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Tecnologia

Construímos milhares de barragens e acabamos alterando um movimento da Terra

Durante quase dois séculos, milhares de barragens mudaram rios e paisagens. Agora, cientistas descobriram que essa enorme redistribuição de água produziu um efeito inesperado no próprio planeta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Barragens costumam ser associadas à geração de energia, ao abastecimento de cidades e ao controle de enchentes. Mas quando milhares dessas estruturas entram na conta ao mesmo tempo, seus impactos vão muito além dos rios. Um novo estudo mostra que o enorme volume de água armazenado ao redor do mundo alterou a distribuição de massa da Terra de forma suficiente para produzir um efeito detectável em seu movimento. A mudança é extremamente pequena, mas revela como obras humanas podem influenciar processos físicos planetários.

Como bilhões de toneladas de água podem alterar um planeta inteiro

Durante muito tempo, acreditou-se que apenas fenômenos naturais, como o derretimento das calotas polares, as correntes oceânicas ou os movimentos da atmosfera, eram capazes de modificar a forma como a Terra gira. No entanto, uma pesquisa publicada na revista Geophysical Research Letters mostra que a ação humana também passou a fazer parte dessa equação.

Os pesquisadores analisaram quase 7 mil reservatórios construídos entre 1835 e 2011. Somados, esses empreendimentos armazenaram uma quantidade gigantesca de água, suficiente para alterar discretamente a distribuição de massa do planeta.

A Terra não é uma esfera perfeitamente rígida. Seu interior, os oceanos, a atmosfera, o gelo e a água continental estão em constante movimento. Sempre que grandes volumes de massa mudam de lugar, o eixo em torno do qual o planeta gira também sofre pequenas variações.

Uma comparação simples ajuda a entender esse comportamento. Quando um patinador artístico aproxima ou afasta os braços durante uma pirueta, sua rotação muda levemente. Algo semelhante acontece com a Terra quando enormes quantidades de água deixam de seguir seu curso natural e permanecem acumuladas em reservatórios.

Segundo os cálculos do estudo, a soma desses deslocamentos fez o polo de rotação percorrer aproximadamente 1,13 metro ao longo de quase dois séculos. Isso não significa que o planeta tenha “entortado” ou mudado sua inclinação de forma perceptível, mas demonstra que a redistribuição de massa pode ser medida com instrumentos extremamente precisos.

Além disso, como parte dessa água permaneceu retida nos reservatórios em vez de chegar aos oceanos, os pesquisadores estimam que o nível médio global do mar ficou cerca de 21 milímetros menor do que estaria sem essas barragens.

Movimento Da Terra1
© Magnific

A construção das barragens mudou de continente — e o efeito acompanhou essa mudança

Os cientistas reconstruíram a localização, a capacidade de armazenamento e o período de enchimento de cada reservatório analisado. Isso permitiu identificar como o deslocamento do polo terrestre evoluiu ao longo do tempo.

Nas primeiras décadas do levantamento, entre o século XIX e meados dos anos 1950, a maior parte das grandes barragens foi construída na Europa e na América do Norte. Mais tarde, o crescimento acelerado desse tipo de infraestrutura ocorreu principalmente na Ásia e em regiões da África.

Essa mudança geográfica fez com que a trajetória do polo terrestre também alterasse sua direção ao longo das décadas, acompanhando a nova distribuição da massa de água no planeta.

Os pesquisadores ressaltam que esse movimento faz parte de um fenômeno conhecido como movimento polar, observado continuamente por geofísicos. A novidade é demonstrar que as atividades humanas também precisam ser consideradas nesses modelos.

Outro exemplo frequentemente citado é a Barragem das Três Gargantas, na China. Estudos anteriores estimaram que, quando completamente cheia, ela poderia aumentar a duração do dia em cerca de 0,06 microssegundo e deslocar o polo terrestre alguns centímetros.

Embora esses números pareçam impressionantes, eles são pequenos demais para produzir qualquer efeito perceptível no cotidiano. Um microssegundo corresponde à milionésima parte de um segundo.

Uma descoberta importante para entender o futuro do planeta

Os autores deixam claro que ninguém precisa se preocupar com mudanças nas estações do ano ou com alterações na inclinação da Terra por causa das barragens.

A importância da pesquisa está em outro aspecto: compreender com maior precisão como o planeta responde às transformações provocadas pela humanidade.

Hoje, cientistas utilizam o movimento dos polos para investigar mudanças climáticas, perda de geleiras, circulação das águas subterrâneas e variações no nível do mar. Ignorar o enorme volume de água retido em reservatórios pode introduzir erros nessas reconstruções.

O estudo mostra que, mesmo sem perceber, a humanidade passou a influenciar processos geofísicos que antes eram atribuídos quase exclusivamente às forças naturais.

Ao longo de quase 200 anos, barragens foram construídas para produzir eletricidade, irrigar plantações e garantir o abastecimento de milhões de pessoas. Como consequência indireta, elas também deixaram uma assinatura mensurável na dinâmica do próprio planeta, lembrando que até intervenções aparentemente locais podem produzir efeitos em escala global.

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