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Tecnologia

Do TikTok ao Congresso: O Caminho Inesperado das Bonecas Reborn

O que começou como uma tendência aparentemente inofensiva se transformou em foco de debates acalorados, projetos de lei, violência e ataques pessoais. As bonecas reborn, hiper-realistas e emocionalmente impactantes, revelam muito mais do que parecem. Por trás delas, emergem conflitos sociais, políticos e simbólicos profundamente enraizados.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Em um cenário político conturbado, o Brasil viu surgir uma nova polêmica que ninguém esperava: o crescimento viral das bonecas reborn. Feitas com impressionante realismo, essas figuras passaram de artigo artístico ou terapêutico a alvo de projetos de lei, ataques verbais e até agressões físicas. O que está por trás dessa comoção diz mais sobre a sociedade brasileira do que sobre as bonecas em si.

De vídeo viral ao debate nacional

Tudo começou com um vídeo no TikTok: uma jovem simulava levar seu “bebê” Bento ao hospital, com fraldas, mamadeira e bolsa de maternidade. Mais de 16 milhões de visualizações depois, veio a surpresa: tratava-se de uma boneca reborn. A reação nas redes foi imediata — memes, imitações, indignação e zombarias.

A repercussão alcançou o Congresso Nacional, onde mais de 30 projetos de lei foram apresentados para impedir que essas bonecas tivessem acesso a espaços e serviços públicos. Alguns parlamentares chegaram ao extremo de propor que fossem “esterilizadas” em clínicas veterinárias. Em meio a um país lidando com julgamentos políticos e crise de confiança, o foco mudou para as bonecas de silicone.

Entre a arte, o afeto e o absurdo

As bonecas reborn não são novidade. Criadas desde os anos 90, elas se tornaram itens colecionáveis, terapêuticos e artísticos. Produzidas com riqueza de detalhes — pintura em camadas, fios de cabelo implantados manualmente — podem custar até 3 mil euros. Para algumas mulheres, representam expressão artística ou conforto emocional. Para outras, são ferramentas em clínicas de saúde mental ou em produções cinematográficas.

Bonecas Reborn (2)
© Sorpresas Divertidas – Youtube

No entanto, essas práticas vêm sendo alvo de escárnio e misoginia. A socióloga Isabela Kalil aponta a contradição: homens que colecionam videogames ou action figures são admirados; mulheres com bonecas são tratadas como insanas. Criadoras como Larissa Vedolin, conhecida como Emily Reborn, recebem ameaças de morte apenas por divulgar suas obras.

Um reflexo de tensões mais profundas

Por trás da polêmica, está o desconforto coletivo diante do que foge ao padrão. O desejo de censurar ou ridicularizar essas mulheres parece refletir a tentativa de controlar o que desafia normas sociais — principalmente quando relacionado ao universo feminino.

Como resume Kalil, as bonecas servem como espelho simbólico das ansiedades culturais do Brasil atual. Num país atravessado por crises reais, talvez o escândalo das reborn revele menos sobre brinquedos e mais sobre as inseguranças que o país se recusa a enfrentar.

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