Enquanto a inteligência artificial redefine funções e automatiza tarefas em ritmo acelerado, empresas da região enfrentam um paradoxo: sobram candidatos com formação técnica, mas faltam profissionais com habilidades socioemocionais consolidadas. Um estudo conduzido pela Bumeran mostra que 68% dos especialistas em Recursos Humanos consideram as chamadas “habilidades leves” as mais buscadas — e também as mais difíceis de encontrar.
O dado reflete uma mudança estrutural no mercado de trabalho latino-americano, onde o domínio técnico já não é suficiente para garantir empregabilidade.
O que as empresas realmente procuram

Segundo o levantamento, responsabilidade e pontualidade aparecem no topo da lista (47%), seguidas por empatia (46%) e comunicação (42%). Todas superam, em importância, as habilidades técnicas tradicionais.
A preferência se repete em países como Peru e Chile (69%), Equador (67%) e Panamá (57%), sinalizando uma tendência regional. Para 35% dos recrutadores, essas competências ajudam a criar ambientes de trabalho positivos. Outros 17% destacam o estímulo à colaboração, enquanto 15% apontam o fortalecimento das relações interpessoais e a resolução de conflitos.
Do outro lado, 58% dos profissionais que priorizam habilidades técnicas afirmam que elas continuam essenciais para cumprir os requisitos formais das vagas. Ainda assim, a balança parece pender para o lado humano.
Um novo “contrato” de trabalho
Para Roberto Mazza, diretor da Maestria em Recursos Humanos da Universidad de Buenos Aires, o cenário marca o surgimento de um novo contrato laboral.
Segundo ele, a tecnologia redefine competências técnicas todos os anos, mas a capacidade de conversar, confiar e se comprometer tornou-se o ativo mais escasso. “Já não buscamos apenas empregados; buscamos talentos capazes de navegar a incerteza com agilidade e autenticidade”, afirma.
A avaliação é reforçada por Mariana D’Ardis, HR Business Partner da Adecco Argentina. Em um contexto de automação e instabilidade econômica, adaptação, colaboração e inteligência emocional passaram a ser determinantes.
IA acelera a exigência por competências humanas

O estudo Talent Trends, citado por Ezequiel Arcioni, diretor da Michael Page, aponta que 81% dos profissionais utilizam ferramentas de IA ao menos uma vez por semana. Isso reforça a ideia de que o diferencial não está mais apenas na execução técnica, mas na capacidade de integrar tecnologia, estratégia e gestão de pessoas.
Curiosidade, escuta ativa, visão estratégica e empatia ganham protagonismo, especialmente em cargos de liderança.
Diferenças geracionais e caminhos para desenvolvimento
O levantamento indica que profissionais entre 31 e 40 anos tendem a apresentar habilidades socioemocionais mais desenvolvidas. Já a faixa entre 41 e 50 anos se destaca mais pelas competências técnicas.
A boa notícia é que essas habilidades podem ser trabalhadas. Segundo 60% dos especialistas consultados, as empresas têm investido em programas de desenvolvimento. Para competências técnicas, predominam treinamentos formais (65%), eventos e conferências (25%) e rotação de projetos (23%). Já para habilidades leves, destacam-se workshops de desenvolvimento pessoal (40%), coaching e mentoria (28%) e políticas de diversidade e inclusão (23%).
Mazza defende a transição do controle rígido para o empowerment: líderes devem reduzir o micromanagement e criar ambientes de confiança, onde vulnerabilidade e autenticidade sejam valorizadas.
O desafio brasileiro e regional
Apesar da tendência positiva, ainda há lacunas. Na Argentina, apenas 60% das empresas implementam estratégias estruturadas de capacitação, enquanto no Equador o índice chega a 74%.
Para Federico Barni, CEO da Bumeran, a capacitação precisa ser política organizacional transversal. Investir no crescimento integral dos colaboradores fortalece tanto competências técnicas quanto adaptabilidade e inteligência emocional.
No fim das contas, o mercado de trabalho tornou-se um ecossistema dinâmico e exigente. A técnica continua essencial, mas ignorar o fator humano pode custar caro. Em tempos de IA e automação, talvez o verdadeiro diferencial competitivo esteja justamente naquilo que as máquinas ainda não conseguem replicar: confiança, empatia e capacidade de construir relações duradouras.
[ Fonte: TN ]