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Ciência

Estes esquilos conseguem passar até oito meses sem beber água, e o segredo está no cérebro

Pequenos roedores sobrevivem a longos períodos sem beber, mesmo apresentando sinais de desidratação. Pesquisadores descobriram uma adaptação surpreendente que desafia o funcionamento habitual da sede.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Para os seres humanos, passar muito tempo sem água pode provocar consequências graves. Entretanto, alguns animais desenvolveram estratégias extraordinárias para enfrentar períodos prolongados de frio e escassez de recursos. Entre eles estão pequenos esquilos que conseguem atravessar praticamente todo o inverno sem beber. O mais intrigante é que seus organismos continuam apresentando sinais de necessidade de líquidos, mas algo impede que essa informação se transforme na vontade de procurar água.

Como esses esquilos sobrevivem até oito meses sem beber água?

Os protagonistas dessa descoberta são os esquilos-terrestres-de-treze-listras, conhecidos cientificamente como Ictidomys tridecemlineatus.

Esses pequenos roedores habitam regiões da América do Norte e passam boa parte do ano em hibernação.

Durante esse período, que pode durar entre seis e oito meses, eles não precisam sair regularmente de seus abrigos para procurar alimento ou água.

A explicação começa com uma transformação radical do metabolismo.

A temperatura corporal, normalmente próxima de 37 °C, pode cair para aproximadamente 2 °C a 4 °C.

A frequência cardíaca também diminui drasticamente, passando de centenas de batimentos por minuto para apenas alguns durante os períodos mais profundos de torpor.

Essas mudanças reduzem o consumo de energia e ajudam o organismo a atravessar meses de condições ambientais desfavoráveis.

Entretanto, existe um detalhe especialmente curioso.

Os esquilos não permanecem completamente adormecidos durante toda a hibernação.

A cada duas ou três semanas, eles passam por episódios temporários de despertar, recuperando a temperatura corporal e parte de suas funções habituais.

Esses intervalos podem durar entre 24 e 48 horas.

Mesmo assim, os animais não demonstram interesse em beber água.

Cientistas descobriram por que o cérebro deixa de produzir a sensação de sede

Para compreender esse comportamento, pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos, investigaram os mecanismos cerebrais responsáveis pela regulação da sede.

O estudo, publicado na revista científica Science em novembro de 2024, revelou uma alteração importante na atividade de determinadas células nervosas.

Normalmente, quando um mamífero perde líquidos, seu organismo envia sinais químicos ao cérebro.

Essas informações são processadas por regiões especializadas, que desencadeiam a sensação de sede e estimulam a busca por água.

Nos esquilos hibernantes, entretanto, esse mecanismo funciona de maneira diferente.

Os pesquisadores identificaram uma redução na atividade de neurônios localizados nos chamados órgãos circunventriculares, estruturas envolvidas no monitoramento do equilíbrio de líquidos corporais.

Isso significa que, mesmo quando o organismo apresenta sinais associados à desidratação, a resposta cerebral responsável por estimular a ingestão de água fica enfraquecida.

A sede não desaparece porque o corpo deixa de precisar de líquidos, mas porque o cérebro modifica temporariamente a maneira como reage a essa necessidade.

O organismo detecta a falta de água, mas os esquilos não procuram beber

Uma das descobertas mais surpreendentes foi que os animais apresentavam alterações hormonais normalmente associadas à conservação de líquidos.

Entre elas estavam níveis elevados de angiotensina II e aldosterona, substâncias que participam da regulação da pressão arterial e do equilíbrio de água e sais.

Em condições habituais, esses sinais contribuiriam para estimular mecanismos relacionados à sede.

Entretanto, os esquilos não apresentavam o comportamento esperado de procurar água.

Os pesquisadores também observaram adaptações no equilíbrio das substâncias dissolvidas nos fluidos corporais, ajudando a compreender como esses animais administram suas reservas hídricas.

Essa estratégia pode representar uma importante vantagem evolutiva.

Durante o inverno, abandonar um abrigo subterrâneo para procurar água significaria enfrentar temperaturas extremas, escassez de recursos e possíveis predadores.

Ao reduzir o impulso de beber, os esquilos conseguem permanecer protegidos durante os meses mais difíceis.

A descoberta pode ajudar a compreender melhor o organismo humano

Embora o estudo tenha sido realizado com esquilos, seus resultados despertam interesse para a medicina.

A sede é um mecanismo fundamental para a sobrevivência humana, e compreender como o cérebro regula essa sensação pode ampliar o conhecimento sobre o equilíbrio de líquidos no organismo.

Os pesquisadores acreditam que investigar essas adaptações naturais poderá contribuir para estudos futuros sobre a fisiologia e o funcionamento do sistema nervoso.

Entretanto, não existe atualmente uma aplicação médica direta capaz de reproduzir esse mecanismo em seres humanos.

Também seria incorreto interpretar a descoberta como evidência de que pessoas poderiam aprender a permanecer longos períodos sem beber água.

Os esquilos possuem adaptações fisiológicas específicas, desenvolvidas ao longo de sua evolução.

O segredo desses animais vai muito além de resistir ao frio

A descoberta demonstra que a hibernação envolve muito mais do que simplesmente reduzir a temperatura corporal e economizar energia.

Os esquilos modificam temporariamente mecanismos fundamentais de regulação do organismo, incluindo a maneira como o cérebro interpreta sinais relacionados à sede.

O segredo está na combinação entre economia metabólica, conservação de líquidos e redução da resposta cerebral que normalmente provoca a vontade de beber.

Esse conjunto de adaptações permite que pequenos animais sobrevivam durante meses em condições que seriam extremamente perigosas para outros mamíferos.

E mostra como a natureza ainda guarda soluções biológicas que a ciência está apenas começando a compreender.

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