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Ciência

Dormir pouco faz mal… e dormir demais?

A ciência agora aponta que dormir demais também pode ser um sinal de alerta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O sono sempre foi tratado como um aliado da saúde. Mas, nos últimos anos, pesquisadores passaram a observar algo curioso: tanto a falta quanto o excesso de descanso podem estar ligados a problemas cardiovasculares. Em vez de uma linha reta, a relação entre sono e coração segue um formato inesperado. E essa descoberta vem mudando a forma como médicos e especialistas encaram a prevenção de infartos, AVCs e outras doenças do sistema circulatório.

A curva em “U” que chama a atenção da ciência

Dormir pouco faz mal... e dormir demais?
© Pexels

Dormir mal sempre foi associado a riscos para o coração. O que surpreende os pesquisadores é que dormir demais também aparece no radar como um possível sinal de perigo. Estudos populacionais e análises com exames de imagem indicam que a relação entre horas de sono e saúde cardiovascular forma uma curva em “U”.

Isso significa que o risco de infarto, AVC e outras doenças cresce tanto entre quem dorme pouco quanto entre quem dorme em excesso. O ponto mais seguro da curva, onde o risco é menor, costuma estar entre sete e oito horas de sono por noite.

Nesse intervalo, o organismo consegue manter melhor controle da pressão arterial, do metabolismo da glicose, dos processos inflamatórios e da saúde das artérias. Fora dessa faixa, o equilíbrio começa a se perder.

Segundo cardiologistas, o impacto do sono sobre o coração não acontece de forma imediata. Ele se acumula ao longo dos anos, somando efeitos como hipertensão, diabetes e obesidade. Esses fatores, juntos, aumentam significativamente o risco cardiovascular.

O sono, que antes era visto apenas como descanso, passou a ser considerado uma peça-chave na prevenção de doenças do coração.

Quando dormir pouco vira um ataque silencioso às artérias

Dormir menos de seis horas por noite provoca uma série de reações no corpo. O sistema nervoso simpático — responsável pelas respostas ao estresse — fica mais ativo. Há maior liberação de hormônios como o cortisol, elevação sustentada da pressão arterial e pior controle do açúcar no sangue.

Essas alterações ajudam a explicar por que pessoas que dormem pouco apresentam maior presença de aterosclerose subclínica, ou seja, placas de gordura nas artérias antes mesmo de surgirem sintomas.

O problema é que esses danos costumam evoluir de forma silenciosa. Jovens aparentemente saudáveis podem estar acumulando riscos sem perceber. Com o tempo, esse desgaste aumenta as chances de infarto, AVC e arritmias.

Além disso, o sono curto está associado a maior inflamação no organismo. Esse estado inflamatório contribui para o envelhecimento precoce dos vasos sanguíneos e para a perda da flexibilidade das artérias.

Ou seja, a privação de sono não afeta apenas o cansaço do dia seguinte — ela impacta diretamente a estrutura e o funcionamento do sistema cardiovascular.

Por que dormir demais também entra na zona de risco

Se dormir pouco é ruim, dormir muito não significa, necessariamente, estar protegido. Pesquisas com milhões de participantes mostram que dormir mais de nove horas por noite também se associa a maior risco de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares.

Na maioria dos casos, o excesso de sono não é a causa direta do problema. Ele costuma ser um marcador de outras condições, como depressão, sedentarismo, inflamação crônica ou distúrbios do sono.

Um dos fatores mais frequentes por trás do sono prolongado é a apneia obstrutiva do sono. Nessa condição, a pessoa até passa muitas horas na cama, mas o descanso não é reparador. Há interrupções repetidas da respiração, quedas de oxigenação e picos de pressão arterial durante a noite.

Esses episódios ativam processos inflamatórios que sobrecarregam o coração e os vasos sanguíneos.

Outro ponto importante é a relação entre sono excessivo e inflamação sistêmica. Pessoas que dormem demais tendem a apresentar níveis mais elevados de marcadores inflamatórios, o que contribui para a progressão da aterosclerose.

Além disso, o sono prolongado aparece com mais frequência em indivíduos com baixa atividade física, maior fragilidade clínica e presença de doenças crônicas — fatores que, por si só, já aumentam o risco cardiovascular.

Em idosos, por exemplo, dormir muitas horas pode refletir perda de autonomia, redução da massa muscular e pior condição cardiometabólica.

Não é só quantidade: qualidade e regularidade também importam

A ciência do sono mostra que não basta contar horas. A qualidade do descanso é tão importante quanto a duração.

A fragmentação do sono — acordar várias vezes durante a noite — provoca pequenos “choques” no sistema cardiovascular. Cada despertar ativa o sistema nervoso simpático, elevando a frequência cardíaca e a pressão arterial.

Com o tempo, esses picos repetidos se associam a hipertensão e a arritmias, como a fibrilação atrial.

Outro fator de risco é a irregularidade nos horários de dormir e acordar. Quando o ritmo circadiano fica desorganizado, o corpo passa a ter mais dificuldade para controlar a pressão arterial, o metabolismo e os processos inflamatórios.

Mesmo quem dorme um número aparentemente adequado de horas pode estar em risco se o sono for fragmentado ou irregular.

Por isso, especialistas alertam que problemas persistentes de sono não devem ser normalizados. Ronco alto, pausas respiratórias, sonolência excessiva durante o dia, cansaço ao acordar e insônia frequente são sinais de alerta.

Investigar esses sintomas pode fazer diferença real na prevenção de infarto e AVC.

O sono entrou de vez na prevenção do coração

Durante muito tempo, dieta e atividade física dominaram o debate sobre saúde cardiovascular. Isso começou a mudar quando grandes estudos mostraram que a má qualidade do sono também se associa a maior risco de hipertensão, infarto, AVC e arritmias.

Esse conhecimento foi tão consolidado que, em 2022, o sono passou a integrar oficialmente os pilares da saúde do coração ao lado de alimentação, exercício, controle da pressão, colesterol, glicemia, peso e tabagismo.

Hoje, o descanso é visto como um componente essencial da prevenção — não um detalhe secundário.

Dormir bem não significa apenas fechar os olhos por mais tempo. Significa oferecer ao corpo um período de recuperação real, capaz de proteger o coração a longo prazo.

[Fonte: G1 – Globo]

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