Cada vez mais crianças e adolescentes demonstram interesse em adotar dietas vegetarianas ou veganas, seja por motivos éticos, ambientais ou de saúde. A boa notícia é que a ciência não descarta essas escolhas. A má é que elas exigem atenção redobrada. Um novo estudo internacional reforça que dietas à base de plantas podem ser adequadas para crianças — mas apenas quando bem planejadas e acompanhadas.
A pesquisa, publicada na revista Critical Reviews in Food Science and Nutrition, analisou de forma abrangente os efeitos dessas dietas na nutrição e na saúde infantil. Os resultados mostram um cenário equilibrado: há benefícios claros, mas também riscos reais quando nutrientes essenciais não são monitorados.
O que o estudo analisou
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Austrália, Itália e Estados Unidos, que revisaram dados de 59 estudos científicos envolvendo 48.626 participantes com menos de 18 anos. As pesquisas compararam crianças com dietas onívoras, vegetarianas e veganas — incluindo a chamada dieta lacto-ovo-vegetariana, que permite o consumo de ovos e laticínios, mas exclui carne.
O objetivo foi avaliar tanto a ingestão de nutrientes quanto indicadores de saúde, como crescimento, perfil metabólico e risco de deficiências nutricionais.
Os pontos positivos das dietas vegetarianas e veganas
Em média, crianças vegetarianas e veganas consumiam mais fibras, ferro, folato, vitamina C e magnésio do que crianças onívoras. Além disso, a ingestão calórica total tendia a ser menor, o que se refletia em um perfil corporal mais magro.
O estudo também encontrou sinais favoráveis para a saúde cardiovascular. Crianças em dietas à base de plantas apresentaram níveis mais baixos de colesterol total e de LDL, conhecido como “colesterol ruim”, um marcador associado ao risco futuro de doenças cardíacas.
Esses resultados reforçam achados anteriores de que dietas ricas em alimentos vegetais, quando bem estruturadas, podem trazer benefícios metabólicos desde a infância.
Onde surgem os riscos
Apesar dos pontos positivos, os pesquisadores identificaram lacunas nutricionais relevantes. Crianças vegetarianas e veganas, em geral, consumiam menos proteínas, gorduras, vitamina B12, vitamina D e zinco. Entre as crianças veganas, a ingestão de cálcio foi particularmente baixa.
Essas deficiências não são triviais. A vitamina B12, por exemplo, é essencial para o sistema nervoso e a produção de células sanguíneas, e praticamente não existe em alimentos vegetais. Já o cálcio e a vitamina D são fundamentais para o crescimento ósseo durante a infância e a adolescência.
O estudo também observou diferenças no crescimento. Crianças vegetarianas eram, em média, ligeiramente mais baixas do que as onívoras, enquanto crianças veganas apresentavam estatura ainda menor. Embora a maioria ainda atendesse às necessidades nutricionais básicas, os riscos específicos chamam atenção: vegetarianos tinham maior probabilidade de deficiência de ferro e anemia, enquanto veganos apresentavam maior risco de deficiência de vitamina B12.
Planejamento é a palavra-chave
Os autores deixam claro que os resultados não devem afastar famílias da ideia de uma dieta baseada em plantas. Outras pesquisas já demonstraram que dietas vegetarianas e veganas bem planejadas podem ser nutricionalmente adequadas para crianças e adolescentes.
O problema surge quando essas dietas são adotadas sem orientação ou acompanhamento. “Esses achados reforçam a necessidade de planejamento alimentar cuidadoso e suplementação em crianças vegetarianas e veganas”, escreveram os pesquisadores.
Segundo Wolfgang Marx, pesquisador do Food & Mood Center da Universidade Deakin, na Austrália, o equilíbrio é essencial. “Nossos resultados sugerem que as famílias precisam prestar atenção especial a certos nutrientes — particularmente vitamina B12, cálcio, iodo, ferro e zinco — para garantir que as crianças recebam tudo o que precisam para se desenvolver de forma saudável”, afirmou.
O que isso significa na prática
Na prática, isso implica que dietas à base de plantas para crianças devem incluir alimentos fortificados, combinações adequadas de proteínas vegetais e, em muitos casos, suplementação nutricional. O acompanhamento com pediatras e nutricionistas é altamente recomendado, especialmente em fases de rápido crescimento.
A mensagem central do estudo é clara: dietas vegetarianas e veganas não são inerentemente inadequadas para crianças, mas também não são automáticas ou “naturais” do ponto de vista nutricional. Elas exigem informação, planejamento e responsabilidade.
Quando bem conduzidas, podem apoiar a saúde cardiovascular e metabólica desde cedo. Sem esse cuidado, porém, podem comprometer nutrientes essenciais em uma fase crucial do desenvolvimento.