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Ciência

Comer alho cru em jejum faz bem? A ciência revela o que realmente acontece no organismo

Consumir alho cru logo pela manhã virou um hábito popular associado à saúde. Pesquisas revelam benefícios interessantes, mas também mostram que existe um detalhe importante nessa prática.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Engolir um dente de alho cru antes do café da manhã pode parecer um costume estranho, mas a prática atravessa gerações e ganhou popularidade nas redes sociais. Seus defensores afirmam que o hábito melhora a circulação, fortalece a imunidade e protege o coração. Entretanto, o que realmente acontece no organismo quando consumimos alho dessa maneira? Estudos científicos ajudam a separar os benefícios comprovados das promessas exageradas.

O que torna o alho cru tão interessante para a ciência?

Comer alho cru em jejum faz bem? A ciência revela o que realmente acontece no organismo
© Pexels

O alho (Allium sativum) é utilizado há milhares de anos tanto na culinária quanto na medicina tradicional. Seu aroma característico está relacionado a compostos sulfurados que também despertam interesse científico.

Entre essas substâncias, uma das mais estudadas é a alicina.

Curiosamente, ela não está presente em grandes quantidades no dente de alho intacto. Sua formação começa quando o alimento é cortado, triturado ou mastigado.

Nesse processo, uma enzima chamada alinase entra em contato com a aliina, dando origem à alicina, substância associada a diferentes atividades biológicas observadas em pesquisas laboratoriais.

O aquecimento intenso pode inativar essa enzima, reduzindo a formação de alicina. Por isso, o alho cru costuma apresentar características químicas diferentes das versões cozidas ou assadas.

Uma maneira de favorecer essa reação é amassar ou picar o alho e aguardar aproximadamente dez minutos antes de utilizá-lo.

Entretanto, existe uma diferença importante entre produzir alicina no alimento e garantir benefícios clínicos após sua ingestão. A substância é instável, e sua disponibilidade no organismo depende de diferentes fatores.

O alho pode realmente reduzir a pressão arterial?

Comer alho cru em jejum faz bem? A ciência revela o que realmente acontece no organismo
© Pexels

Entre os possíveis benefícios do alho, os efeitos sobre a saúde cardiovascular estão entre os mais investigados.

Uma revisão de estudos clínicos publicada em 2016, envolvendo 20 ensaios e 970 participantes, identificou reduções médias de aproximadamente 5,1 mmHg na pressão sistólica e 2,5 mmHg na diastólica entre pessoas que receberam preparações de alho.

Os resultados sugerem um possível efeito favorável, especialmente em indivíduos com hipertensão.

Entretanto, os estudos utilizaram diferentes formulações, doses e períodos de acompanhamento. Isso significa que não é possível afirmar que comer um dente de alho cru diariamente produzirá exatamente os mesmos resultados.

O Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCCIH) reconhece que suplementos de alho podem proporcionar pequenas reduções da pressão arterial, mas ressalta que as evidências ainda apresentam limitações.

Outro efeito investigado envolve o colesterol.

Alguns ensaios indicam que preparações de alho podem reduzir discretamente o colesterol total e o LDL, conhecido como colesterol ruim, principalmente quando utilizadas durante várias semanas.

Esses resultados, porém, são modestos quando comparados aos efeitos de medicamentos específicos.

O alho pode fazer parte de uma alimentação saudável, mas não substitui tratamentos prescritos para hipertensão ou colesterol elevado.

Fortalecimento da imunidade: benefício real ou exagero?

Outra afirmação bastante difundida é que consumir alho cru diariamente fortalece as defesas naturais do organismo.

Pesquisas laboratoriais mostram que determinados compostos presentes no alho apresentam atividades antioxidantes e antimicrobianas.

Alguns estudos clínicos também identificaram alterações em marcadores inflamatórios após o consumo de suplementos derivados desse alimento.

Entretanto, isso não significa necessariamente que comer alho previna infecções respiratórias ou reduza a frequência de doenças.

De acordo com as informações científicas dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, os estudos sobre alho e prevenção de resfriados ainda são limitados.

Uma parte das pesquisas envolve poucos participantes, enquanto outras apresentam diferenças metodológicas que dificultam conclusões definitivas.

Portanto, embora o alho contenha substâncias biologicamente interessantes, não existem evidências suficientes para considerá-lo uma proteção garantida contra gripes, resfriados ou outras infecções.

Comer alho em jejum é melhor do que durante as refeições?

Essa é provavelmente a principal dúvida envolvendo o hábito.

Apesar da crença de que o estômago vazio favorece a absorção dos compostos ativos, não existem evidências clínicas robustas demonstrando que consumir alho em jejum seja mais benéfico do que incluí-lo nas refeições.

A maioria dos estudos sobre seus possíveis efeitos utiliza suplementos ou preparações padronizadas, sem estabelecer um horário específico para o consumo.

Na prática, comer alho com outros alimentos pode até representar uma alternativa mais confortável.

Isso acontece porque o alho cru pode provocar irritação gastrointestinal, especialmente em pessoas sensíveis.

Azia, gases, náuseas e desconforto abdominal estão entre os efeitos relatados.

Quem apresenta gastrite, refluxo gastroesofágico ou sensibilidade digestiva pode perceber piora dos sintomas quando consome alho cru, principalmente em grandes quantidades.

Assim, o horário não parece ser o fator determinante. A tolerância individual e o contexto geral da alimentação são mais relevantes.

Quem deve ter cuidado antes de consumir alho diariamente?

Embora seja considerado seguro nas quantidades normalmente utilizadas na culinária, o alho exige algumas precauções.

Pessoas que utilizam anticoagulantes, como a varfarina, ou medicamentos que interferem na coagulação precisam ter atenção especial aos suplementos de alho, pois eles podem aumentar o risco de sangramentos.

O mesmo cuidado vale para quem tem cirurgias programadas.

Suplementos concentrados também podem interagir com determinados medicamentos, incluindo alguns utilizados no tratamento da hipertensão.

Gestantes e mulheres que amamentam devem evitar doses medicinais sem orientação profissional.

Para a maioria dos adultos saudáveis, utilizar alho como tempero é uma prática alimentar segura. Entretanto, não existe uma quantidade diária universalmente estabelecida que garanta benefícios terapêuticos.

A conclusão científica é menos espetacular do que muitas promessas encontradas na internet, mas bastante útil: o alho possui compostos interessantes e pode contribuir para uma alimentação equilibrada.

O que não está demonstrado é que consumi-lo cru, em jejum, ofereça vantagens especiais.

Mais importante do que engolir um dente de alho todas as manhãs é manter hábitos consistentes, como consumir vegetais, reduzir o excesso de sal, praticar atividades físicas e acompanhar regularmente a saúde cardiovascular.

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