Durante muito tempo, ela permaneceu nos bastidores. Mesmo sendo responsável pela fabricação de alguns dos dispositivos mais populares do planeta, seu nome raramente aparecia para o consumidor comum. Agora, porém, a companhia decidiu abandonar o papel de coadjuvante e assumir uma posição muito mais ambiciosa. Seu novo plano envolve inteligência artificial, robôs industriais, carros elétricos e a infraestrutura que deverá sustentar a próxima revolução tecnológica.
De fabricante a protagonista da próxima revolução
Quando se fala em tecnologia asiática, muitas pessoas pensam imediatamente nas fabricantes de chips. No entanto, existe outra gigante que há décadas desempenha um papel essencial na indústria global, mesmo permanecendo praticamente desconhecida do grande público.
Essa empresa construiu sua reputação produzindo dispositivos para algumas das maiores marcas do planeta. Smartphones, consoles, notebooks, servidores e inúmeros equipamentos eletrônicos passaram por suas linhas de montagem, tornando-a uma referência em produção em larga escala.
Mas esse modelo começa a mudar.
Durante a feira VivaTech 2026, realizada na França, a companhia apresentou uma estratégia que vai muito além da fabricação de produtos para terceiros. O objetivo agora é fornecer a infraestrutura necessária para alimentar a nova geração de tecnologias baseadas em inteligência artificial.
A empresa pretende ocupar espaço em áreas consideradas estratégicas, como servidores de alto desempenho, data centers, robótica industrial e veículos elétricos. Em vez de apenas montar equipamentos projetados por outras empresas, ela quer participar diretamente da construção da tecnologia que sustentará a economia digital dos próximos anos.
Essa mudança representa uma das maiores transformações de sua história e pode alterar sua posição dentro do mercado global.
Inteligência artificial, data centers e robôs no centro da estratégia
Grande parte dessa nova visão está ligada ao crescimento acelerado da inteligência artificial. Embora ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude chamem a atenção do público, existe uma enorme estrutura física funcionando por trás desses sistemas.
Servidores, chips especializados, sistemas de refrigeração, racks de processamento, redes de alta velocidade e centros de dados gigantescos são fundamentais para que esses modelos consigam operar.
É justamente nesse segmento que a empresa acredita possuir uma vantagem competitiva construída ao longo de décadas.
Durante o evento, também foram apresentados avanços em plataformas desenvolvidas em parceria com a Nvidia, incluindo soluções preparadas para futuras arquiteturas de processamento voltadas exclusivamente para IA.
Outro movimento importante envolve a colaboração com a Schneider Electric. A união busca desenvolver centros de dados mais eficientes, capazes de lidar com o enorme consumo energético exigido pela inteligência artificial moderna.
Ao mesmo tempo, a companhia acelera investimentos em automação industrial.
A ideia é utilizar robôs inteligentes, simulações digitais e gêmeos virtuais para otimizar processos antes mesmo de uma fábrica começar a operar. Isso reduz desperdícios, diminui custos de desenvolvimento e permite colocar novos produtos no mercado em menos tempo.
Na prática, a inteligência artificial passa a ser utilizada para tornar ainda mais eficiente a própria fabricação das tecnologias baseadas em IA.
A aposta também passa pelos carros elétricos
Outro pilar da estratégia está no setor automotivo.
Por meio da Foxtron, sua divisão especializada em mobilidade elétrica, a empresa apresentou novos modelos de veículos desenvolvidos para diferentes segmentos do mercado.
A proposta, no entanto, não é competir diretamente com fabricantes tradicionais como Tesla ou BYD.
O plano consiste em repetir no setor automotivo o modelo que transformou a empresa em uma potência mundial na eletrônica: fornecer plataformas completas para que outras montadoras desenvolvam seus próprios veículos com menor custo e maior rapidez.
Entre essas iniciativas está a plataforma modular MIH, frequentemente comparada a um “Android dos carros elétricos”. Ela reúne chassi, eletrônica, software e diversos componentes que podem ser utilizados por diferentes fabricantes.
Esse conceito reduz significativamente o tempo necessário para desenvolver novos automóveis e amplia as possibilidades de personalização.
Muito mais do que fabricar produtos
A estratégia revela uma transformação profunda no posicionamento da empresa.
O crescimento da inteligência artificial aumenta a demanda por servidores. Esses servidores dependem de chips, sistemas elétricos, refrigeração e grandes centros de processamento de dados. Ao mesmo tempo, fábricas inteligentes precisam de robôs, enquanto veículos elétricos exigem plataformas digitais cada vez mais sofisticadas.
Todos esses mercados possuem um ponto em comum: dependem da capacidade de produzir hardware complexo em grande escala.
É exatamente nesse ambiente que a empresa construiu sua liderança ao longo das últimas décadas.
Naturalmente, ampliar sua atuação também traz desafios importantes. Competir simultaneamente em diferentes segmentos exige investimentos bilionários e capacidade constante de inovação.
Ainda assim, a mensagem apresentada na VivaTech foi bastante clara: a empresa não pretende mais ser apenas a fabricante dos produtos criados por outras marcas.
Agora, ela quer participar da construção da infraestrutura que sustentará toda a próxima geração da economia digital.