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Ciência

Décadas de mistério sobre a dor crônica nas mulheres podem ter encontrado uma explicação

Durante anos, médicos observaram que mulheres sofrem mais com dor crônica que homens. Agora, um estudo científico aponta para um mecanismo biológico específico no sistema imunológico que pode explicar essa diferença.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A medicina convive há décadas com um enigma difícil de explicar: por que a dor crônica atinge mulheres com mais frequência e por períodos mais longos do que homens? Durante muito tempo, essa diferença foi atribuída a fatores psicológicos ou simplesmente tratada como algo “normal”. Mas novas pesquisas sugerem que a resposta pode estar em processos biológicos muito específicos do sistema imunológico — e isso pode abrir caminho para novas formas de tratamento.

A descoberta que mudou a forma de entender a dor crônica

Um novo estudo publicado na revista científica Science Immunology trouxe evidências que podem transformar a forma como a medicina compreende a origem da dor persistente.

Os pesquisadores identificaram um papel central de células do sistema imunológico chamadas monócitos, um tipo de glóbulo branco responsável por responder a inflamações e ajudar na reparação de tecidos.

Quando ocorre uma lesão — como um impacto físico ou inflamação — o organismo ativa uma resposta de defesa. Parte dessa resposta é justamente a sensação de dor, que funciona como um alerta biológico de que algo está errado.

Normalmente, conforme o corpo começa a se recuperar, essa dor deveria diminuir gradualmente.

É nesse ponto que os monócitos entram em ação.

Essas células liberam uma proteína chamada interleucina-10 (IL-10), que atua diretamente sobre os neurônios sensoriais responsáveis por transmitir a sensação de dor. Na prática, essa proteína funciona como um mecanismo natural que ajuda a “desligar” a hipersensibilidade provocada pela inflamação.

O papel inesperado de um hormônio na diferença entre homens e mulheres

Décadas de mistério sobre a dor crônica nas mulheres podem ter encontrado uma explicação
© Pexels

O estudo revelou que homens e mulheres podem responder de forma diferente a esse processo biológico.

Nos homens, a produção da proteína IL-10 tende a ser maior após uma lesão. Isso acontece porque a testosterona, principal hormônio sexual masculino, estimula os monócitos a liberar quantidades maiores dessa substância anti-inflamatória.

Como resultado, a dor inflamatória tende a desaparecer mais rapidamente.

Nas mulheres, os níveis naturalmente mais baixos de testosterona reduzem esse estímulo sobre os monócitos. Isso significa que a produção de IL-10 é menor, fazendo com que os neurônios sensoriais permaneçam ativos por mais tempo.

Consequentemente, o sinal de dor demora mais para desaparecer.

Essa diferença hormonal ajuda a explicar por que episódios de dor crônica costumam durar mais em mulheres.

Evidências em humanos confirmam a hipótese

Para validar os resultados, os cientistas não se limitaram a experimentos laboratoriais.

Os pesquisadores analisaram também dados clínicos do estudo AURORA, um grande projeto que acompanha pacientes que sofreram acidentes de trânsito ou traumas físicos graves.

A análise confirmou a hipótese levantada em laboratório.

Os dados mostraram que a redução ou ausência da atividade da proteína IL-10 nos monócitos prolonga significativamente a duração da dor inflamatória.

Esse efeito foi observado tanto em homens quanto em mulheres, reforçando a ideia de que o mecanismo biológico identificado realmente influencia o processo de recuperação.

O que essa descoberta pode mudar no tratamento da dor

A importância desse estudo vai além da explicação científica para uma diferença observada há décadas.

Hoje, muitos casos de dor intensa ou persistente ainda são tratados com opioides, medicamentos potentes que podem causar efeitos colaterais graves e dependência.

Ao identificar o papel da IL-10 e dos monócitos no controle natural da dor, os cientistas abriram caminho para novas estratégias terapêuticas.

Nos experimentos, os pesquisadores testaram uma substância chamada Resolvina D1, um composto que ajuda o organismo a reduzir processos inflamatórios.

Os resultados indicaram que o composto conseguiu diminuir a dor em ambos os sexos, sugerindo que terapias baseadas nesse mecanismo podem funcionar de forma mais equilibrada.

Além disso, o estudo reforça uma mudança importante na medicina moderna: abandonar o modelo de tratamento universal e avançar para abordagens mais personalizadas.

Compreender como fatores biológicos — incluindo hormônios e sistema imunológico — influenciam doenças pode permitir tratamentos mais eficazes e adaptados a cada paciente.

[Fonte: Xataka]

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