A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma promessa tecnológica para se tornar um agente de transformação social. De acordo com o Imagining the Digital Future Center, da Elon University (EUA), a adoção massiva de sistemas de IA provocará alterações “profundas” ou até “revolucionárias” no comportamento e nas capacidades humanas até 2035.
O estudo, publicado em abril de 2025, reuniu 301 especialistas de diferentes disciplinas — de tecnologia e ética à sociologia, economia e educação — e revela tanto riscos alarmantes quanto oportunidades inéditas.
Um consenso sobre a magnitude da mudança

Segundo a pesquisa, 61% dos especialistas acreditam que a IA transformará de forma profunda ou fundamental as capacidades humanas nos próximos dez anos. Apenas 8% consideram que os efeitos serão pouco perceptíveis.
O relatório ressalta, porém, que a natureza dessas mudanças será ambivalente: haverá ganhos em áreas como aprendizado e criatividade, mas perdas em aspectos como empatia, pensamento crítico e identidade pessoal.
Habilidades humanas em risco
Entre as maiores preocupações estão a erosão de habilidades consideradas essenciais para a vida em sociedade:
- Empatia e inteligência emocional;
- Pensamento crítico e julgamento moral;
- Confiança nas próprias capacidades;
- Bem-estar mental e identidade individual.
Metade dos especialistas prevê que a IA reduzirá a disposição para refletir sobre conceitos complexos. Outros 48% temem uma queda na confiança pessoal, enquanto cerca de 50% apontam impactos negativos na empatia e na inteligência social.
As causas? A crescente dependência de sistemas automatizados, a fragmentação social, a sobrecarga de estímulos artificiais e o desuso de certas habilidades. Nell Watson, presidente da EURAIO e especialista em ética da IA, alerta: “A integração da IA transformará a experiência humana por meio de estímulos artificiais que podem eclipsar as relações autênticas.”
Oportunidades: aprendizado e criatividade
O relatório também destaca potenciais benefícios. 42% dos especialistas acreditam que a curiosidade e a capacidade de aprender serão estimuladas, e 40% veem melhorias na tomada de decisão e resolução de problemas.
Para Dave Edwards, cofundador do Artificiality Institute, a evolução de sistemas que antes eram apenas “ferramentas” para se tornarem “parceiros cognitivos” abre caminho para novas formas de colaboração humano-máquina. Isso pode ampliar o acesso ao conhecimento, personalizar a educação e liberar tempo para atividades criativas.
Um futuro dividido entre riscos e promessas

A comunidade acadêmica segue dividida. Metade dos especialistas considera que o saldo será “tanto positivo quanto negativo em igual medida”. Apenas 16% preveem um impacto majoritariamente positivo, enquanto 23% projetam um cenário predominantemente negativo.
Jerry Michalski, analista de tendências, resume a inquietação: “Se desdobrarão os limites entre realidade e ficção, entre inteligência humana e artificial, entre criações naturais e sintéticas.”
Principais riscos apontados
- Dependência excessiva da IA, com perda de virtudes humanas essenciais;
- Fragmentação social e manipulação de informações;
- Desigualdade digital, ampliando divisões entre quem tem ou não acesso à tecnologia;
- Crise de identidade, diante da multiplicação de identidades digitais artificiais.
Tracey Follows, consultora em futuros digitais, é categórica: “A autenticidade está em vias de extinção; a IA fragmentará o sentido de si mesmo.”
Caminhos para um uso ético
Diante desse cenário, o relatório defende regulação eficaz, desenvolvimento ético da tecnologia e alfabetização digital em larga escala. Para Esther Dyson, pioneira da internet, “o futuro depende de como usamos a IA e de como preparamos a próxima geração para utilizá-la.”
Amy Zalman, especialista em prospectiva estratégica, reforça: “É preciso ter coragem de inscrever valores humanos no código, na política e na regulação.”
Conclusão: preservar a essência humana
O estudo deixa em aberto uma questão central: a IA ajudará as pessoas a viver de forma mais significativa e criativa ou corroerá aquilo que nos torna humanos?
Enquanto alguns apostam na empatia planetária e na colaboração global, outros alertam para a atrofia de habilidades fundamentais. O que parece certo é que, até 2035, a inteligência artificial não será apenas uma ferramenta: será um espelho que refletirá nossas escolhas éticas, sociais e políticas.
[ Fonte: Infobae ]