“Faça mais exercício” é uma orientação frequente nos consultórios. Para um grupo de psiquiatras, porém, essa frase deixa o trabalho pela metade. Em artigo publicado na revista Brain Health, os especialistas defendem que a atividade física entre no tratamento com uma prescrição concreta: modalidade, frequência, intensidade, duração e acompanhamento. A proposta considera evidências de benefícios para a saúde mental, mas também as dificuldades que podem impedir alguém com depressão ou ansiedade de começar e manter uma rotina.
O que muda quando o exercício vira uma prescrição

O texto é assinado por Carl Zhou e Nicholas Fabiano, da Universidade de Ottawa, e Stanley Wong, da Universidade de Toronto. Trata-se de um artigo de perspectiva, que discute pesquisas anteriores e propõe mudanças na prática clínica.
Os autores defendem um plano acordado com o paciente, com orientações sobre segurança e uma previsão de reavaliação. O objetivo é incorporar o movimento ao cuidado da saúde cerebral, junto às demais intervenções indicadas para cada caso.
Isso exige perguntar o que a pessoa consegue fazer, quais atividades prefere e quais obstáculos enfrenta. Uma rotina inviável, mesmo bem fundamentada, dificilmente produzirá os benefícios esperados.
Na prática, há uma diferença entre sugerir caminhadas e combinar uma atividade com duração inicial, frequência possível e um momento para avaliar a resposta. O acompanhamento também permite ajustar o plano quando surgem dor, cansaço excessivo, falta de adesão ou mudanças nos sintomas.
A depressão concentra parte importante das evidências
Uma das pesquisas citadas nessa discussão é a revisão com metanálise publicada no BMJ em 2024. O trabalho reuniu 218 estudos e 14.170 participantes que atendiam a critérios clínicos de depressão.
A análise encontrou redução de sintomas com modalidades como caminhada ou corrida leve, ioga, treinamento de força e exercícios aeróbicos combinados. Os autores consideraram que essas opções poderiam integrar o tratamento ao lado da psicoterapia e dos antidepressivos.
Entretanto, a qualidade das evidências impõe limites. Apenas um estudo cumpriu os critérios de baixo risco de viés utilizados na avaliação. A confiança nos resultados foi baixa para caminhada ou corrida e muito baixa para as demais modalidades.
Isso não elimina o sinal de benefício, mas reduz a segurança de conclusões sobre a melhor modalidade ou o tamanho exato do efeito. Também dificulta transformar a média dos estudos em uma previsão para cada paciente.
Outro resultado da análise foi a associação entre maior intensidade prescrita e efeitos mais expressivos. Ainda assim, esse achado não justifica começar por treinos extenuantes. A capacidade física, as preferências e a possibilidade de manter a atividade precisam orientar a escolha.
Comparações com terapia e medicamentos exigem cuidado

Uma atualização da Cochrane, divulgada em janeiro de 2026, examinou 73 ensaios clínicos randomizados com quase 5 mil adultos com depressão.
O exercício apresentou benefício moderado na redução dos sintomas em comparação com ausência de tratamento ou intervenções de controle. Nas comparações com psicoterapia, os resultados foram semelhantes, com evidência de certeza moderada. Já a comparação com antidepressivos também sugeriu efeitos semelhantes, mas se apoiou em evidências limitadas e de baixa certeza.
A conclusão não permite afirmar que todos os tratamentos sejam intercambiáveis. A decisão clínica depende da gravidade do quadro, das necessidades da pessoa e da resposta ao cuidado.
A Cochrane também destacou incertezas sobre a duração dos benefícios, pois poucos estudos acompanharam os participantes depois da intervenção. A maioria dos ensaios era pequena, com menos de cem pessoas.
Além disso, essa revisão encontrou sinais favoráveis para exercício de intensidade leve a moderada. A diferença em relação à análise do BMJ mostra que ainda não há uma resposta única sobre qual intensidade funciona melhor para todos.
E no caso da ansiedade?
A atividade física pode ajudar a reduzir sintomas de ansiedade, mas isso não significa que a evidência seja igualmente sólida para todos os transtornos.
Uma revisão publicada na Frontiers in Psychiatry, em 2026, encontrou respaldo mais consistente para transtornos depressivos. Para os transtornos de ansiedade, os resultados foram mais heterogêneos e sensíveis ao tipo de comparação utilizado.
Algumas análises misturavam pessoas com depressão e ansiedade, dificultando separar o efeito em cada diagnóstico. Outras reuniam condições diferentes, como transtorno de pânico e outros quadros ansiosos.
Essa distinção ajuda a evitar promessas amplas demais. Reduzir ansiedade em uma população variada não demonstra automaticamente a mesma eficácia para tratar um transtorno específico.
Os autores defendem que o exercício seja discutido como uma opção centrada no paciente e, especialmente nos transtornos de ansiedade, como cuidado de apoio. A revisão não encontrou base para afirmar superioridade sobre psicoterapia ou medicamentos.
Começar pode ser a parte mais difícil do tratamento

A depressão pode comprometer justamente a energia, a motivação e a organização necessárias para manter uma rotina. Por isso, a proposta discutida na Brain Health inclui metas graduais e atenção às barreiras individuais.
A reportagem do Infobae cita possibilidades como caminhadas breves, exercícios sentados, atividades supervisionadas e encaminhamento à fisioterapia. Também destaca dificuldades que vão além dos sintomas: dor crônica, deficiência, responsabilidades de cuidado, falta de dinheiro e ausência de espaços seguros.
Uma prescrição útil precisa responder a essas condições. O plano pode começar pequeno e avançar conforme a pessoa consegue incorporá-lo ao cotidiano. O acompanhamento serve para identificar dificuldades e construir alternativas, sem tratar a falta de adesão como falha de caráter.
Preferências também importam. Uma atividade considerada ideal no papel pode ser menos sustentável do que outra que a pessoa aprecia e consegue realizar regularmente.
As metas gerais ajudam, mas não substituem a individualização
A Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos acumulem pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada. Ao mesmo tempo, ressalta que qualquer quantidade é melhor do que nenhuma e que todo movimento conta.
A definição inclui atividades de lazer, deslocamentos e tarefas do cotidiano. Caminhar, pedalar, praticar esportes e participar de atividades recreativas são algumas das formas possíveis de se movimentar.
Essas referências ajudam a orientar a saúde pública, mas não funcionam como uma dose obrigatória de início para alguém em sofrimento psíquico. O plano individual pode precisar de adaptação, progressão e apoio profissional.
A discussão também envolve acesso. A OMS reconhece que condições sociais, econômicas e ambientais influenciam as oportunidades de atividade física. Portanto, ampliar sua presença no tratamento exige mais do que entregar uma orientação: envolve oferecer condições para que ela possa ser seguida.
O argumento dos especialistas é dar ao exercício um lugar definido no cuidado. Isso significa escolher uma atividade possível, acompanhar seus efeitos e integrá-la ao tratamento adequado. A receita pode começar com poucos minutos; sua qualidade depende de fazer sentido para a pessoa e de vir acompanhada do suporte necessário para continuar.