Mudança Polêmica no Comando da OSHA
Em meio a esforços do novo governo Trump para reformular agências federais sob o discurso de “eficiência burocrática”, uma nomeação em particular chamou atenção e gerou críticas. David Keeling, ex-diretor de segurança global de transporte rodoviário da Amazon, foi escolhido para liderar a Occupational Safety and Health Administration (OSHA), agência responsável por zelar pela saúde e segurança dos trabalhadores nos EUA.
A Amazon, conhecida por sua postura dura em relação a sindicatos e seu histórico de violações de segurança, tem se envolvido repetidamente em disputas com a própria OSHA. Em 2022 e 2023, a agência multou a empresa por infrações em diversos centros de distribuição. Em fevereiro do ano passado, o então secretário-assistente da OSHA, Doug Parker, alertou que os métodos operacionais da Amazon criavam condições perigosas, resultando em lesões graves entre os trabalhadores.
Conflito de Interesses ou Experiência Relevante?
A trajetória de Keeling na Amazon e, antes disso, na UPS, gera questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses. Na UPS, onde trabalhou de 2011 a 2021 em cargos de segurança e saúde, a empresa também foi autuada por violações de segurança trabalhista.
Em sua rede social LinkedIn, Keeling agradeceu a Trump pela indicação e afirmou estar honrado com a oportunidade de liderar a OSHA. Ele destacou seu desejo de colaborar com a secretária do Trabalho, Lori Chavez-DeRemer, e o vice-secretário Keith Sonderling para fortalecer a segurança ocupacional no país.
Pressão Corporativa e Desafios à Regulamentação
A indicação ocorre em um contexto tenso entre grandes corporações e agências de fiscalização. Amazon e SpaceX, por exemplo, entraram com ações judiciais contra o National Labor Review Board (NLRB), que defende os direitos trabalhistas nos EUA, alegando que o órgão seria inconstitucional. Caso Keeling seja confirmado, a Amazon terá um ex-alto executivo ocupando o cargo de maior autoridade justamente na agência que investiga suas práticas de segurança.
Além disso, Keith Sonderling, vice-secretário do Trabalho, ganhou notoriedade ao emitir diretrizes durante o primeiro governo Trump afirmando que motoristas de aplicativos, como Uber e Lyft, deveriam ser tratados como contratados autônomos, e não como funcionários. Essa decisão foi amplamente vista como uma vitória para as gigantes da economia gig, mas criticada por organizações trabalhistas.
Futuro Incerto para a Segurança dos Trabalhadores
Sindicatos e grupos de defesa dos direitos trabalhistas temem que a nomeação de Keeling resulte em um enfraquecimento da fiscalização e na flexibilização de normas de segurança. A proximidade entre grandes corporações e os órgãos que deveriam fiscalizá-las gera preocupações sobre a independência e imparcialidade das investigações futuras.
Especialistas alertam que a missão da OSHA pode ser comprometida se houver favorecimento a grandes empregadores em detrimento da proteção dos trabalhadores. Empresas como Amazon têm sido alvo constante de denúncias por impor metas rigorosas que levam ao esgotamento físico e a acidentes recorrentes entre seus funcionários.
Por outro lado, aliados do governo Trump argumentam que a experiência de Keeling em cargos executivos nas áreas de segurança e transporte em grandes corporações pode trazer uma perspectiva prática e contribuir para modernizar as operações da agência.
Próximos Passos
A indicação de Keeling ainda precisa ser confirmada pelo Senado, e o processo promete ser marcado por intensos debates. Sindicatos e entidades de defesa dos trabalhadores já se mobilizam para questionar sua adequação ao cargo, enquanto setores empresariais acompanham de perto, vendo na possível nomeação uma oportunidade para flexibilizar regras consideradas excessivamente rígidas.
Nos próximos meses, o resultado dessa disputa poderá definir os rumos da fiscalização trabalhista nos Estados Unidos e influenciar as relações entre trabalhadores e grandes corporações nos próximos anos.