos ou outros contaminantes ambientais.
Além disso, o padrão de degradação química observado era compatível com material biológico antigo, reforçando ainda mais a autenticidade dos resultados.
O que os tecidos revelaram sobre o tilacino
As análises concentraram-se em amostras de músculo e pele.
No tecido muscular, os cientistas identificaram forte atividade de genes ligados à contração muscular e ao metabolismo energético. As características observadas eram compatíveis com a região do corpo de onde a amostra havia sido retirada, próxima à escápula.
Já na pele, predominavam genes relacionados à produção de queratina, proteína essencial para a proteção externa do organismo. Também foram encontrados vestígios de RNA associado à hemoglobina, indicando a presença de sangue durante a preparação original do espécime.
Quando esses resultados foram comparados com dados de marsupiais modernos e outros mamíferos, surgiu um padrão consistente: os tecidos preservavam características funcionais compatíveis com suas funções biológicas originais.
Uma nova janela para o passado
Entre as descobertas mais importantes está a identificação de diversos microRNAs, pequenas moléculas reguladoras que controlam a produção de proteínas dentro das células.
Os pesquisadores conseguiram ampliar significativamente o catálogo conhecido de microRNAs do tilacino e até identificar variantes exclusivas da espécie. Esse tipo de informação não pode ser obtido apenas através da análise do DNA.
Além disso, o estudo ajudou a refinar o genoma do animal, identificando regiões que haviam passado despercebidas em pesquisas anteriores.
Os cientistas também encontraram indícios de antigos vírus de RNA preservados nos tecidos. Embora essa hipótese ainda precise de confirmação, ela sugere que coleções de museus podem se tornar verdadeiros arquivos da evolução viral.
O resultado mostra que o estudo de espécies extintas está entrando em uma nova fase. Em vez de apenas reconstruir o código genético de animais desaparecidos, os pesquisadores começam agora a desvendar como esses organismos realmente funcionavam. E isso pode transformar profundamente nossa compreensão da evolução da vida na Terra.
[ Fonte: Diario Ok ]