O Ártico está aquecendo em um ritmo muito mais acelerado do que o restante do planeta. Enquanto a temperatura média global continua subindo, a região do Polo Norte já aquece cerca de quatro vezes mais rápido, fazendo com que o gelo marinho atinja níveis mínimos históricos.
Diante desse cenário, pesquisadores decidiram testar uma ideia que parece simples, mas pode representar uma nova estratégia para enfrentar a crise climática: produzir mais gelo artificialmente durante o inverno para compensar parte das perdas causadas pelo aquecimento global.
Os primeiros resultados mostram que a técnica funciona em pequena escala. Agora, o desafio é descobrir se ela pode ser aplicada em áreas muito maiores.
Como funciona a ideia de engrossar o gelo marinho

O projeto é liderado pela empresa Real Ice em parceria com a Universidade de Cambridge.
A estratégia consiste em perfurar o gelo marinho durante o inverno e bombear água do oceano para a superfície congelada. Como as temperaturas chegam a cerca de -40 °C, essa água congela rapidamente, formando uma nova camada de gelo sobre a existente.
Para tornar o processo viável em larga escala, a equipe trabalha na adaptação de bombas utilizadas em pistas de patinação e plataformas de petróleo, que futuramente poderão operar com energia renovável.
Segundo informações publicadas pelo jornal britânico The Guardian, um dos testes bombeou aproximadamente 50 mil toneladas de água sobre uma camada de gelo com 1,5 metro de espessura. Ao final do experimento, o gelo havia aumentado cerca de 50 centímetros.
O Ártico exerce um papel fundamental no clima da Terra
Os pesquisadores ressaltam que reduzir as emissões de gases de efeito estufa continua sendo a única solução definitiva para conter as mudanças climáticas.
Mesmo assim, técnicas temporárias como essa poderiam ajudar a ganhar tempo enquanto a transição energética avança.
O motivo é que o gelo marinho funciona como um enorme refletor natural da luz solar. Sua superfície branca devolve parte da radiação para o espaço, enquanto o oceano escuro absorve muito mais calor.
Esse mecanismo, conhecido como efeito albedo, ajuda a regular a temperatura do planeta.
Quando o gelo desaparece, mais calor é absorvido pelos oceanos, acelerando ainda mais o aquecimento do Ártico e contribuindo para alterações na circulação atmosférica, ondas de calor, chuvas intensas e outros eventos climáticos extremos.
Além disso, o derretimento do gelo favorece o descongelamento do permafrost, solo permanentemente congelado que armazena grandes quantidades de metano. A liberação desse gás intensifica ainda mais o aquecimento global.
Os primeiros testes apresentaram resultados promissores

O experimento faz parte do programa RASI (Re-thickening Arctic Sea Ice), iniciativa que reúne a Universidade de Cambridge e as empresas Real Ice e Arctic Reflections para desenvolver soluções capazes de reduzir a perda de gelo no Ártico.
Durante a campanha realizada entre 2024 e 2025, os pesquisadores compararam áreas onde a técnica foi aplicada com regiões vizinhas que permaneceram intactas.
Ao final do inverno, as áreas tratadas apresentavam até 32 centímetros a mais de espessura em relação às zonas de controle.
Segundo os responsáveis pelo projeto, essa diferença equivale aproximadamente à quantidade de gelo que o Ártico perdeu ao longo dos últimos 50 anos.
Outro resultado chamou atenção da equipe: durante o início do verão, o gelo recém-formado permaneceu mais branco e refletiu melhor a luz solar, retardando parcialmente o processo de derretimento.
Ainda existem muitas dúvidas sobre a viabilidade
Apesar dos resultados iniciais, a comunidade científica recomenda cautela.
Uma análise publicada na revista Frontiers in Science avaliou diversas propostas de geoengenharia para preservar o gelo do Ártico e concluiu que muitas delas ainda não demonstram viabilidade suficiente quando considerados fatores como custo, escala de implementação, governança internacional e possíveis impactos ambientais.
Outro ponto de preocupação é que soluções desse tipo possam transmitir a falsa impressão de que existe uma alternativa tecnológica capaz de substituir a redução das emissões de carbono.
Também permanece a dúvida sobre a viabilidade econômica de expandir a técnica para uma área tão vasta quanto o Oceano Ártico.
Por enquanto, os pesquisadores enxergam o método como uma ferramenta complementar. Caso estudos futuros confirmem sua eficácia e segurança, ele poderá ajudar a desacelerar o derretimento do gelo enquanto o mundo busca reduzir as emissões responsáveis pelo aquecimento global.
[ Fonte: Xataka ]