Os Estados Unidos deram sinal verde para um dos projetos espaciais mais controversos dos últimos anos. A Comissão Federal de Comunicações (FCC) autorizou a startup Reflect Orbital a construir, lançar e operar o Eärendil-1, um satélite experimental equipado com um enorme espelho projetado para refletir a luz solar sobre áreas da Terra durante a noite.
A proposta busca demonstrar que é possível direcionar a luz do Sol para pontos específicos do planeta, ampliando o tempo de iluminação natural sem recorrer a fontes artificiais de energia. Embora a empresa destaque possíveis benefícios para geração de energia, operações de emergência e infraestrutura, astrônomos e ambientalistas alertam que a tecnologia pode transformar permanentemente o céu noturno.
Como funciona o satélite espelho
O Eärendil-1 será colocado em órbita baixa da Terra, a aproximadamente 625 quilômetros de altitude.
O satélite utilizará um refletor ultrafino com cerca de 18 metros de diâmetro para redirecionar a luz solar a regiões específicas da superfície terrestre. Segundo a Reflect Orbital, cada feixe poderá iluminar áreas com aproximadamente cinco a seis quilômetros de diâmetro durante curtos períodos.
O nome da missão faz referência a Eärendil, personagem criado por J. R. R. Tolkien e presente no universo de O Senhor dos Anéis.
O principal objetivo da missão é testar a eficiência do material refletivo e verificar se a tecnologia pode ser utilizada de forma controlada.
We're grateful to the @FCC for granting our application to fly our test mission!
This ruling is hugely validating for our company and reflects America's leadership in testing innovative space technology.
We're excited to validate the guardrails we have built into our technology… pic.twitter.com/6CldTDfDHh
— Reflect Orbital (@reflectorbital) July 10, 2026
Empresa aposta em aplicações comerciais e de emergência
A Reflect Orbital afirma que a tecnologia poderá ser utilizada em diversas situações.
Entre as aplicações previstas estão o apoio a operações de busca e resgate, iluminação temporária durante desastres naturais, suporte a infraestruturas críticas em emergências, obras em regiões remotas e até a ampliação das horas de funcionamento de usinas solares, permitindo maior geração de energia mesmo após o pôr do sol.
Segundo a empresa, o lançamento do Eärendil-1 deverá ocorrer antes do fim deste ano.
Projeto prevê milhares de satélites no futuro
O satélite autorizado representa apenas a primeira etapa de um plano muito mais ambicioso.
A Reflect Orbital pretende colocar até 50 mil satélites semelhantes em operação até 2035. Caso a tecnologia funcione como esperado e obtenha novas autorizações regulatórias, ela poderá dar origem a um novo setor da indústria espacial.
Essa possibilidade preocupa parte da comunidade científica.
Tony Tyson, pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis e cientista-chefe do Observatório Vera C. Rubin, questiona se será realmente possível controlar os reflexos com a precisão prometida pela empresa.
Astrônomos alertam para riscos ao céu noturno
Durante o processo de consulta pública, a FCC recebeu cerca de dois mil comentários contrários ao projeto.
Entre os principais críticos estão a American Astronomical Society, a DarkSky International, a Royal Astronomical Society e o Observatório Europeu do Sul.
Essas instituições afirmam que os observatórios terrestres já enfrentam dificuldades causadas pelas milhares de espaçonaves que orbitam o planeta. Satélites capazes de refletir intensamente a luz solar poderiam aumentar significativamente a poluição luminosa e prejudicar observações astronômicas.
Representantes do ESO chegaram a classificar esse tipo de tecnologia como uma “ameaça existencial” para a astronomia óptica.
Além disso, pesquisadores alertam para possíveis reflexos capazes de afetar pilotos de aeronaves, motoristas e espécies animais que dependem dos ciclos naturais de luz e escuridão.
FCC afirma que autorização vale apenas para um teste
Apesar das críticas, a FCC concluiu que a autorização concedida diz respeito exclusivamente a um satélite experimental.
Segundo o órgão regulador, a missão possui alcance limitado e servirá apenas para avaliar a viabilidade técnica do conceito e identificar possíveis desafios antes de qualquer expansão futura.
A agência também destacou que qualquer constelação comercial exigirá novos processos de licenciamento e análises regulatórias independentes.
Em relação às críticas da comunidade astronômica, a FCC afirmou que os possíveis impactos sobre observatórios não fazem parte dos critérios considerados para autorizar a missão.
Enquanto isso, a Reflect Orbital declarou que pretende trabalhar em conjunto com cientistas e comunidades potencialmente afetadas. A empresa afirma que a expansão do projeto dependerá da demonstração de que a luz refletida pode ser controlada com precisão, utilizada apenas quando necessário e adaptada caso as evidências científicas indiquem riscos superiores aos benefícios.
[ Fonte: Wired ]