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Ciência

Evidências encontradas no Marrocos podem reescrever parte da história da Terra

Uma descoberta inesperada em antigas rochas mudou a forma como pesquisadores enxergam os primeiros ecossistemas do planeta e sugere que sinais de vida podem estar escondidos onde ninguém imaginava procurar.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, cientistas acreditaram que determinados vestígios deixados por microrganismos só poderiam surgir em ambientes iluminados pelo Sol. Mas uma expedição a uma região montanhosa do norte da África encontrou evidências que colocam essa ideia em xeque. As marcas preservadas em rochas formadas há cerca de 180 milhões de anos podem obrigar pesquisadores a repensar onde procurar os registros mais antigos da vida na Terra.

Um detalhe nas rochas chamou a atenção dos pesquisadores

A descoberta aconteceu durante uma expedição científica ao Marrocos, onde especialistas investigavam antigos recifes marinhos que existiram quando grande parte da região ainda estava coberta por um oceano.

Para alcançar essas formações, a equipe precisou atravessar extensas camadas de rochas conhecidas como turbiditos. Esses depósitos são produzidos por enormes avalanches submarinas de lama, areia e sedimentos que descem pelas encostas do fundo oceânico antes de se acumularem em grandes camadas.

Marcas onduladas costumam aparecer nesse tipo de formação geológica. No entanto, algo diferente chamou a atenção da paleoecóloga e geobióloga Alycia Martindale. Sobre as ondulações havia pequenas rugosidades que lembravam estruturas já conhecidas pelos cientistas, mas que simplesmente não deveriam estar naquele ambiente.

Essas formações, chamadas de estruturas enrugadas, normalmente surgem quando comunidades de microrganismos formam verdadeiros tapetes biológicos sobre sedimentos arenosos. Ao crescerem, esses organismos deixam pequenas elevações e depressões na superfície, criando padrões característicos que podem permanecer preservados por milhões de anos.

Esses registros são extremamente importantes porque funcionam como uma espécie de impressão digital da vida microscópica do passado. O problema é que, desde a explosão da diversidade animal há mais de 540 milhões de anos, esses delicados sinais passaram a ser destruídos por organismos que escavavam constantemente o fundo do mar.

Por isso, encontrar estruturas desse tipo em rochas relativamente jovens já seria raro. Encontrá-las em sedimentos depositados em águas profundas parecia praticamente impossível.

Um ambiente onde a luz do Sol nunca chegava

Evidências encontradas no Marrocos podem reescrever parte da história da Terra
© unsplash

Os pesquisadores confirmaram que aquelas rochas haviam se formado a pelo menos 180 metros de profundidade, uma faixa do oceano onde a luz solar praticamente não penetra.

Essa constatação criou um enorme dilema científico. Se não havia luz suficiente para sustentar organismos fotossintetizantes, responsáveis pela maioria das estruturas semelhantes encontradas até hoje, quem teria produzido aquelas marcas?

A equipe iniciou então uma investigação detalhada para eliminar qualquer possibilidade de erro. Primeiro, confirmou que os sedimentos realmente pertenciam a antigos depósitos de correntes submarinas profundas. Depois, analisou sua composição química em busca de sinais compatíveis com atividade biológica.

Os resultados revelaram concentrações elevadas de carbono logo abaixo das estruturas preservadas. Esse enriquecimento costuma indicar a presença de matéria orgânica produzida por organismos vivos e reforçou a hipótese de que microrganismos realmente estiveram ali.

A busca por respostas levou os pesquisadores também aos oceanos atuais. Imagens obtidas por veículos submarinos mostraram que tapetes microbianos continuam existindo em regiões completamente escuras do fundo do mar.

A diferença é que esses organismos não dependem da luz solar.

Micróbios que vivem de reações químicas podem explicar o mistério

Em vez de realizar fotossíntese, esses microrganismos obtêm energia por meio da quimiossíntese. Nesse processo, compostos químicos presentes no ambiente, como sulfeto de hidrogênio e metano, substituem a luz do Sol como fonte de energia.

Combinando as evidências geológicas, químicas e as observações feitas nos oceanos modernos, os cientistas concluíram que as estruturas encontradas no Marrocos provavelmente foram produzidas por comunidades de bactérias quimiossintéticas.

Segundo a hipótese apresentada, as correntes submarinas transportavam grande quantidade de matéria orgânica para o fundo oceânico. Durante sua decomposição, o oxigênio disponível diminuía, criando condições ideais para que esses microrganismos colonizassem rapidamente a superfície do sedimento.

Nos intervalos entre uma avalanche submarina e outra, os tapetes bacterianos se expandiam lentamente, formando as rugas observadas nas rochas. Em alguns momentos, novas camadas de sedimentos cobriam essas colônias antes que fossem destruídas, permitindo sua preservação por aproximadamente 180 milhões de anos.

A descoberta pode ter consequências importantes para a geologia e para o estudo da evolução da vida. Até agora, muitos ambientes de águas profundas eram considerados pouco promissores para a busca desse tipo de evidência. O novo estudo indica que esses locais talvez escondam registros preciosos da história microbiana do planeta.

Se essa interpretação estiver correta, cientistas poderão revisar antigas formações geológicas que antes eram ignoradas, ampliando significativamente as possibilidades de encontrar novos vestígios dos primeiros ecossistemas terrestres. Em vez de olhar apenas para ambientes rasos e iluminados, a ciência pode passar a explorar também as profundezas escuras dos antigos oceanos em busca de capítulos ainda desconhecidos da evolução da vida.

[Fonte: ScienceDaily]

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