Durante mais de uma década, o país investiu bilhões para acelerar sua transição energética e se tornou referência mundial em energia solar e eólica. Os resultados pareciam indicar um caminho sem volta rumo a uma matriz mais limpa. Porém, nos primeiros meses de 2026, os números mostraram uma mudança inesperada. Em vez de continuar reduzindo o uso do carvão, a geração de eletricidade a partir de combustíveis fósseis voltou a crescer, levantando dúvidas sobre o ritmo da transição energética global.
Quatro acontecimentos ocorreram ao mesmo tempo e mudaram o cenário
O crescimento do uso de carvão não aconteceu por falta de investimentos em energia renovável. Pelo contrário. A China continua sendo o país com a maior capacidade instalada de energia solar e eólica do planeta e, ainda em 2024, alcançou antecipadamente a meta de instalar 1.200 gigawatts dessas fontes prevista para 2030.
Em 2025, o carvão respondeu por pouco mais da metade da geração elétrica do país, o menor percentual registrado em décadas. Tudo indicava que essa participação continuaria diminuindo.
Mas entre janeiro e maio de 2026 ocorreu uma reviravolta.
Segundo dados oficiais da Oficina Nacional de Estatísticas da China, a geração de eletricidade por carvão e gás aumentou 3,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, chegando a cerca de 2,53 trilhões de kWh.
Especialistas apontam que esse aumento foi provocado pela coincidência de quatro fatores que afetaram o sistema elétrico quase simultaneamente.
O primeiro deles foi uma forte redução na produção das hidrelétricas do sudoeste chinês. O fenômeno El Niño alterou o regime de chuvas nas províncias onde estão algumas das maiores usinas hidrelétricas do país, como Sichuan, Yunnan e Guizhou.
Com menos água nos reservatórios, a geração hidrelétrica caiu significativamente.
Sempre que isso acontece, outras fontes precisam suprir a demanda. Na China, essa função costuma ser desempenhada pelas usinas termelétricas movidas a carvão.
Ao mesmo tempo, outro fenômeno climático agravou ainda mais a situação.
De acordo com o Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo (CREA), os primeiros meses de 2026 registraram os ventos mais fracos em aproximadamente dez anos. Como as turbinas eólicas dependem diretamente da intensidade dos ventos, a produção desse tipo de energia também caiu.
Em um país que possui o maior parque eólico do mundo, qualquer redução significativa na velocidade dos ventos produz um impacto imediato sobre toda a matriz elétrica.
O problema não foi apenas climático e pode durar mais tempo
Além das condições meteorológicas desfavoráveis, fatores geopolíticos também contribuíram para o aumento do consumo de combustíveis fósseis.
As tensões no Oriente Médio afetaram o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o transporte de gás natural liquefeito (GNL). Como consequência, o combustível ficou mais caro e seu fornecimento tornou-se mais difícil.
Diante desse cenário, a China passou a recorrer com maior intensidade aos contratos de fornecimento de carvão, incluindo importações da Rússia e o uso de suas próprias reservas minerais.
Entretanto, diversos analistas consideram que o fator mais importante é outro.
Após a crise energética enfrentada em 2022, o governo chinês autorizou a construção de um grande número de novas usinas a carvão. Muitas dessas instalações começaram a operar entre 2024 e 2025.
O detalhe é que essas usinas funcionam com contratos de fornecimento de longo prazo que garantem uma utilização mínima, independentemente da quantidade de energia renovável disponível.
Na prática, isso significa que parte dessas termelétricas continua produzindo eletricidade mesmo quando a geração solar e eólica seria suficiente para atender à demanda.
Essa característica cria uma concorrência direta entre fontes limpas e combustíveis fósseis dentro do próprio sistema elétrico.
Especialistas afirmam que boa parte do aumento observado em 2026 provavelmente tem caráter temporário, já que fatores como a seca, os ventos fracos e as dificuldades no mercado internacional de gás tendem a diminuir com o tempo.
Mesmo assim, a existência de centenas de novas usinas com contratos garantidos representa um desafio importante para a estratégia chinesa de reduzir suas emissões de carbono.
A China mantém o compromisso de atingir o pico de emissões antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2060. No entanto, o aumento temporário do uso do carvão mostra que a transição energética pode enfrentar obstáculos inesperados, mesmo no país que mais investe em energias renováveis. E é justamente essa combinação entre clima, geopolítica e decisões tomadas anos atrás que responde ao motivo de o carvão ter voltado a ganhar espaço em tão pouco tempo.