Pular para o conteúdo
Tecnologia

Empresas enfrentam escassez de habilidades socioemocionais enquanto IA acelera mudanças no mercado de trabalho, aponta estudo regional

Um levantamento na América Latina revela que as habilidades mais valorizadas pelas empresas — como responsabilidade, empatia e comunicação — são justamente as mais raras. Em meio à transformação digital e ao avanço da inteligência artificial, o diferencial competitivo pode estar menos na técnica e mais no fator humano.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Enquanto a inteligência artificial redefine funções e automatiza tarefas em ritmo acelerado, empresas da região enfrentam um paradoxo: sobram candidatos com formação técnica, mas faltam profissionais com habilidades socioemocionais consolidadas. Um estudo conduzido pela Bumeran mostra que 68% dos especialistas em Recursos Humanos consideram as chamadas “habilidades leves” as mais buscadas — e também as mais difíceis de encontrar.

O dado reflete uma mudança estrutural no mercado de trabalho latino-americano, onde o domínio técnico já não é suficiente para garantir empregabilidade.

O que as empresas realmente procuram

Entrevista 2
© Unsplash – Ahmet Kurt.

Segundo o levantamento, responsabilidade e pontualidade aparecem no topo da lista (47%), seguidas por empatia (46%) e comunicação (42%). Todas superam, em importância, as habilidades técnicas tradicionais.

A preferência se repete em países como Peru e Chile (69%), Equador (67%) e Panamá (57%), sinalizando uma tendência regional. Para 35% dos recrutadores, essas competências ajudam a criar ambientes de trabalho positivos. Outros 17% destacam o estímulo à colaboração, enquanto 15% apontam o fortalecimento das relações interpessoais e a resolução de conflitos.

Do outro lado, 58% dos profissionais que priorizam habilidades técnicas afirmam que elas continuam essenciais para cumprir os requisitos formais das vagas. Ainda assim, a balança parece pender para o lado humano.

Um novo “contrato” de trabalho

Para Roberto Mazza, diretor da Maestria em Recursos Humanos da Universidad de Buenos Aires, o cenário marca o surgimento de um novo contrato laboral.

Segundo ele, a tecnologia redefine competências técnicas todos os anos, mas a capacidade de conversar, confiar e se comprometer tornou-se o ativo mais escasso. “Já não buscamos apenas empregados; buscamos talentos capazes de navegar a incerteza com agilidade e autenticidade”, afirma.

A avaliação é reforçada por Mariana D’Ardis, HR Business Partner da Adecco Argentina. Em um contexto de automação e instabilidade econômica, adaptação, colaboração e inteligência emocional passaram a ser determinantes.

IA acelera a exigência por competências humanas

Mercado De Trabalho
© Stokkete – Shutterstock

O estudo Talent Trends, citado por Ezequiel Arcioni, diretor da Michael Page, aponta que 81% dos profissionais utilizam ferramentas de IA ao menos uma vez por semana. Isso reforça a ideia de que o diferencial não está mais apenas na execução técnica, mas na capacidade de integrar tecnologia, estratégia e gestão de pessoas.

Curiosidade, escuta ativa, visão estratégica e empatia ganham protagonismo, especialmente em cargos de liderança.

Diferenças geracionais e caminhos para desenvolvimento

O levantamento indica que profissionais entre 31 e 40 anos tendem a apresentar habilidades socioemocionais mais desenvolvidas. Já a faixa entre 41 e 50 anos se destaca mais pelas competências técnicas.

A boa notícia é que essas habilidades podem ser trabalhadas. Segundo 60% dos especialistas consultados, as empresas têm investido em programas de desenvolvimento. Para competências técnicas, predominam treinamentos formais (65%), eventos e conferências (25%) e rotação de projetos (23%). Já para habilidades leves, destacam-se workshops de desenvolvimento pessoal (40%), coaching e mentoria (28%) e políticas de diversidade e inclusão (23%).

Mazza defende a transição do controle rígido para o empowerment: líderes devem reduzir o micromanagement e criar ambientes de confiança, onde vulnerabilidade e autenticidade sejam valorizadas.

O desafio brasileiro e regional

Apesar da tendência positiva, ainda há lacunas. Na Argentina, apenas 60% das empresas implementam estratégias estruturadas de capacitação, enquanto no Equador o índice chega a 74%.

Para Federico Barni, CEO da Bumeran, a capacitação precisa ser política organizacional transversal. Investir no crescimento integral dos colaboradores fortalece tanto competências técnicas quanto adaptabilidade e inteligência emocional.

No fim das contas, o mercado de trabalho tornou-se um ecossistema dinâmico e exigente. A técnica continua essencial, mas ignorar o fator humano pode custar caro. Em tempos de IA e automação, talvez o verdadeiro diferencial competitivo esteja justamente naquilo que as máquinas ainda não conseguem replicar: confiança, empatia e capacidade de construir relações duradouras.

 

[ Fonte: TN ]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados