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Ciência

Existe algo no Brasil que faz o Hubble desligar seus instrumentos todos os dias

Todos os dias, o telescópio Hubble deixa de observar o Universo por horas seguidas. O motivo não está no espaço profundo, mas em uma região específica da Terra que desafia até a física do campo magnético.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em limites para a exploração espacial, imaginamos falhas técnicas, colisões com detritos ou mistérios cósmicos ainda não resolvidos. Mas, no caso do telescópio Hubble, um dos obstáculos mais persistentes vem do próprio planeta que ele orbita. Há uma área da Terra que obriga o observatório a desligar instrumentos, interromper medições e simplesmente “esperar passar”. E essa região está muito mais próxima de nós do que parece.

Um apagão que se repete todos os dias

O Hubble percorre a órbita terrestre em ritmo acelerado. A cada 97 minutos, ele completa uma volta inteira ao redor do planeta, o que resulta em cerca de 15 órbitas por dia. Esse movimento constante é essencial para observar diferentes regiões do céu e aproveitar ao máximo seu tempo de operação.

O problema surge no caminho. Em boa parte dessas voltas — normalmente entre sete e nove por dia — o telescópio cruza uma região específica do planeta onde as condições se tornam hostis para seus instrumentos científicos. Nessas passagens, sistemas automáticos entram em ação e executam um protocolo rígido de segurança.

Câmeras, sensores e detectores de alta sensibilidade têm sua voltagem desligada. O Hubble continua voando, mas sem “enxergar”. Cada travessia dura, em média, de 20 a 25 minutos. Somados ao longo do dia, esses intervalos representam cerca de três horas em que o telescópio simplesmente não pode trabalhar.

Na prática, isso significa que aproximadamente 15% do tempo diário do Hubble é reservado não para observar estrelas ou galáxias distantes, mas para atravessar essa zona problemática sem sofrer danos.

O que existe nessa região do planeta

Existe algo no Brasil que faz o Hubble desligar seus instrumentos todos os dias
© https://x.com/Mhhhm_OK/

A causa desse desligamento recorrente está em uma peculiaridade do campo magnético da Terra conhecida como Anomalia do Atlântico Sul. Trata-se de uma área onde o escudo magnético do planeta é significativamente mais fraco, permitindo que partículas altamente energéticas vindas do espaço cheguem a altitudes mais baixas do que o normal.

Para satélites em órbita baixa, como o Hubble, isso representa um risco real. Prótons de alta energia e outras partículas carregadas atravessam com facilidade essa “brecha” magnética e atingem diretamente os instrumentos eletrônicos.

Essa anomalia não é pequena nem pontual. Ela se estende por uma vasta área da América do Sul e do Atlântico Sul, com seu centro localizado sobre o território brasileiro. É por isso que, sempre que o telescópio passa por essa região, os sistemas de segurança entram em ação.

Por que desligar é a única opção segura

Manter os instrumentos ligados durante essas travessias não é uma alternativa viável. Os riscos são imediatos e de dois tipos principais.

O primeiro é científico. A radiação intensa interfere diretamente nos detectores, gerando um ruído extremo nas imagens. O resultado seriam fotografias cheias de pontos brancos e distorções, tornando os dados praticamente inúteis para qualquer análise astronômica séria.

O segundo risco é ainda mais grave. A sobrecarga provocada pelas partículas energéticas pode causar danos permanentes aos componentes eletrônicos. Em um equipamento que custou bilhões de dólares e opera há décadas no limite da tecnologia, uma falha desse tipo pode significar o fim de um instrumento inteiro.

Por isso, os manuais de operação adotam uma política de tolerância zero. Ao menor sinal de entrada na região afetada, os sistemas mais sensíveis são automaticamente desligados.

Instrumentos ainda mais cautelosos

Nem todos os equipamentos do Hubble têm o mesmo nível de resistência. Alguns são particularmente vulneráveis à radiação e operam sob regras ainda mais rígidas.

É o caso de certos espectrógrafos, que não podem ser ativados nem mesmo quando a órbita apenas se aproxima da borda da anomalia. Para esses instrumentos, “raspar” a região já é considerado arriscado demais.

Enquanto isso, o telescópio segue seu caminho em silêncio, atravessando o céu sobre a América do Sul sem coletar dados, aguardando alcançar áreas mais seguras — geralmente sobre o Oceano Atlântico ou o continente africano — para retomar suas observações.

Por que o James Webb não enfrenta esse problema

A existência dessa limitação ajuda a explicar uma diferença fundamental entre gerações de telescópios espaciais. O Hubble opera em órbita baixa da Terra, o que o expõe diretamente tanto à anomalia quanto aos cinturões de radiação do planeta.

Já o telescópio James Webb foi posicionado muito mais longe, em um ponto gravitacional estável conhecido como L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra. Nessa região, ele está fora do alcance tanto da Anomalia do Atlântico Sul quanto dos cinturões de Van Allen.

Isso permite que o Webb opere sem interrupções desse tipo, reforçando como a escolha da órbita é tão crucial quanto a tecnologia embarcada quando se trata de observar o Universo.

[Fonte: Olhar Digital]

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