A Lua voltou a ser o destino mais desejado do espaço. Nos últimos dois anos, foram lançadas 12 missões lunares, quase metade delas por empresas privadas — e outras 20 estão em fase de preparação. Esse ressurgimento, porém, traz um risco inesperado: a possibilidade de colisões e interferências entre sondas e satélites que compartilham o mesmo território orbital.
Um novo trânsito no espaço lunar
O espaço cislunar — a região entre a Terra e a Lua — é 2.000 vezes maior que a órbita terrestre, mas as missões tendem a se concentrar em poucas órbitas estáveis. O problema é que os telescópios e radares terrestres têm dificuldade em rastrear objetos a essa distância, devido ao brilho intenso da Lua e às limitações técnicas de monitoramento.
Um estudo publicado no Journal of Spacecraft and Rockets revelou que, com apenas 50 satélites lunares, cada um precisaria realizar quatro manobras por ano para evitar colisões. Isso representa alto consumo de combustível e desvio de objetivos científicos e comerciais.
Entre 2019 e 2023, a Agência Espacial Indiana (ISRO) já precisou ajustar três vezes a trajetória de sua sonda Chandrayaan-2 por risco de impacto — e isso quando apenas seis naves orbitavam a Lua.
O desafio de controlar o espaço cislunar
Evitar uma crise de congestionamento lunar exigirá cooperação internacional e um sistema global de vigilância. A questão ultrapassa o campo técnico: envolve disputas geopolíticas e militares. Alguns países possuem armas antissatélite, e especialistas alertam que detectar sistemas desse tipo em órbita lunar seria quase impossível.
A Força Espacial dos Estados Unidos já declarou o espaço cislunar uma prioridade estratégica. A pesquisadora Mariel Borowitz, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, adverte que o país ainda tem “grandes lacunas de vigilância” na região.
Monitoramento a partir do espaço profundo
Para reduzir esses riscos, o Laboratório de Pesquisa da Força Aérea dos EUA desenvolve o programa Oracle, um sistema de observação baseado em um satélite no ponto de Lagrange, posição gravitacionalmente estável entre a Terra e a Lua. A missão, prevista para 2027, será a primeira dedicada a rastrear o tráfego lunar.
A NASA também avança com um projeto de rastreamento e previsão de trajetórias, criando uma base de dados unificada que ajudará a antecipar encontros perigosos entre missões de diferentes países.

A corrida por regras no espaço lunar
O Tratado do Espaço Exterior de 1967 exige que os países evitem interferências prejudiciais, mas não especifica como fazê-lo. Por isso, a ONU criou em 2025 um grupo de trabalho para propor um código internacional de coordenação lunar.
“Estamos repetindo os erros do congestionamento orbital da Terra — só que mais longe e sem regras claras”, alertam os autores do estudo.
Um desafio para a próxima década
Com o retorno da NASA à Lua em 2026 e o avanço de empresas como SpaceX, Astrobotic e Intuitive Machines, a nova era lunar já começou. Mas sem um controle conjunto, o espaço cislunar pode se transformar em um campo minado de fragmentos, colisões e disputas, ameaçando o futuro da exploração humana além da Terra.