Durante décadas, aquele enorme navio foi símbolo do poder naval francês. Em 2000, o Brasil comprou o porta-aviões com a expectativa de transformá-lo em uma peça central de sua frota. O plano, porém, começou a desmoronar com acidentes, falhas mecânicas, incêndios e custos crescentes. Quando chegou a hora de aposentá-lo, surgiu um problema ainda maior: ninguém parecia disposto a receber o velho gigante.
De orgulho da Marinha francesa a aposta brasileira
O navio nasceu como Foch, integrante da classe Clemenceau e construído para operar aeronaves em missões militares. Com aproximadamente 265 metros de comprimento, podia transportar cerca de 40 aviões e helicópteros e passou boa parte de sua carreira como um dos principais meios navais da França.
Depois de quase quatro décadas em serviço francês, o porta-aviões foi vendido ao Brasil em 2000 por aproximadamente US$ 12 milhões. Sob a nova bandeira, recebeu o nome de NAe São Paulo.
A expectativa brasileira era ambiciosa: recuperar e modernizar o navio para transformá-lo novamente em um importante ativo militar. Mas havia um detalhe que se tornaria cada vez mais importante com o passar dos anos.
Como outros grandes navios construídos naquela época, o Foch utilizava amianto e outros materiais potencialmente perigosos em isolamento, revestimentos e componentes. Isso não significava que a França tivesse deliberadamente vendido um navio “contaminado” ao Brasil. O problema apareceu quando chegou o momento de desmontar uma estrutura gigantesca que continha esses materiais.
E o próprio funcionamento do São Paulo também começou a se transformar em uma sucessão de dificuldades.
A segunda vida do São Paulo nunca saiu como planejado
Em 2005, um acidente envolvendo uma tubulação de vapor provocou vítimas e exigiu reparos importantes. O episódio foi apenas o começo de uma longa sequência de problemas técnicos.
O navio voltou a enfrentar falhas e chegou a sofrer outro incêndio. Ao mesmo tempo, manter operacional um porta-aviões projetado décadas antes exigia investimentos cada vez maiores.
O Brasil chegou a considerar uma modernização profunda, mas os custos e as dificuldades técnicas acabaram tornando o projeto pouco viável. Em 2017, foi anunciada sua retirada de serviço, e a baixa oficial ocorreu no ano seguinte.
A partir daí, surgiu uma solução aparentemente simples: vender o casco para reciclagem.
Em 2022, uma empresa turca comprou o São Paulo com a intenção de levá-lo até Aliağa, uma região conhecida pela reciclagem de navios. O porta-aviões começou a ser rebocado através do Atlântico.
Mas a viagem não chegou ao destino.
Durante o trajeto, autoridades turcas levantaram preocupações sobre o inventário de materiais perigosos existente no navio, principalmente sobre a quantidade de amianto. O país acabou retirando a autorização para sua entrada.
O velho porta-aviões precisou voltar ao Brasil.
O problema agora era decidir onde colocar um navio que ninguém queria
O retorno criou uma situação especialmente complicada.
O casco estava deteriorado e apresentava problemas de estanqueidade. A Marinha brasileira avaliou que existia risco de o navio afundar de maneira descontrolada caso continuasse sendo rebocado.
Ao mesmo tempo, seu estado não permitia simplesmente levá-lo para qualquer porto brasileiro.
O São Paulo ficou, portanto, preso em uma espécie de limbo: era grande demais, caro demais e potencialmente perigoso demais para ser abandonado, mas também não havia uma solução simples para desmontá-lo.
As autoridades brasileiras passaram a considerar que continuar transportando o navio poderia representar um risco maior.
Foi então que surgiu a decisão que transformaria o destino do antigo Foch em um dos episódios mais controversos da história recente da Marinha brasileira.
Em vez de desmontá-lo em terra, o Brasil decidiu afundá-lo deliberadamente.
O último mergulho aconteceu longe da costa
Em 3 de fevereiro de 2023, a Marinha brasileira realizou o que classificou como um afundamento planejado e controlado.
O antigo porta-aviões desapareceu aproximadamente 350 quilômetros da costa, em uma área sob jurisdição brasileira onde o fundo do Atlântico chega a cerca de 5.000 metros de profundidade.
A escolha provocou fortes críticas de organizações ambientais, incluindo o Greenpeace, além de questionamentos de procuradores brasileiros. O principal temor era que o amianto, metais pesados e outros materiais potencialmente tóxicos presentes no navio acabassem afetando o ambiente marinho.
A Marinha, por outro lado, sustentou que o procedimento controlado era uma alternativa mais segura diante do estado do casco e dos riscos associados a um eventual naufrágio acidental.
Assim, o antigo Foch chegou ao seu último destino de uma maneira bastante diferente daquela imaginada quando deixou a França.
O navio havia sido construído para projetar poder militar, passou 37 anos sob bandeira francesa e depois quase duas décadas como São Paulo. O Brasil tentou mantê-lo ativo, a Turquia deveria transformá-lo em sucata e, no fim, nem sequer conseguiu desmontá-lo.
O gigante de 265 metros que um dia foi símbolo de poder naval terminou sua trajetória inteiro, a cerca de 5.000 metros abaixo da superfície do Atlântico.