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Documentos revelam uma conexão inesperada entre o lobby de Eduardo Bolsonaro e um fundo dos EUA voltado ao STF

Um programa de US$ 1 milhão do governo americano menciona diretamente a atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA. Os documentos revelam uma conexão política, mas deixam perguntas importantes sem resposta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Um programa de US$ 1 milhão financiado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos para apoiar organizações críticas ao Supremo Tribunal Federal ganhou uma nova camada. Documentos obtidos pela imprensa mencionam nominalmente o lobby realizado por Eduardo Bolsonaro em Washington contra Alexandre de Moraes. A descoberta aproxima duas iniciativas que compartilham objetivos políticos, mas há uma distinção fundamental: até agora, não existe evidência pública de que Eduardo tenha recebido dinheiro desse fundo.

O documento cita diretamente Eduardo Bolsonaro

Documentos revelam uma conexão inesperada entre o lobby de Eduardo Bolsonaro e um fundo dos EUA voltado ao STF
© The White House from Washington, DC – https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=81756503

O programa americano recebeu o nome de Countering Lawfare and Censorship in Brazil, algo como “Combatendo o lawfare e a censura no Brasil”. A iniciativa prevê US$ 1 milhão para apoiar organizações da sociedade civil contrárias ao que os documentos americanos classificam como “excesso judicial” e “censura” por parte do STF.

O detalhe revelado agora é que a documentação usada para justificar o projeto menciona explicitamente Eduardo Bolsonaro.

Segundo os documentos obtidos pelo UOL, um dos textos registra que o então deputado brasileiro estava fazendo lobby junto ao governo dos Estados Unidos para que sanções fossem impostas ao ministro Alexandre de Moraes.

A referência é relevante porque conecta formalmente a atuação de Eduardo ao contexto apresentado pelo governo americano para justificar o programa.

Mas ela não demonstra que o ex-deputado tenha criado o fundo, escolhido seus beneficiários ou recebido recursos. Os próprios documentos consultados pela reportagem não apresentam essa evidência. Eduardo afirmou que não recebeu dinheiro e que não possui uma ONG para recebê-lo.

O dinheiro vem de um fundo muito maior

O US$ 1 milhão destinado ao projeto brasileiro faz parte de um pacote de aproximadamente US$ 176,9 milhões distribuído entre 43 iniciativas do Human Rights and Democracy Fund, administrado pelo Departamento de Estado americano.

Historicamente, esse mecanismo financiou projetos relacionados à promoção da democracia e dos direitos humanos. Na administração Trump, porém, parte dos recursos passou a ser direcionada para iniciativas alinhadas a prioridades conservadoras do governo, incluindo projetos ligados a anticomunismo, imigração e regulamentação.

No caso brasileiro, a documentação afirma que o objetivo é apoiar organizações contrárias à atuação que o programa descreve como excessiva do Judiciário.

Esse enquadramento é contestado politicamente. Críticos veem a iniciativa como interferência americana nas instituições brasileiras, enquanto seus defensores enquadram as medidas como defesa da liberdade de expressão.

A AGU pediu que autoridades brasileiras investiguem a origem, o destino e a finalidade dos recursos para determinar se houve interferência estrangeira no processo político ou eleitoral. A existência de uma investigação, porém, não significa que essa hipótese já esteja comprovada.

Há outro detalhe que tornou o programa ainda mais controverso

Os novos documentos também mostram uma mudança importante na forma de selecionar quem receberia os recursos.

Inicialmente, o programa aparecia como uma concorrência aberta. Posteriormente, passou a ser descrito como uma seleção restrita, limitada a determinados indivíduos ou organizações.

A justificativa registrada na documentação era particularmente sensível: tornar o programa público poderia comprometer sua eficácia, prejudicar interesses diplomáticos dos Estados Unidos no Brasil e expor seus executores a possíveis ações judiciais.

A identidade dos potenciais beneficiários não foi divulgada.

Esse ponto impede, por enquanto, estabelecer quem efetivamente executará as ações financiadas e se existe alguma relação direta entre esses grupos e pessoas que participaram da campanha internacional contra integrantes do STF.

Há também uma imprecisão cronológica no texto do Opera Mundi: ele afirma que os recursos foram liberados em “30 de outubro”, cinco dias antes do primeiro turno. Outras fontes situam o empenho em 30 de setembro, data compatível com a eleição de 4 de outubro e com o encerramento do ano fiscal americano.

O lobby contra Moraes já produziu consequências

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© YouTube

A atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos não é uma informação nova.

Ele se mudou para o Texas em 2025 e passou a defender publicamente medidas americanas contra autoridades brasileiras, particularmente Alexandre de Moraes.

O governo Trump chegou a sancionar Moraes sob a Lei Global Magnitsky e impôs outras restrições a autoridades brasileiras. Posteriormente, a sanção contra o ministro foi retirada.

No Brasil, Eduardo acabou condenado pela Primeira Turma do STF a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo. Segundo a decisão, sua atuação nos Estados Unidos buscava interferir no julgamento em que Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado. A condenação e seus fundamentos podem ser consultados no comunicado oficial do Supremo Tribunal Federal.

É nesse histórico que a menção ao lobby de Eduardo nos documentos americanos ganha importância.

A conexão existe, mas ainda falta uma peça essencial

Os documentos permitem estabelecer alguns fatos: o governo americano reservou US$ 1 milhão para um programa direcionado a organizações críticas ao STF; a justificativa do projeto menciona diretamente o lobby de Eduardo Bolsonaro; e os possíveis beneficiários permanecem desconhecidos.

O que eles não permitem afirmar, com as informações públicas disponíveis, é que Eduardo Bolsonaro tenha recebido parte desse dinheiro ou controlado sua distribuição.

Essa distinção é especialmente importante porque o episódio ocorre em pleno período eleitoral brasileiro e já motivou questionamentos sobre possível interferência estrangeira.

Agora, a questão central deixou de ser apenas por que Washington criou o programa. É descobrir quem receberá o US$ 1 milhão e exatamente o que fará com ele.

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