O tamanho do déficit — e por que ele preocupa
A revisão publicada na Nutrition Research Reviews reuniu 42 estudos e concluiu que 76% da população global não atinge a dose diária mínima de EPA, DHA e DPA, os três ácidos graxos mais importantes da família do ômega-3.
A Organização Mundial da Saúde recomenda 250 mg por dia para adultos saudáveis — quantidade que deveria vir de peixes gordurosos como salmão, sardinha, cavala e atum, ou de microalgas. Para grupos específicos, como gestantes, vegetarianos e pessoas com baixo consumo de pescado, suplementos podem ser necessários — sempre com orientação profissional.
“Durante a gravidez, a suplementação é frequentemente essencial para atingir as recomendações”, explica a pesquisadora Abbie Cawood, da Universidade de Southampton. Para ela, as evidências deveriam orientar novas políticas de nutrição e estratégias de saúde pública.
Como a falta de ômega-3 afeta o corpo

Os efeitos da ingestão insuficiente aparecem ao longo de toda a vida. O nutricionista Leandro Rodrigues, da Universidade Católica de Brasília, destaca que níveis baixos estão associados a pior perfil inflamatório, triglicerídeos elevados, menor proteção cardiovascular e prejuízos ao desenvolvimento cerebral e visual de bebês.
Um dos campos com maior volume de evidência é a saúde do coração.
“O ômega-3 é um dos suplementos mais estudados do mundo”, diz o cardiologista Neylon Amorim. Entre os benefícios comprovados, ele cita:
- redução de até 30% dos triglicerídeos com doses altas
- diminuição de até 25% do risco de infarto e derrame
- controle da inflamação das artérias
- queda de 2 a 5 mmHg na pressão arterial
Já o nutrólogo Felipe Gazoni lembra que gestantes, lactantes, crianças e adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis. O motivo é claro: o DHA é essencial para a formação do cérebro e da retina, e a ingestão materna insuficiente pode comprometer o desenvolvimento neurocognitivo do bebê.
Cultura alimentar e o desafio entre jovens

O problema não é apenas fisiológico — é cultural.
Segundo a nutricionista Pâmela Cardoso, adolescentes e jovens consomem pouco peixe e, por hábito, raramente chegam ao nível adequado de ômega-3. Enquanto gestantes e crianças têm maior vulnerabilidade biológica, jovens adultos sofrem com dietas pobres em fontes naturais do nutriente.
Anne Marie Minihane, da Universidade de East Anglia, reforça que as recomendações oficiais estão muito distantes do que a população realmente consome. Para reduzir essa lacuna, ela defende alternativas como alimentos enriquecidos ou suplementos, desde que usados com responsabilidade.
Riscos do excesso e quando suplementar
Embora o déficit seja comum, suplementação indiscriminada também traz perigo.
“O ômega-3 tem efeito antitrombótico; em doses altas, aumenta o risco de sangramentos e interações com anticoagulantes”, alerta Gazoni. Também há estudos ligando doses muito elevadas a maior risco de fibrilação atrial e desconfortos gastrointestinais.
Para o professor Leandro Rodrigues, altas doses só devem ser usadas em casos específicos, como triglicerídeos muito altos, depressão e doenças inflamatórias. Fora dessas situações, a orientação é clara: não suplementar por conta própria.
E o que isso significa para o Brasil e o mundo?
O déficit global de ômega-3 expõe um desafio de saúde pública: populações inteiras não conseguem atingir um nutriente essencial para o cérebro e o coração. Em países como o Brasil — onde o consumo de peixe é irregular e culturalmente limitado — o risco tende a ser ainda maior.
Enquanto governos discutem políticas nutricionais, cresce a pressão por mais educação alimentar, produtos enriquecidos e diretrizes alinhadas à realidade.
A pergunta agora é: diante de um nutriente tão crítico, o mundo vai ajustar sua dieta — ou seguir ampliando uma deficiência que já impacta gerações?
[Fonte: Correio Braziliense]