Durante anos, a combinação de abundância solar, ventos favoráveis e apoio institucional colocou um país europeu no centro das apostas para liderar a produção de hidrogênio verde. O cenário parecia ideal para atrair investimentos bilionários e impulsionar uma nova revolução industrial baseada em energia limpa. Mas, nos bastidores, um problema estrutural começou a surgir e agora ameaça desacelerar alguns dos projetos mais ambiciosos do continente.
Quando gerar energia não é o mesmo que conseguir utilizá-la
A corrida pelo hidrogênio renovável ganhou força em toda a Europa, impulsionada pela necessidade de reduzir emissões e diminuir a dependência de combustíveis fósseis. Nesse contexto, a Espanha se destacou como uma das grandes candidatas a liderar o setor graças à enorme capacidade de geração de energia solar e eólica.
No entanto, uma dificuldade cada vez mais evidente está mudando os planos de diversas empresas: a infraestrutura elétrica não consegue acompanhar o ritmo dos investimentos.
Embora a produção de energia renovável continue crescendo, muitos empreendimentos de grande porte dependem de conexões robustas à rede elétrica para alimentar eletrolisadores capazes de produzir hidrogênio em escala industrial. Sem essas conexões, a eletricidade disponível simplesmente não chega aos locais onde é necessária.
Um dos casos mais emblemáticos envolve a empresa sueca Stegra. A companhia analisou diversas localizações para instalar um gigantesco complexo de hidrogênio verde. A maioria das opções avaliadas estava em território espanhol, mas nenhuma conseguiu garantir a capacidade elétrica exigida para o projeto.
Diante desse cenário, a empresa optou por transferir o investimento para o porto de Sines, em Portugal. A decisão chamou atenção porque o empreendimento representa cerca de 3 bilhões de euros em investimentos e centenas de empregos diretos.
O episódio deixou claro que a disponibilidade de energia renovável, por si só, já não é suficiente para garantir competitividade. A capacidade de transporte e distribuição da eletricidade tornou-se um fator decisivo na disputa por novos projetos industriais.

Bilhões em investimentos esbarram na infraestrutura
O caso da Stegra não é isolado. Outras iniciativas relevantes também começaram a sentir os efeitos das limitações da rede elétrica.
Um exemplo importante é o Vale Andaluz do Hidrogênio Verde, desenvolvido pela Moeve. Inicialmente, a companhia planejava instalar uma capacidade maior de eletrólise em sua unidade de Huelva. Porém, as restrições de conexão obrigaram a empresa a reduzir a dimensão da primeira fase do projeto.
Mesmo com investimento superior a 1 bilhão de euros e apoio financeiro europeu, a expansão completa dependerá de futuras melhorias na infraestrutura elétrica e de novas autorizações regulatórias.
O problema está relacionado à forma como a rede foi planejada nas últimas décadas. Grande parte dos investimentos foi direcionada para conectar usinas de geração renovável. Agora, o cenário mudou. Além das indústrias tradicionais, surgem centros de dados, sistemas de armazenamento energético e projetos de hidrogênio que demandam enormes quantidades de eletricidade em pontos específicos.
Essa nova realidade exige subestações, linhas de transmissão e reforços na rede capazes de atender consumidores de alta potência. O desafio é que essas obras costumam levar anos entre aprovação, licenciamento e construção.
A corrida do hidrogênio depende de muito mais do que energia limpa
As dificuldades não se limitam à infraestrutura física. O setor também aguarda avanços regulatórios que tragam maior previsibilidade para investidores.
Empresas do segmento defendem regras claras sobre o funcionamento do mercado de hidrogênio, o desenvolvimento das futuras redes de transporte e os compromissos de consumo que deverão ser assumidos por diferentes setores econômicos.
Enquanto isso, os investimentos continuam avançando. O governo espanhol já apoiou dezenas de projetos relacionados ao hidrogênio renovável, mobilizando bilhões de euros e incentivando uma capacidade de produção cada vez maior.
A situação revela uma das grandes contradições da transição energética atual. Um país pode possuir recursos naturais excepcionais, capacidade de geração renovável e interesse de investidores internacionais. Ainda assim, sem infraestrutura adequada e segurança regulatória, parte dessas oportunidades pode acabar migrando para mercados concorrentes.
A resposta para o título é clara: a Espanha continua sendo uma potência em energia renovável, mas a falta de capacidade da rede elétrica está começando a limitar projetos estratégicos e até a empurrar investimentos bilionários para outros países.