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Ciência

Dois séculos antes da física quântica, um padre jesuíta imaginou um universo feito não de matéria sólida, mas de relações invisíveis entre pontos sem tamanho

Enquanto a ciência do século XVIII ainda enxergava o mundo como um conjunto de objetos compactos e rígidos, o físico e filósofo Ruđer Bošković propôs uma ideia radical: a matéria não seria sólida, mas formada por pontos invisíveis conectados por forças. Hoje, muitos historiadores da ciência enxergam nessa teoria ecos surpreendentes da física quântica e da teoria de campos moderna.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante séculos, a humanidade imaginou a matéria de uma forma relativamente intuitiva.

Uma pedra parecia sólida. Uma mesa parecia contínua. Um pedaço de metal ocupava espaço e possuía uma forma claramente definida. Essa visão dominava a física europeia muito antes do surgimento da mecânica quântica.

Então apareceu Ruđer Bošković.

No século XVIII, o cientista e padre jesuíta formulou uma teoria tão incomum para sua época que muitos hoje a consideram uma das ideias mais visionárias da história da física.

Sua proposta abandonava completamente a noção tradicional de matéria sólida e sugeria algo muito mais abstrato: o universo seria composto por pontos sem extensão física que só existiriam através das forças que exercem uns sobre os outros.

Um universo feito de relações invisíveis

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A teoria apareceu em 1763 na obra Theoria Philosophiae Naturalis.

Nela, Bošković defendia que a matéria não era contínua nem compacta. Em vez disso, tudo seria formado por unidades sem volume — pontos materiais definidos exclusivamente pelas interações entre si.

Em outras palavras: aquilo que percebemos como “sólido” seria apenas resultado de forças invisíveis atuando em equilíbrio.

Era uma mudança radical de perspectiva.

Segundo o modelo proposto por Bošković, as forças variariam conforme a distância entre os pontos.

Em distâncias extremamente pequenas, elas se tornariam repulsivas, impedindo que a matéria colapsasse sobre si mesma.

Já em distâncias maiores, as forças passariam a ser atrativas, mantendo estruturas estáveis.

E, em escalas ainda mais amplas, o comportamento dessas interações se aproximaria da gravidade.

Muito antes dos átomos modernos

O aspecto mais impressionante da teoria é que Bošković formulou essas ideias mais de um século antes da descoberta da estrutura atômica moderna.

Na época, cientistas sequer conseguiam observar átomos diretamente.

Mesmo assim, ele já descrevia a matéria como algo discreto, composto por unidades fundamentais sem dimensão física definida — conceito que lembra fortemente certas interpretações modernas das partículas elementares.

Hoje, muitos historiadores da ciência apontam semelhanças entre suas ideias e conceitos posteriores da física quântica e da teoria de campos.

Um choque contra a visão de Newton

O contexto científico da época era dominado por Isaac Newton.

A física newtoniana descrevia o universo como um conjunto de partículas sólidas dotadas de massa, movendo-se segundo leis matemáticas precisas.

Bošković rompeu parcialmente com essa visão.

Para ele, a solidez dos objetos era apenas uma consequência das interações entre forças.

A matéria deixava de ser uma “coisa” rígida para se tornar um sistema de relações dinâmicas.

Essa mudança filosófica parece extremamente moderna até hoje.

A influência sobre a física moderna

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Embora suas ideias tenham permanecido relativamente marginais durante parte da história, vários cientistas importantes reconheceram posteriormente sua influência.

O físico Michael Faraday afirmou que sua concepção de campo elétrico foi inspirada no pensamento de Bošković.

Mais tarde, James Clerk Maxwell transformaria matematicamente o conceito de campo em uma das bases da física moderna.

Já no século XX, Werner Heisenberg destacou a importância das ideias de Bošković para o desenvolvimento da teoria quântica de campos.

Alguns filósofos da ciência também apontam semelhanças entre sua noção de espaço discreto e certas interpretações modernas da mecânica quântica.

Um cientista muito além da teoria

Bošković não foi apenas filósofo ou teórico abstrato.

Nascido em 1711, em Dubrovnik, ele integrou a Companhia de Jesus e construiu uma carreira científica extremamente ampla.

Trabalhou em matemática, astronomia, óptica, meteorologia e engenharia.

Participou inclusive da análise estrutural da cúpula da Basílica de São Pedro, em Roma, ajudando a estudar rachaduras na construção.

Também realizou medições geodésicas importantes para investigar a forma da Terra e dirigiu o Observatório de Brera, em Milão.

Ao todo, publicou cerca de 70 estudos científicos ao longo da vida.

O esquecimento e a redescoberta

Apesar da relevância intelectual, sua influência diminuiu após a dissolução da ordem jesuíta no século XVIII.

Durante muito tempo, Bošković permaneceu relativamente esquecido fora de círculos acadêmicos especializados.

Foi apenas no século XX, com o avanço da física moderna, que cientistas começaram a revisitar suas ideias com novos olhos.

O que antes parecia especulação filosófica passou a ser interpretado como uma antecipação surpreendente de conceitos centrais da física contemporânea.

O homem que imaginou um universo invisível

Talvez o aspecto mais fascinante da obra de Bošković seja perceber até onde a imaginação científica pode chegar antes mesmo da existência de instrumentos capazes de confirmar certas hipóteses.

Séculos antes dos aceleradores de partículas, da mecânica quântica ou da teoria de campos, ele já tentava descrever um universo onde a matéria sólida talvez fosse apenas uma ilusão criada por forças invisíveis.

E, de certa forma, a física moderna acabaria caminhando justamente nessa direção.

 

[ Fonte: El Diario.es ]

 

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