Pular para o conteúdo
Mundo

Escavações revelam horrores do passado na Irlanda, décadas após o fechamento de um abrigo que acolhia mulheres solteiras e seus filhos

Centenas de corpos infantis, enterrados de forma clandestina, colocam a Irlanda diante de um doloroso acerto de contas com sua própria história.
Por

Tempo de leitura: 2 minutos

Na pequena cidade de Tuam, no oeste da Irlanda, um terreno aparentemente comum se tornou palco de um dos episódios mais sombrios da história moderna do país. A exumação de quase 800 corpos de bebês e crianças expõe um passado de abusos institucionais envolvendo a Igreja Católica e o Estado. O caso, que choca o mundo, dá início a uma nova fase de reconhecimento e responsabilização histórica.

Exumações começam após anos de denúncias e silêncio

Escavações revelam horrores do passado na Irlanda, décadas após o fechamento de um abrigo que acolhia mulheres solteiras e seus filhos
© https://x.com/Educo_gratis/

Nesta segunda-feira (16), autoridades irlandesas iniciaram a exumação dos restos mortais de 796 bebês e crianças que morreram em um antigo lar administrado pela Igreja Católica. O abrigo Santa Maria do Bom Socorro, localizado em Tuam, funcionou até 1961 e acolhia mulheres grávidas solteiras, muitas delas enviadas compulsoriamente por suas famílias ou pelo Estado.

A iniciativa surge mais de uma década após a descoberta da existência das sepulturas informais, que ficaram escondidas sob o solo da instituição durante décadas. A ação representa um passo importante no enfrentamento do passado institucional da Irlanda, marcado por negligência, abusos e omissões.

O local ficou conhecido mundialmente após a historiadora Catherine Corless revelar, em 2014, que os corpos das crianças haviam sido enterrados em uma antiga fossa séptica, usada como cemitério improvisado. O trabalho de Corless resultou em investigações oficiais e em uma comissão nacional de inquérito.

Investigações revelam negligência e práticas brutais

As descobertas feitas por Corless e confirmadas por escavações entre 2016 e 2017 apontaram que crianças, desde recém-nascidos até nove anos, foram enterradas sem registro ou dignidade. Muitas delas morreram em consequência de negligência, doenças não tratadas ou desnutrição, segundo relatos da comissão formada para apurar os fatos.

O relatório oficial, publicado em 2021, revelou que cerca de 9 mil crianças morreram nos chamados Mother and Baby Homes, abrigos mantidos por ordens religiosas com apoio do governo. Esses locais recebiam mulheres grávidas não casadas, que eram afastadas de suas famílias, submetidas a isolamento e, muitas vezes, obrigadas a entregar os filhos para adoção, sem consentimento.

Estima-se que mais de 56 mil mulheres e 57 mil crianças passaram por 18 instituições desse tipo entre 1922 e 1988. A política de silenciamento e repressão de comportamentos considerados imorais criou um sistema cruel que destruiu milhares de vidas e deixou marcas profundas na sociedade irlandesa.

A exumação dos corpos em Tuam não é apenas um procedimento forense: trata-se de uma tentativa de trazer algum tipo de justiça e dignidade às vítimas esquecidas por décadas. Para muitas famílias, representa o início de um reconhecimento público da dor, da perda e da violência institucional que jamais deveria ter ocorrido.

[Fonte: O liberal]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados