A inteligência artificial voltou ao centro de uma polêmica envolvendo o Vaticano. Depois que a encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo papa Leão XIV, passou a ser acusada por parte da comunidade de IA de conter trechos gerados artificialmente, a Santa Sé decidiu responder de forma incomum: contratou uma empresa especializada para certificar que o documento foi produzido por seres humanos.
O resultado foi favorável ao Vaticano. Segundo a empresa Proudly Human, a encíclica foi integralmente escrita por autores humanos, sem trechos produzidos por inteligência artificial.
A controvérsia, no entanto, evidencia um problema cada vez mais comum: até que ponto é possível confiar nos detectores de IA?
Detectores apontaram possível uso de IA
A discussão começou pouco depois da publicação de Magnifica Humanitas, uma encíclica de aproximadamente 43 mil palavras na qual o papa defende a preservação da dignidade humana diante do avanço da inteligência artificial.
Alguns entusiastas da IA passaram a afirmar que o próprio documento teria sido escrito, ao menos em parte, com auxílio de ferramentas generativas, acusando o Vaticano de incoerência.
Entre os responsáveis pelas suspeitas estava a Pangram Labs, empresa conhecida por desenvolver detectores de textos produzidos por IA.
Segundo suas análises, a maior parte da encíclica apresentava características de autoria humana, mas alguns parágrafos poderiam ter sido gerados artificialmente.
O pesquisador de IA Linch Zhang chegou a uma conclusão semelhante. Em sua análise, sugeriu que determinados trechos poderiam indicar o uso de IA, embora tenha ressaltado que seria mais provável uma eventual colaboração de assessores do Vaticano do que do próprio papa.
Vaticano buscou certificação independente
Sem comentar diretamente as acusações, o Vaticano decidiu submeter a encíclica a uma certificação realizada pela Proudly Human, empresa especializada em validar obras produzidas sem inteligência artificial.
Para realizar a análise, a organização recebeu diversos textos e discursos anteriores atribuídos ao papa Leão XIV.
Esses documentos serviram como base de comparação para verificar se o estilo de escrita da encíclica era compatível com o restante da produção textual do pontífice.
Além da análise linguística, o processo também exigiu uma verificação de identidade e uma declaração formal afirmando que a inteligência artificial não foi utilizada para criar o primeiro rascunho nem para redigir frases ou parágrafos do texto final.
A curiosa ironia: a IA ajudou a provar que não houve IA
O aspecto mais curioso da história é que a própria certificação utilizou inteligência artificial.
Segundo o jornal The Guardian, a Proudly Human emprega diferentes ferramentas de IA para analisar padrões de escrita, escolhas gramaticais e características estilísticas presentes nos documentos.
Em seguida, um algoritmo próprio reúne esses resultados para calcular a probabilidade de autoria humana.
Após essa análise, a empresa concluiu que Magnifica Humanitas foi escrita integralmente por humanos.
O debate sobre detectores de IA continua
O episódio reforça uma das maiores dificuldades enfrentadas atualmente no campo da inteligência artificial: a confiabilidade dos detectores de conteúdo gerado por IA.
Diversos estudos já demonstraram que essas ferramentas podem produzir tanto falsos positivos quanto falsos negativos, especialmente quando analisam textos bem escritos ou revisados por humanos.
No caso da encíclica, não existe consenso entre os diferentes sistemas de detecção. Enquanto algumas análises apontaram possíveis trechos suspeitos, a certificação contratada pelo Vaticano concluiu exatamente o oposto.
No fim das contas, a controvérsia acaba se resumindo a uma questão de confiança: confiar nos detectores que sugerem o uso de IA ou no método de certificação que afirma que o texto é inteiramente humano. Independentemente da resposta, o caso mostra como a própria inteligência artificial já passou a desempenhar um papel central até mesmo na tentativa de provar quando ela não foi utilizada.