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Ciência

EUA cancelaram o acelerador de partículas mais poderoso do mundo e deixaram 22,5 km de túneis escondidos sob o Texas

O Superconducting Super Collider deveria ser o maior acelerador de partículas já construído, com um enorme anel subterrâneo ao redor de Waxahachie, no Texas. Mas o Congresso dos Estados Unidos cancelou o projeto em 1993, quando cerca de 22,5 quilômetros de túneis já haviam sido escavados.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Debaixo dos campos do Texas permanece uma das maiores promessas científicas inacabadas da história dos Estados Unidos.

O Superconducting Super Collider, conhecido pela sigla SSC, foi projetado para se tornar o acelerador de partículas mais poderoso do planeta. A instalação permitiria investigar alguns dos maiores mistérios da física moderna.

Nada disso aconteceu.

Depois de anos de planejamento, aumento dos custos e disputas políticas, o Congresso americano decidiu interromper o financiamento em 1993.

Naquele momento, porém, uma parte considerável da gigantesca estrutura subterrânea já estava pronta.

Segundo a Symmetry Magazine, publicação ligada ao Fermilab e ao SLAC e financiada pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, o SSC teria um anel com aproximadamente 87 quilômetros de circunferência ao redor da cidade de Waxahachie, no Texas.

A máquina que poderia ter superado o LHC

Obra Subterrânea
© CERN

A escala do projeto era monumental.

O SSC foi planejado para superar amplamente a potência que anos depois seria alcançada pelo Large Hadron Collider (LHC), construído pelo CERN na fronteira entre França e Suíça.

Quando o Congresso americano retirou os recursos, aproximadamente 22,5 quilômetros dos túneis previstos já haviam sido escavados sob o Texas.

O objetivo científico era investigar a estrutura mais fundamental da matéria.

O acelerador teria energia suficiente para procurar extensivamente pelo bóson de Higgs, partícula que posteriormente seria descoberta no LHC em 2012.

Mas as possibilidades iam muito além.

Os cientistas esperavam utilizar o SSC para investigar teorias como a supersimetria, procurar possíveis pistas sobre a matéria escura e detectar fenômenos que poderiam indicar uma física além do Modelo Padrão.

Em outras palavras, os Estados Unidos estavam construindo uma máquina capaz de colocar o país no centro da física de partículas durante décadas.

O custo começou a sair do controle

O problema foi que o orçamento cresceu enquanto surgiam dificuldades administrativas.

Em 1993, o Government Accountability Office (GAO), órgão responsável por fiscalizar os gastos do governo americano, alertou que o custo total de construção poderia ultrapassar US$ 11 bilhões.

O relatório também apontou problemas de gestão, atrasos e estimativas financeiras consideradas pouco confiáveis.

Além disso, o governo precisaria aumentar sua participação no financiamento caso as contribuições internacionais esperadas não fossem confirmadas.

Com os custos crescendo e o apoio político diminuindo, o Congresso finalmente decidiu encerrar o projeto.

O resultado foi incomum: quilômetros de infraestrutura subterrânea ficaram abandonados antes mesmo que o acelerador pudesse entrar em operação.

A falta de parceiros internacionais também pesou

Outro problema importante foi a estratégia adotada pelos Estados Unidos.

Segundo a Symmetry Magazine, o SSC começou essencialmente como um projeto americano. Outros países só foram procurados posteriormente, quando os custos já haviam aumentado significativamente.

Isso dificultou a obtenção de parceiros.

Governos estrangeiros tinham poucos incentivos para investir bilhões de dólares em uma instalação que não ajudaram a projetar e que seria construída integralmente em território americano.

A experiência acabou mudando a maneira como a comunidade científica enxergava projetos dessa dimensão.

John Peoples, ex-diretor do Fermilab, explicou posteriormente que os grandes laboratórios perceberam que aceleradores daquele porte já não poderiam ser tratados simplesmente como projetos regionais ou nacionais.

Eles haviam se tornado caros e complexos demais.

O cancelamento ajudou a mudar o centro da física mundial

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© unsplash

Depois do fim do SSC, o Departamento de Energia americano reuniu especialistas para decidir qual deveria ser o próximo passo da física de partículas nos Estados Unidos.

A resposta acabou envolvendo justamente a Europa.

Cientistas americanos passaram a direcionar esforços para o Large Hadron Collider do CERN, que estava sendo desenvolvido como um enorme projeto internacional.

A decisão permitiu que pesquisadores dos Estados Unidos participassem dos experimentos que, anos depois, levariam à descoberta do bóson de Higgs.

Enquanto isso, os túneis do SSC permaneceram sob o Texas como lembrança de um futuro científico que nunca chegou.

O acelerador poderia ter transformado Waxahachie em um dos centros mais importantes da física mundial.

Hoje, seus túneis representam algo diferente: um exemplo de como nem mesmo um projeto cientificamente extraordinário consegue sobreviver quando financiamento, gestão, política e cooperação internacional deixam de funcionar juntos.

E permanece uma pergunta impossível de responder: o que os cientistas poderiam ter descoberto se o Superconducting Super Collider tivesse sido concluído?

 

[ Fonte: Clarín ]

 

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