A escassez de trabalhadores operacionais está levando empresas brasileiras a recorrer a públicos antes pouco explorados. Com mais de 350 mil vagas abertas no setor supermercadista, iniciativas envolvendo presidiários em regime semiaberto, egressos das Forças Armadas, refugiados e pessoas com mais de 50 anos estão ganhando força. Essas soluções inovadoras unem impacto social, redução de custos e a urgência de manter os serviços funcionando em meio a um mercado cada vez mais exigente.
Detentos no mercado de trabalho: reintegração e eficiência

No Espírito Santo, sete redes supermercadistas já contratam detentos do regime semiaberto para diversas funções, incluindo carga e descarga, reposição de mercadorias, açougue e padaria. A Secretaria de Justiça (Sejus) aponta que 114 internos participam dessas atividades por meio de convênios com as empresas, em uma ação que une reintegração social e solução prática para o déficit de mão de obra.
O Grupo Coutinho, dono da rede Extrabom, afirma que a parceria tem ajudado especialmente nas unidades com maior dificuldade de contratação. Para a empresa, além do impacto social, o modelo reduz encargos e facilita a gestão de pessoal.
O vice-presidente da Fecomércio-ES, José Carlos Bergamin, destaca que esses internos são, em sua maioria, jovens, e que programas como os do Senac têm sido fundamentais na qualificação para suas funções. Segundo ele, essa mão de obra contribui de maneira significativa para manter o setor operando.
Qualificação e inclusão: pilares da ressocialização
O Programa de Ressocialização da Sejus vai além da simples ocupação: ele busca capacitar os detentos por meio de educação formal e cursos profissionalizantes. Atualmente, mais de 5.400 presos trabalham em diversas áreas dentro e fora dos presídios, com apoio de cerca de 300 instituições conveniadas.
Entre os parceiros está o Senac, com o programa Integra, voltado à formação de detentos e egressos. Segundo o diretor regional Richardson Schmittel, o foco é a qualificação para o emprego formal, com cursos gratuitos autorizados pelo governo do Estado. A iniciativa também atua junto ao Instituto de Atendimento Socioeducativo (Iases), incluindo jovens aprendizes em situação de vulnerabilidade.
Essa capacitação se torna um diferencial importante na hora da contratação, garantindo que os trabalhadores estejam aptos para contribuir desde o primeiro dia e reduzindo a necessidade de treinamentos longos e custosos.
Flexibilização das leis e novos públicos-alvo

A escassez de profissionais qualificados está levando entidades do setor supermercadista a pressionar o governo por mudanças na legislação trabalhista. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras), por exemplo, busca flexibilizar a CLT para permitir contratações por hora sem os encargos convencionais, atraindo tanto jovens quanto pessoas acima dos 60 anos.
Outra pauta importante é o debate sobre os modelos de escala. A substituição da jornada 6×1 pela 4×3 — defendida por movimentos como o Vida Além do Trabalho — preocupa o setor, que teme ainda mais dificuldade para formar equipes.
Ao mesmo tempo, novas frentes de recrutamento estão sendo abertas. A Abras lançará uma plataforma para conectar egressos do Exército a vagas nos supermercados. O objetivo é aproveitar o momento em que esses jovens deixam o serviço militar para inseri-los no mercado. A associação também quer ampliar a iniciativa para a Marinha e a Aeronáutica.
Oportunidades para refugiados e imigrantes
Diante da escassez de mão de obra nacional, muitos empresários começam a considerar a contratação de refugiados e imigrantes como uma alternativa viável e inspirada em modelos de países como os Estados Unidos e nações europeias.
José Henrique Neffa, empresário do setor, defende a ampliação dessas ações, lembrando que o Brasil também pode oferecer oportunidades dignas para essas populações. Com formação adequada e apoio das empresas, esse grupo pode preencher lacunas importantes nos setores operacionais do varejo.
Benefícios para as empresas e impacto social
Além da função social, a contratação de internos em regime semiaberto oferece benefícios econômicos para as empresas. Como a contratação é feita fora do regime da CLT, as empresas ficam isentas de encargos trabalhistas, como férias, 13º, FGTS e multa rescisória. Também há facilidade na substituição de pessoal e, no caso das oficinas de trabalho dentro das unidades prisionais, não há custos com água, luz ou aluguel.
As funções ocupadas pelos internos vão desde embalador até atendente de padaria e operador de atacarejo. Essas posições fazem parte justamente das dez com maior escassez de mão de obra no setor.
Um cenário em transformação
Com um mercado de trabalho em rápida transformação, empresas estão sendo obrigadas a reinventar suas formas de contratação. As soluções encontradas — muitas vezes fora dos padrões tradicionais — mostram que há caminhos para preencher as vagas e gerar impacto positivo ao mesmo tempo.
A contratação de internos, egressos militares, idosos e refugiados deixa claro que, diante da necessidade, a inovação social pode ser tão eficaz quanto qualquer investimento tecnológico.
[Fonte: Tribuna Online]