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Ciência

Sono contínuo de 8 horas não é natural, alerta estudo

Acordar no meio da madrugada e ficar encarando o teto pode parecer um problema moderno, mas talvez seja exatamente o contrário. Pesquisas históricas e científicas indicam que o sono contínuo de oito horas é uma invenção recente — e entender isso pode mudar a forma como lidamos com a insônia hoje.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Dormir em dois turnos era o normal

Durante a maior parte da história humana, o sono não era esse bloco único e ininterrupto que hoje consideramos ideal. O padrão mais comum era o chamado sono segmentado, dividido em dois períodos: o primeiro sono e o segundo sono. Entre eles, havia um intervalo de vigília que podia durar uma hora ou mais.

Relatos históricos da Europa, África e Ásia mostram que as pessoas iam dormir pouco depois do pôr do sol, acordavam por volta da meia-noite e, depois de um tempo acordadas, voltavam a dormir até o amanhecer. Esse intervalo não era visto como um problema, mas como parte natural da noite.

Esse modelo ajudava, inclusive, na percepção do tempo. A noite deixava de ser um bloco longo e opressivo, especialmente no inverno, e passava a ter um “meio” bem definido. Para muita gente, isso tornava as noites longas mais suportáveis.

O que as pessoas faziam nesse intervalo?

Sono contínuo de 8 horas não é natural, alerta estudo
© Pexels

O despertar noturno não era tempo perdido. Algumas pessoas se levantavam para cuidar do fogo, verificar animais ou organizar a casa. Outras ficavam na cama, rezavam, refletiam sobre sonhos ou simplesmente descansavam acordadas.

Diários e cartas pré-industriais citam esse período como um momento ideal para ler, escrever, conversar em voz baixa ou até visitar vizinhos. Muitos casais também usavam esse intervalo para intimidade. A literatura clássica reforça isso: textos atribuídos a Homero e Virgílio mencionam a “hora que encerra o primeiro sono”, mostrando como o segundo sono era algo amplamente conhecido.

Como o sono contínuo virou regra

O desaparecimento do sono em dois turnos começou há cerca de dois séculos. Um dos principais culpados foi a iluminação artificial. Primeiro vieram as lâmpadas a óleo, depois o gás e, por fim, a eletricidade. A noite deixou de ser um convite ao descanso e virou um tempo “produtivo”.

Do ponto de vista biológico, isso teve impacto direto no ritmo circadiano. A exposição à luz intensa à noite atrasa a liberação de melatonina, o hormônio do sono, dificultando tanto adormecer cedo quanto acordar naturalmente no meio da noite.

A Revolução Industrial reforçou essa mudança. Jornadas fixas nas fábricas exigiam um único período longo de descanso. No início do século 20, o ideal de oito horas ininterruptas de sono substituiu de vez o padrão histórico.

A ciência confirma: o corpo ainda lembra

Experimentos modernos mostram que, quando retiramos relógios e luz artificial e simulamos longas noites de inverno, muitas pessoas voltam espontaneamente ao sono segmentado. Um estudo de 2017 com uma comunidade agrícola em Madagascar, sem acesso à eletricidade, revelou que o padrão de dois períodos de sono ainda é comum.

Isso sugere que acordar no meio da noite pode não ser um defeito do corpo, mas um resquício de como sempre dormimos. O problema não é despertar — é como reagimos a isso.

Repensando a insônia

Especialistas em sono explicam que pequenos despertares são normais, especialmente nas transições entre fases do sono, como perto do REM. O cérebro percebe o tempo de forma elástica: ansiedade, silêncio e escuridão fazem os minutos parecerem eternos.

Por isso, abordagens modernas como a terapia cognitivo-comportamental para insônia recomendam sair da cama após cerca de 20 minutos acordado, fazer algo tranquilo sob luz fraca e só voltar quando o sono reaparecer. Cobrir o relógio também ajuda: medir o tempo só aumenta a tensão.

Entender que o sono contínuo não é uma regra natural — e que o segundo sono já foi parte da rotina humana — pode aliviar a culpa e a ansiedade de quem acorda às 3 da manhã. Em vez de lutar contra o corpo, talvez seja hora de escutá-lo com mais calma.

[Fonte: Carta Campinas]

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