Debaixo dos campos do Texas permanece uma das maiores promessas científicas inacabadas da história dos Estados Unidos.
O Superconducting Super Collider, conhecido pela sigla SSC, foi projetado para se tornar o acelerador de partículas mais poderoso do planeta. A instalação permitiria investigar alguns dos maiores mistérios da física moderna.
Nada disso aconteceu.
Depois de anos de planejamento, aumento dos custos e disputas políticas, o Congresso americano decidiu interromper o financiamento em 1993.
Naquele momento, porém, uma parte considerável da gigantesca estrutura subterrânea já estava pronta.
Segundo a Symmetry Magazine, publicação ligada ao Fermilab e ao SLAC e financiada pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, o SSC teria um anel com aproximadamente 87 quilômetros de circunferência ao redor da cidade de Waxahachie, no Texas.
A máquina que poderia ter superado o LHC

A escala do projeto era monumental.
O SSC foi planejado para superar amplamente a potência que anos depois seria alcançada pelo Large Hadron Collider (LHC), construído pelo CERN na fronteira entre França e Suíça.
Quando o Congresso americano retirou os recursos, aproximadamente 22,5 quilômetros dos túneis previstos já haviam sido escavados sob o Texas.
O objetivo científico era investigar a estrutura mais fundamental da matéria.
O acelerador teria energia suficiente para procurar extensivamente pelo bóson de Higgs, partícula que posteriormente seria descoberta no LHC em 2012.
Mas as possibilidades iam muito além.
Os cientistas esperavam utilizar o SSC para investigar teorias como a supersimetria, procurar possíveis pistas sobre a matéria escura e detectar fenômenos que poderiam indicar uma física além do Modelo Padrão.
Em outras palavras, os Estados Unidos estavam construindo uma máquina capaz de colocar o país no centro da física de partículas durante décadas.
O custo começou a sair do controle
O problema foi que o orçamento cresceu enquanto surgiam dificuldades administrativas.
Em 1993, o Government Accountability Office (GAO), órgão responsável por fiscalizar os gastos do governo americano, alertou que o custo total de construção poderia ultrapassar US$ 11 bilhões.
O relatório também apontou problemas de gestão, atrasos e estimativas financeiras consideradas pouco confiáveis.
Além disso, o governo precisaria aumentar sua participação no financiamento caso as contribuições internacionais esperadas não fossem confirmadas.
Com os custos crescendo e o apoio político diminuindo, o Congresso finalmente decidiu encerrar o projeto.
O resultado foi incomum: quilômetros de infraestrutura subterrânea ficaram abandonados antes mesmo que o acelerador pudesse entrar em operação.
A falta de parceiros internacionais também pesou
Outro problema importante foi a estratégia adotada pelos Estados Unidos.
Segundo a Symmetry Magazine, o SSC começou essencialmente como um projeto americano. Outros países só foram procurados posteriormente, quando os custos já haviam aumentado significativamente.
Isso dificultou a obtenção de parceiros.
Governos estrangeiros tinham poucos incentivos para investir bilhões de dólares em uma instalação que não ajudaram a projetar e que seria construída integralmente em território americano.
A experiência acabou mudando a maneira como a comunidade científica enxergava projetos dessa dimensão.
John Peoples, ex-diretor do Fermilab, explicou posteriormente que os grandes laboratórios perceberam que aceleradores daquele porte já não poderiam ser tratados simplesmente como projetos regionais ou nacionais.
Eles haviam se tornado caros e complexos demais.
O cancelamento ajudou a mudar o centro da física mundial

Depois do fim do SSC, o Departamento de Energia americano reuniu especialistas para decidir qual deveria ser o próximo passo da física de partículas nos Estados Unidos.
A resposta acabou envolvendo justamente a Europa.
Cientistas americanos passaram a direcionar esforços para o Large Hadron Collider do CERN, que estava sendo desenvolvido como um enorme projeto internacional.
A decisão permitiu que pesquisadores dos Estados Unidos participassem dos experimentos que, anos depois, levariam à descoberta do bóson de Higgs.
Enquanto isso, os túneis do SSC permaneceram sob o Texas como lembrança de um futuro científico que nunca chegou.
O acelerador poderia ter transformado Waxahachie em um dos centros mais importantes da física mundial.
Hoje, seus túneis representam algo diferente: um exemplo de como nem mesmo um projeto cientificamente extraordinário consegue sobreviver quando financiamento, gestão, política e cooperação internacional deixam de funcionar juntos.
E permanece uma pergunta impossível de responder: o que os cientistas poderiam ter descoberto se o Superconducting Super Collider tivesse sido concluído?
[ Fonte: Clarín ]