Por anos, a queda do tabagismo em muitos países pressionou a indústria a apostar em novos formatos de consumo de nicotina — com embalagens modernas, sabores e forte marketing digital. O argumento era simples: seriam opções “menos nocivas” do que o cigarro tradicional. Agora, uma revisão publicada no European Heart Journal aponta que, independentemente do formato, a nicotina pode prejudicar o sistema cardiovascular, acendendo um alerta para médicos, famílias e reguladores.
O que o novo trabalho analisou
O cigarro convencional, feito com tabaco queimado, continua sendo o produto mais estudado quando o assunto é risco de infarto, AVC e doença vascular. Mas o debate mudou nos últimos anos, à medida que vapes, tabaco aquecido, shishas e sachês de nicotina se espalharam, principalmente entre jovens.
No novo relatório, cientistas de Alemanha, Itália, Estados Unidos, Suíça e Reino Unido compilaram resultados de estudos clínicos e dados epidemiológicos para avaliar o impacto cardiovascular desses produtos. A conclusão central é direta: todos os formatos que entregam nicotina ao organismo podem afetar coração e vasos sanguíneos — e não há base sólida para chamar qualquer um deles de “seguro” do ponto de vista cardiovascular.
“Nicotina não é inocente”, dizem autores

Um dos coautores, Thomas Münzel, do Centro Médico Universitário de Mainz (Alemanha), afirma que o problema vai além do vício: a nicotina atua como uma toxina cardiovascular direta. Segundo ele, em diferentes tipos de consumo — cigarro, vape, tabaco aquecido e sachês — surgem sinais consistentes como elevação da pressão arterial e prejuízos ao funcionamento dos vasos.
O pesquisador também defende que a narrativa de “nicotina mais segura” deve ser abandonada e pede uma regulação unificada na Europa que inclua todos os produtos de nicotina, com foco especial na proteção de adolescentes, hoje alvo preferencial de estratégias de marketing.
Como surgiu o “mito” das alternativas
Nas últimas décadas, campanhas de saúde pública e restrições legais reduziram o consumo de cigarros em vários lugares. Nesse cenário, produtos “alternativos” ganharam espaço.
Os cigarros eletrônicos, disponíveis desde 2007, foram vendidos como tecnologia “moderna” e supostamente mais limpa. Shishas, apesar de antigas em algumas culturas, voltaram à moda em cafés e bares, associadas a um uso social que muitos consideravam inofensivo. Já os sachês de nicotina e outros produtos orais sem combustão se tornaram populares por serem discretos e fáceis de usar.
A combinação de sabores frutados, cores chamativas e presença forte nas redes sociais ajudou a consolidar a impressão de que esses produtos reduziriam o dano — principalmente entre quem nunca fumou cigarro tradicional.
Quais são os riscos cardiovasculares apontados
A revisão no European Heart Journal descreve mecanismos recorrentes associados ao consumo de nicotina, seja por via inalada ou oral. Entre os efeitos observados em diferentes estudos, aparecem:
- Aumento sustentado da pressão arterial
- Impacto no endotélio, a camada interna que reveste os vasos sanguíneos
- Inflamação e endurecimento das artérias, com maior chance de formação de placas
- Maior risco de infarto, AVC e doença vascular periférica, independentemente do formato
Os pesquisadores também destacam que até pessoas expostas ao vapor ou aerossol de alguns dispositivos podem apresentar sinais de dano vascular, reforçando a preocupação com ambientes fechados e uso coletivo.
O que especialistas da América Latina recomendam

Em entrevista ao Infobae, o cardiologista argentino Guido Bergman, da Associação Argentina de Tabacologia e coordenador de cessação tabágica no ICBA, disse ver o documento como um reforço importante. Ele aponta que, após perder consumidores, a indústria investiu em novos sistemas de entrega de nicotina para criar dependência em públicos mais jovens.
Bergman afirma que a nicotina pode causar disfunção vascular, favorecer trombose e provocar vasoconstrição, com potencial de levar a eventos graves mesmo sem combustão.
Já Guillermo Espinosa, coordenador do programa de controle do tabaco do Hospital Italiano de Buenos Aires, diz que os resultados são coerentes com o que sociedades médicas e organizações de saúde vêm defendendo na região. Ele alerta para o crescimento do consumo entre estudantes, impulsionado pela facilidade de acesso e pelos sabores — e lembra que muitos iniciam por esses produtos antes mesmo de experimentar cigarro comum, por acreditarem que “não faz mal”.
Um recado final: informação e regulação
A mensagem do conjunto de evidências é clara: não existe atalho “cardiologicamente seguro” para consumir nicotina. Para especialistas, o caminho passa por melhor informação ao público, ações para desestimular o consumo entre jovens e apoio a quem já usa esses produtos — incluindo acompanhamento médico e estratégias de cessação, sem normalizar o risco.
[ Fonte: Infobae ]