O Brasil vive uma transformação demográfica sem precedentes. De acordo com o Censo 2022, a taxa de fecundidade caiu para 1,6 filho por mulher — o menor índice já registrado. O dado acende alertas sobre envelhecimento populacional e mudanças culturais profundas, como o adiamento da maternidade, o impacto da escolaridade e o crescimento de mulheres que optam por não ter filhos.
Abaixo da reposição populacional
A chamada “taxa de reposição populacional” representa o número médio de filhos que cada mulher precisa ter para manter estável o tamanho da população ao longo das gerações. O índice considerado ideal é de 2,1 filhos por mulher. O novo patamar brasileiro — 1,6 — coloca o país abaixo dessa linha, o que indica um possível declínio populacional futuro.
O número brasileiro é menor que o dos Estados Unidos (1,7), França (1,8) e Nigéria (4,6), mas superior ao da Argentina (1,5), Chile (1,3) e Itália (1,2).
Fecundidade caiu em todas as regiões

A redução da fecundidade foi observada em todo o país, com destaque para o Sudeste, que apresentou a menor taxa regional (1,41), seguido pelo Sul (1,50), Centro-Oeste (1,64), Nordeste (1,60) e Norte (1,89), que historicamente liderava o índice.
Desde os anos 1970, o Brasil vem passando por uma queda gradual na taxa de fecundidade. Em 1960, cada mulher brasileira tinha, em média, 6,3 filhos. Em 2000, o número caiu para 2,4. Hoje, chegou a 1,6.
Escolaridade, religião e etnia influenciam
Os dados do Censo revelam que a escolaridade tem forte impacto na fecundidade. Mulheres com ensino superior completo têm, em média, apenas 1,2 filho, enquanto as com menor escolaridade ultrapassam 2 filhos por mulher.
Entre os grupos sociais, mulheres indígenas registram a maior média de filhos (2,8), enquanto mulheres brancas têm média de 1,4, e as mulheres da categoria “amarelas”, 1,2. Pardas e pretas apresentaram médias intermediárias.
A religião também influencia: evangélicas lideram com 1,7 filho por mulher, seguidas por católicas (1,5), mulheres sem religião (1,4), seguidoras de religiões de matriz africana (1,2) e espíritas (1,0).
Maternidade mais tardia
O perfil da maternidade no Brasil mudou. As mulheres estão tendo filhos mais tarde. Em 2022, a idade média da primeira gestação subiu para 28,1 anos, frente aos 26,3 anos em 2000. O grupo de 25 a 29 anos agora concentra a maior taxa de fecundidade.
Houve queda expressiva na maternidade precoce (até 24 anos), e aumento nas taxas entre mulheres acima dos 30 anos. O Distrito Federal lidera com a maior idade média para a fecundidade (29,3 anos), enquanto o Pará tem a menor (26,8 anos).
Cresce o número de mulheres sem filhos
Outro dado importante: o número de mulheres que encerram o período fértil sem filhos está aumentando. Em 2000, 10% das mulheres entre 50 e 59 anos não tinham filhos. Em 2022, esse índice saltou para 16%.
Segundo o IBGE, esse fenômeno está associado à combinação de fatores como adiamento da maternidade, maior escolaridade, inserção no mercado de trabalho e uma mudança cultural sobre o desejo (ou não) de ter filhos.
A nova realidade demográfica brasileira reflete mudanças profundas nos valores sociais, no acesso à educação e nas escolhas individuais. Com a taxa de fecundidade abaixo da reposição populacional, o país entra em uma fase de envelhecimento acelerado e precisará repensar políticas públicas em áreas como saúde, previdência e mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, os dados mostram uma sociedade em transformação, onde as mulheres têm cada vez mais autonomia sobre seus caminhos.
[ Fonte: G1.Globo ]