Séculos antes de telescópios, computadores e simulações astronômicas, a civilização maia já era capaz de prever eclipses solares com uma precisão que intriga pesquisadores até hoje. Um novo estudo conduzido por cientistas dos Estados Unidos analisa um dos manuscritos mais importantes da cultura maia, o Códice de Dresden, e propõe uma explicação detalhada para o método usado entre os séculos XI e XII. A descoberta lança nova luz sobre o conhecimento astronômico desse povo avançado.
O manuscrito que guardava o segredo dos eclipses

O novo estudo — assinado por John Justeson, da Universidade de Albany, e Justin Lowry, da Universidade Estadual de Nova York — analisa um texto de 78 páginas produzido em papel de casca de árvore. Redigido entre os séculos XI e XII, ele reúne informações sobre astronomia, estações do ano, medicina e rituais.
Grande parte dos documentos maias foi destruída durante a Inquisição Espanhola, o que tornou o Códice de Dresden uma das raras fontes preservadas de seus registros astronômicos. Entre seus conteúdos está uma tabela dedicada a eclipses solares, cuja lógica interna permanecia parcialmente enigmática — até agora.
Como funcionava o cálculo: ciclos lunares e reinicializações
Os pesquisadores propõem que os maias utilizavam ciclos lunares específicos para prever quando o Sol e a Lua se alinhariam de forma a permitir um eclipse. Essa técnica envolvia acompanhar meses lunares consecutivos e ajustar desvios acumulados ao longo dos anos.
Segundo o estudo, o método incluía o uso de um ciclo de 223 meses lunares, equivalente ao conhecido ciclo de Saros (que no Ocidente seria documentado muito mais tarde). Os maias, porém, aplicavam correções adicionais: ocasionalmente, uma nova tabela sucessora começava no 223º mês, aproximadamente 10 horas e 10 minutos após o alinhamento previsto, compensando diferenças acumuladas ao longo dos cálculos.
Essa combinação de ciclos e reinicializações permitia ao sistema maia manter previsões estáveis durante séculos.
Por que os eclipses eram tão importantes para os maias
A astronomia maia tinha implicações muito além da observação científica. O calendário avançado desse povo — muitas vezes mal interpretado como profecia apocalíptica — tinha como objetivo central organizar a vida social, agrícola e religiosa.
Os eclipses, em particular, possuíam forte carga simbólica. Eclipses totais eram associados ao deus do Sol, e cerimônias ritualísticas, incluindo sacrifícios, eram realizadas nesses períodos. Prever esses eventos não era apenas um exercício matemático: era essencial para manter a ordem religiosa e política da sociedade.
Uma precisão que impressiona até hoje
Com a reconstrução do método maia, os cientistas concluíram que o sistema apresentava um desvio de apenas algumas horas em relação ao instante real dos eclipses solares observados na região entre 350 e 1150 d.C.
Para um cálculo desenvolvido sem instrumentos ópticos, sem matemática formalizada e baseado apenas em observação sistemática, trata-se de uma precisão extraordinária — comparável, em alguns casos, à acurácia de calendários modernos.
Justeson e Lowry destacam que a sofisticação do sistema mostra “um entendimento profundo de ciclos astronômicos e um modelo interno coerente do comportamento do Sol e da Lua”.
Um legado científico que continua a surpreender
O estudo reforça a visão de que os maias não apenas observavam o céu, mas compreendiam suas regularidades de forma sistemática, transformando padrões astronômicos em ferramentas sociais. A sobrevivência do Códice de Dresden permite que parte desse conhecimento ainda seja reconstruída.
A cada nova análise, fica mais clara a complexidade dessa civilização que, sem tecnologia moderna, desenvolveu uma astronomia avançada o suficiente para prever eclipses com precisão quase milenar.
[ Fonte: CNN Brasil ]