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Guerra na Ucrânia transforma a sociedade russa: deserções, benefícios econômicos e o crescente distanciamento dos veteranos

Mais de quatro anos após o início da invasão em larga escala da Ucrânia, os impactos da guerra já ultrapassam o campo de batalha. Pesquisadores, ativistas e jornalistas apontam mudanças profundas na sociedade russa, que vão desde o aumento das deserções militares até a criação de uma nova dependência econômica ligada ao conflito.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A guerra iniciada pela Rússia em 2022 não está apenas redefinindo a geopolítica europeia. Ela também vem alterando a vida cotidiana dentro do próprio país. Enquanto milhares de soldados seguem mobilizados no front, cresce o número de desertores, famílias dependentes dos pagamentos militares e cidadãos que enfrentam sentimentos contraditórios em relação aos combatentes.

Pesquisadores russos exilados, defensores dos direitos humanos e jornalistas independentes têm documentado como o conflito está remodelando relações sociais, perspectivas econômicas e até mesmo a forma como a população enxerga os veteranos de guerra.

A difícil escolha entre combater ou fugir

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Um dos casos que ilustram essa realidade é o de Igor Shchetko, ex-militar das Forças de Mísseis Estratégicos da Rússia. Após a invasão da Ucrânia, ele decidiu abandonar o Exército e deixar o país.

Segundo seu relato, a decisão foi influenciada por experiências traumáticas vividas durante o serviço militar, incluindo o suicídio de um recruta de sua unidade. Depois de passar por tratamento psiquiátrico e descobrir que seria transferido para uma brigada de assalto, Shchetko concluiu que não participaria da guerra.

Poucos dias depois, fugiu para a Armênia e, posteriormente, para a União Europeia. Hoje, afirma que poderia enfrentar uma longa pena de prisão caso fosse extraditado para a Rússia.

Segundo o ativista de direitos humanos Sergei Krivenko, cerca de 60 mil militares russos já abandonaram suas unidades ou encontraram maneiras de evitar o combate. Nem todos desertam formalmente. Alguns se escondem dentro do próprio país, enquanto outros tentam obter dispensas médicas para escapar do envio ao front.

Quem está entrando para o Exército russo

Desde 2023, a Rússia passou a depender cada vez mais de contratos militares altamente remunerados para preencher suas fileiras.

Entre os novos recrutas estão ex-presidiários, migrantes, pessoas endividadas e moradores de regiões economicamente vulneráveis. Para muitos, a carreira militar representa uma das poucas oportunidades de melhorar a renda familiar.

Ao mesmo tempo, o governo intensificou programas considerados patrióticos em escolas e universidades, ampliando atividades de treinamento e educação voltadas para temas militares.

Ainda assim, especialistas alertam que seria simplista afirmar que todos os combatentes estão motivados apenas por questões financeiras. Relatos indicam que algumas unidades contam com soldados experientes e ideologicamente comprometidos com os objetivos do Kremlin.

O cotidiano marcado pela violência

A antropóloga Alexandra Arkhipova, que pesquisa os efeitos sociais da guerra, descreve um ambiente de extrema pressão dentro das forças armadas russas.

Com base em depoimentos de soldados, desertores e familiares, ela participou da elaboração de um “dicionário de guerra”, que reúne termos utilizados pelos militares no front.

As expressões revelam um cotidiano marcado por mecanismos de vigilância, punição e sobrevivência. Alguns relatos descrevem monitoramento constante por drones, centros improvisados de detenção e interrogatórios conduzidos pelos serviços de segurança russos.

Segundo Arkhipova, muitos combatentes enxergam poucas possibilidades de retorno à vida civil. Ferimentos graves, captura pelo inimigo, deserção ou morte acabam sendo percebidos como as únicas formas de deixar definitivamente a guerra.

A pesquisadora também relata o surgimento de um mercado informal no qual soldados pagariam quantias elevadas para evitar missões consideradas mais perigosas ou conseguir transferências para áreas menos expostas aos combates.

A guerra como motor econômico

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Enquanto parte da população sofre os efeitos psicológicos e sociais do conflito, outra parcela passou a depender economicamente dele.

O jornalista Alexei Tupitsyn afirma que os pagamentos oferecidos aos militares transformaram a realidade financeira de muitas famílias russas. Nos primeiros meses da mobilização, predominavam o medo e a preocupação com o destino dos combatentes. Com o tempo, porém, os benefícios financeiros ganharam destaque.

Segundo ele, diversas famílias conseguiram quitar dívidas, comprar imóveis e melhorar significativamente o padrão de vida graças aos recursos recebidos pelo serviço militar.

Em algumas regiões, filhos de soldados também passaram a receber benefícios adicionais em escolas e instituições públicas, criando uma nova camada de privilégios sociais associada à participação na guerra.

Veteranos enfrentam reconhecimento limitado

Apesar dos esforços do governo para exaltar os combatentes como heróis nacionais, a recepção da sociedade nem sempre corresponde a essa narrativa.

De acordo com pesquisadores e jornalistas, muitos veteranos enfrentam distanciamento social e dificuldades de reintegração. O fenômeno parece ser particularmente forte entre ex-presidiários recrutados para unidades de combate e integrantes de grupos militares privados.

Familiares de soldados também relatam episódios de exclusão e falta de reconhecimento. Algumas esposas afirmam que esperavam receber admiração pública pelo sacrifício de seus maridos, mas encontraram reações marcadas por desconfiança ou indiferença.

Para especialistas, essa contradição reflete uma mudança profunda na sociedade russa: ao mesmo tempo em que a guerra se torna cada vez mais presente no cotidiano, ela também produz divisões, tensões e novas formas de desigualdade que poderão permanecer por muitos anos após o fim do conflito.

 

[ Fonte: DW ]

 

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