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Ciência

Plutão pode voltar a ser considerado um planeta? Cientistas reabriram um debate que parecia encerrado há quase 20 anos

As recentes declarações do administrador da NASA reacenderam uma das discussões mais controversas da astronomia moderna. Enquanto parte da comunidade científica defende a definição atual da União Astronômica Internacional, outros pesquisadores afirmam que Plutão talvez nunca devesse ter perdido o status de planeta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante mais de sete décadas, Plutão ocupou um lugar especial no imaginário popular.

Era o nono planeta do Sistema Solar, aparecia em livros escolares, documentários, maquetes infantis e fazia parte da lista clássica aprendida por gerações inteiras.

Então, em 2006, tudo mudou.

A decisão da União Astronômica Internacional de reclassificar Plutão como “planeta anão” provocou uma das maiores polêmicas da história recente da astronomia.

E agora o debate voltou com força.

A fala do chefe da NASA reacendeu a discussão

Plutão pode voltar a ser planeta após quase duas décadas fora da lista oficial
© https://x.com/konstructivizm

A nova onda de debates começou após declarações de Jared Isaacman durante uma audiência no Senado dos Estados Unidos no final de abril.

Isaacman afirmou ser favorável ao retorno de Plutão à categoria de planeta.

A declaração teve enorme repercussão porque a discussão nunca desapareceu completamente dentro da comunidade científica.

Mesmo quase 20 anos após a mudança oficial, muitos astrônomos continuam discordando dos critérios usados para retirar o antigo status de Plutão.

Como Plutão deixou de ser planeta

Plutão foi descoberto em 1930 pelo astrônomo americano Clyde Tombaugh no Observatório Lowell, no Arizona.

Durante décadas, ninguém questionou seriamente sua posição como nono planeta do Sistema Solar.

O problema surgiu com o avanço da astronomia moderna.

Conforme telescópios ficaram mais poderosos, cientistas começaram a encontrar vários outros objetos semelhantes além da órbita de Netuno.

O momento decisivo aconteceu em 2005, com a descoberta de Éris, um corpo celeste ainda mais massivo que Plutão.

A partir daí surgiu um dilema: ou Éris também se tornaria planeta, ou seria necessário redefinir o conceito inteiro.

A definição que mudou tudo

Em 2006, a União Astronômica Internacional estabeleceu oficialmente três critérios para que um corpo fosse considerado planeta:

  1. orbitar o Sol;
  2. possuir massa suficiente para adquirir forma aproximadamente esférica;
  3. “limpar” a própria órbita de outros objetos.

Plutão atendia aos dois primeiros requisitos.

Mas falhava no terceiro.

Sua órbita compartilha espaço com diversos objetos do chamado Cinturão de Kuiper, região repleta de corpos gelados além de Netuno.

Por isso, foi reclassificado como planeta anão.

O problema: muitos cientistas acham essa definição ruim

Histórico: A missão que desvendou mistérios além de Plutão
© https://x.com/KYKYPY3A_B

A principal crítica está justamente no critério orbital.

Vários pesquisadores argumentam que definir um planeta pelo ambiente ao redor dele faz pouco sentido.

O astrobiólogo David Grinspoon resumiu a questão de forma provocativa.

Segundo ele, se a Terra estivesse cercada por inúmeros pequenos objetos, como aconteceu nos primeiros estágios do Sistema Solar, ela deixaria de ser planeta?

Para muitos cientistas, isso parece absurdo.

Nem os oito planetas atuais “limpam” totalmente suas órbitas

Outro pesquisador bastante crítico da definição atual é o cientista planetário Philip Metzger.

Ele afirma que o conceito de “limpar a órbita” nunca foi claramente definido pela União Astronômica Internacional.

E existe um detalhe curioso: interpretado literalmente, nenhum planeta do Sistema Solar realmente limpa completamente sua órbita.

Todos coexistem com asteroides, poeira espacial ou outros pequenos corpos.

Metzger chegou a revisar dois séculos de literatura científica e concluiu que o critério orbital praticamente não aparecia historicamente como elemento central na definição de planeta.

Novas propostas tentam redefinir o conceito

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a propor novas formas de classificação.

Uma das ideias mais recentes sugere usar apenas parâmetros físicos mensuráveis, como massa e comportamento gravitacional.

Nesse modelo, um planeta precisaria orbitar uma estrela e possuir massa dentro de uma faixa específica.

Mas mesmo essas alternativas ainda apresentam problemas.

Em alguns cenários, Plutão continuaria pequeno demais para recuperar oficialmente o status perdido.

A missão New Horizons mudou a percepção sobre Plutão

Curiosamente, pouco antes da reclassificação, a NASA lançou a missão New Horizons para estudar Plutão de perto.

Quando a sonda finalmente chegou ao destino, em 2015, revelou um mundo muito mais complexo do que os cientistas imaginavam.

Plutão possui montanhas de gelo, atmosfera fina, possíveis estruturas geológicas ativas e uma superfície surpreendentemente diversa.

As imagens e dados da missão ajudaram a fortalecer emocionalmente — e em parte cientificamente — o movimento favorável à “reabilitação” de Plutão.

O debate vai além da ciência

No fundo, a discussão sobre Plutão mistura astronomia, história, linguagem e até cultura popular.

Para parte da comunidade científica, a definição atual faz sentido porque organiza melhor a enorme diversidade de objetos descobertos além de Netuno.

Para outros, ela parece arbitrária demais e acaba ignorando características físicas importantes do próprio corpo celeste.

Talvez o mais curioso de toda essa história seja perceber que a pergunta “o que é um planeta?” continua muito menos simples do que parecia quando aprendíamos o Sistema Solar na escola.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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