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Tecnologia

E se a energia pudesse viajar pelo ar? Um experimento acaba de levar essa ideia mais longe

Um experimento conseguiu enviar energia por quilômetros usando apenas luz. O teste parece simples, mas faz parte de uma ideia muito maior para mudar a forma como a eletricidade circula.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante mais de um século, transmitir eletricidade significou quase sempre a mesma coisa: construir fios, postes, torres ou outras estruturas para levar energia de um ponto a outro. Mas e se fosse possível simplesmente apontar para o destino e enviar a energia pelo ar? Essa ideia ainda está longe de abastecer cidades, mas um experimento recente mostrou que ela já pode atravessar quilômetros. E o verdadeiro objetivo por trás do teste é muito mais ambicioso.

O teste que fez a energia atravessar o vazio

Em testes realizados no Novo México, nos Estados Unidos, o programa POWER, da DARPA, conseguiu entregar mais de 800 watts de potência a uma distância de 8,6 quilômetros durante uma transmissão de cerca de 30 segundos. Ao longo de toda a campanha de testes, mais de um megajoule de energia foi transferido.

O número chama atenção, mas a distância talvez seja ainda mais importante.

Em vez de transportar eletricidade por um cabo, o sistema utilizou um feixe de laser. No outro extremo, um receptor capturou a luz e a transformou novamente em eletricidade utilizável.

O teste também teve uma dificuldade adicional: tanto o transmissor quanto o receptor estavam no solo. Isso obrigou o feixe a atravessar uma grande quantidade de atmosfera, permitindo testar o sistema em condições particularmente exigentes.

E havia outra característica curiosa: o receptor não dependia de componentes exóticos.

O segredo estava em transformar luz novamente em eletricidade

O receptor desenvolvido pela Teravec Technologies tinha uma abertura central por onde entrava o laser. Depois, um espelho parabólico direcionava a luz para dezenas de células fotovoltaicas instaladas dentro do dispositivo.

Essas células faziam algo bastante familiar: convertiam a energia luminosa em eletricidade.

O conceito parece simples, mas conseguir fazê-lo a quilômetros de distância exige controlar cuidadosamente o feixe, a óptica e o alinhamento entre transmissor e receptor.

A equipe também conseguiu construir o receptor em aproximadamente três meses, utilizando componentes disponíveis comercialmente. Em distâncias menores, o sistema registrou eficiência óptica-elétrica superior a 20%, embora essa não tenha sido a principal métrica do teste de 8,6 quilômetros.

É justamente aí que aparece uma distinção importante: o experimento não demonstrou uma maneira eficiente de substituir a rede elétrica atual. Ele demonstrou que é possível transportar uma quantidade significativa de energia por feixe óptico a quilômetros de distância.

Mas por que usar um laser?

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© DARPA

O laser é apenas a primeira peça de algo muito maior

Micro-ondas também podem ser utilizadas para transmissão sem fio, mas os feixes ópticos podem ser muito mais direcionais e concentrados. Isso permite imaginar trajetórias precisas entre diferentes pontos.

O problema é que a atmosfera não facilita as coisas. Névoa, poeira, chuva e nuvens podem interferir no feixe, limitando quando e onde a tecnologia pode funcionar. Por isso, o sistema não representa uma solução universal para substituir fios.

A DARPA, porém, nunca teve como objetivo simplesmente eliminar cabos.

O programa Persistent Optical Wireless Energy Relay (POWER) foi concebido para criar uma espécie de rede aérea de energia. A ideia é usar plataformas aéreas como nós intermediários, capazes de receber energia de uma fonte no solo e retransmiti-la para outros pontos.

Em vez de uma única transmissão direta, a energia poderia viajar por vários “saltos”, formando uma rede semelhante, em conceito, à maneira como dados percorrem diferentes nós de uma rede.

A própria DARPA chegou a descrever a visão como uma espécie de “internet para energia”.

O objetivo não é carregar celulares do céu

É fácil imaginar o próximo passo errado: casas recebendo eletricidade por laser ou smartphones sendo carregados enquanto alguém caminha pela rua.

Não é isso que o experimento demonstrou.

O interesse inicial é muito mais específico. Em operações militares, zonas de desastre ou locais sem infraestrutura, levar combustível ou instalar linhas de transmissão pode ser lento, caro e vulnerável.

Uma rede óptica poderia permitir que uma fonte de energia relativamente distante abastecesse equipamentos sem que cada plataforma precisasse carregar grandes quantidades de combustível.

A DARPA chegou a propor, nas fases futuras do programa, transmissões por múltiplos relés aéreos e distâncias muito maiores. A meta descrita anteriormente incluía levar energia de uma fonte terrestre até um receptor a cerca de 200 quilômetros, passando por uma cadeia de relés. Isso era um objetivo de desenvolvimento, não algo já demonstrado.

O programa POWER aparece atualmente na DARPA como concluído, portanto a grande rede aérea imaginada pela agência não deve ser apresentada como uma infraestrutura já operacional.

Mesmo assim, o experimento deixou uma mensagem importante.

A eletricidade não precisa necessariamente seguir um fio para chegar a outro lugar. Ela pode ser convertida em luz, atravessar o espaço e voltar a ser eletricidade no destino.

O desafio agora não é provar que isso pode funcionar em princípio. É descobrir até onde essa ideia pode chegar — com eficiência, segurança, estabilidade e condições atmosféricas reais.

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