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Ciência

Durante décadas, terremotos “impossíveis” intrigaram geólogos em Utah. Agora eles acreditam ter descoberto um novo tipo de abalo sísmico vindo das profundezas da Terra

Um terremoto registrado em Utah no final da década de 1970 parecia desafiar tudo o que os cientistas sabiam sobre atividade sísmica. Quase 50 anos depois, pesquisadores acreditam ter encontrado a explicação: uma categoria até então desconhecida de terremotos que se origina muito abaixo da crosta terrestre, em regiões onde as rochas deveriam se comportar como material plástico e não se romper.
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Em fevereiro de 1979, um terremoto de magnitude 3,8 ocorreu próximo à pequena cidade de Randolph, no estado americano de Utah. Embora fosse forte o suficiente para ser detectado com clareza pelos instrumentos da época, algo chamou a atenção dos pesquisadores: praticamente ninguém sentiu o tremor.

O caso intrigou os cientistas da Universidade de Utah durante décadas. Afinal, terremotos dessa magnitude normalmente são percebidos por moradores próximos ao epicentro. A ausência de relatos parecia incompatível com os registros sísmicos.

Agora, quase meio século depois, uma equipe de pesquisadores acredita ter encontrado a resposta para esse mistério. O fenômeno pode representar uma nova categoria de terremotos, originados não na crosta terrestre, mas em profundidades muito maiores, dentro do manto superior da Terra.

Um terremoto vindo de onde não deveria existir

A pesquisa foi conduzida por especialistas da University of Utah, em parceria com cientistas dos Sandia National Laboratories e outras instituições.

Os pesquisadores identificaram evidências de um tipo raro de terremoto que ocorre entre 70 e 90 quilômetros abaixo da superfície, muito além da profundidade típica da maioria dos eventos sísmicos continentais.

Esses fenômenos passaram a ser chamados de “terremotos do manto”, uma referência à camada terrestre localizada abaixo da crosta.

O geólogo George Zandt, que inicialmente investigou o caso de Randolph durante seu período como pesquisador de pós-doutorado, participou novamente dos estudos após sair da aposentadoria.

Segundo ele, a profundidade incomum sempre foi a explicação mais plausível para o fato de o terremoto quase não ter sido percebido na superfície.

O problema: as rochas nessa profundidade deveriam fluir, não quebrar

O aspecto mais intrigante desses terremotos está relacionado às condições físicas do ambiente onde eles ocorrem.

Nas profundidades em que foram detectados, a pressão é extremamente elevada e as temperaturas alcançam níveis que alteram o comportamento das rochas.

Normalmente, os materiais presentes nessa região não se comportam como blocos rígidos capazes de se romper repentinamente. Em vez disso, tendem a deformar-se lentamente ao longo de milhões de anos.

O geofísico Keith Koper compara esse comportamento ao de um caramelo macio.

“É como um tipo de massa elástica ou bala de caramelo quando observada em escalas geológicas”, explicou o pesquisador.

Por isso, a existência de terremotos gerados nessas condições continua sendo um desafio para os modelos tradicionais da física da Terra sólida.

Novos registros confirmam que o fenômeno é real

Nos últimos anos, a equipe liderada por Koper conseguiu catalogar nove eventos semelhantes originados abaixo da crosta terrestre.

Um dos casos mais importantes ocorreu em setembro de 2025 sob a região da Bacia de Uinta, também em Utah.

Esse terremoto apresentou magnitude 4,1 e foi rastreado até uma profundidade de aproximadamente 68 quilômetros. O ponto de origem estava cerca de 20 quilômetros abaixo da chamada Descontinuidade de Mohorovičić, conhecida informalmente como “Moho”, a fronteira que separa a crosta terrestre do manto.

Apesar da magnitude relativamente elevada, o tremor produziu efeitos muito mais discretos na superfície do que um terremoto convencional da mesma intensidade.

A ligação com uma estrutura geológica antiga

Embora o mecanismo exato ainda permaneça desconhecido, os cientistas já identificaram algumas características comuns entre os terremotos do manto.

Todos parecem ocorrer próximos ao Cráton de Wyoming, uma das formações geológicas mais antigas da América do Norte.

Os crátons são enormes blocos continentais extremamente estáveis que podem permanecer praticamente intactos por bilhões de anos. Eles se estendem profundamente em direção ao interior do planeta, alcançando centenas de quilômetros abaixo da superfície.

Segundo os pesquisadores, o material quente e parcialmente fundido existente ao redor dessa estrutura pode exercer forças capazes de gerar tensões internas suficientes para provocar os terremotos observados.

A hipótese é que os movimentos lentos do manto atuem sobre a base do cráton de maneira semelhante ao balanço de um navio sobre o mar, acumulando tensões até que ocorra uma ruptura localizada.

Um novo mistério para a geologia moderna

Apesar dos avanços recentes, muitas perguntas continuam sem resposta.

Os cientistas ainda não sabem exatamente como esses terremotos se iniciam, nem qual é o limite máximo de sua magnitude. Também permanece incerto se fenômenos semelhantes ocorrem em outras partes do planeta e simplesmente passaram despercebidos devido à dificuldade de detectá-los.

Para Keith Koper, compreender esses eventos é fundamental não apenas para ampliar o conhecimento sobre a dinâmica interna da Terra, mas também para avaliar potenciais riscos sísmicos.

Até o momento, não existem evidências de que os terremotos do manto representem uma ameaça significativa para populações na superfície. Ainda assim, os pesquisadores alertam que a falta de dados impede conclusões definitivas.

O que antes parecia apenas uma anomalia isolada registrada em Utah agora pode representar a descoberta de um fenômeno geológico inteiramente novo. E, como acontece com frequência na ciência, cada resposta encontrada está abrindo um conjunto ainda maior de perguntas sobre o funcionamento profundo do nosso planeta.

 

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