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Ciência

A NASA encontrou algo nunca visto na Via Láctea: uma bolha gigante de raios gama nascida de um superaglomerado de estrelas jovens

Observações inéditas do telescópio espacial Fermi revelaram uma enorme bolha de partículas de altíssima energia se expandindo a partir de Westerlund 1. O fenômeno ajuda a explicar como grandes aglomerados estelares moldam a evolução da nossa galáxia ao longo de milhões de anos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Astrônomos da NASA identificaram, pela primeira vez, uma vasta emanação de gás energético saindo de um superaglomerado de estrelas jovens dentro da Via Láctea. O fenômeno aparece como uma gigantesca bolha de raios gama — a forma mais energética de luz conhecida — e foi detectado graças a quase duas décadas de dados do Telescópio Espacial Fermi.

A estrutura foi associada ao superaglomerado estelar Westerlund 1, localizado a cerca de 12 mil anos-luz da Terra, na constelação de Ara. Trata-se do aglomerado mais massivo, luminoso e próximo já identificado na nossa galáxia — um verdadeiro laboratório natural para estudar como estrelas gigantes influenciam o ambiente galáctico.

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Westerlund 1 permanece quase invisível aos telescópios ópticos, encoberto por densas nuvens de poeira interestelar. Ainda assim, ele abriga dezenas de estrelas massivas raras, além de remanescentes de supernovas e ventos estelares intensos. Juntas, essas forças criam condições extremas, capazes de acelerar partículas a velocidades próximas à da luz.

Essas partículas — conhecidas como raios cósmicos — são, em sua maioria, prótons altamente energéticos. Por terem carga elétrica, elas são desviadas pelos campos magnéticos da galáxia, o que torna quase impossível rastrear sua origem direta. É aí que entram os raios gama: eles surgem quando os raios cósmicos colidem com o gás ao redor e, por viajarem em linha reta, funcionam como pistas precisas da atividade energética.

A bolha de raios gama e o papel do Fermi

O estudo, publicado na revista Nature Communications, foi liderado por Marianne Lemoine-Goumard, da Universidade de Bordeaux, em parceria com pesquisadores do Instituto Max Planck de Física Nuclear. A equipe analisou dados acumulados pelo Fermi ao longo de quase 20 anos, filtrando cuidadosamente outras fontes de raios gama, como pulsares e radiação de fundo.

O resultado foi a revelação de uma bolha colossal de raios gama que se estende por mais de 650 anos-luz a partir de Westerlund 1 — cerca de 200 vezes o tamanho do próprio aglomerado. A estrutura se projeta para fora do plano galáctico, em direção a uma região de menor densidade, formando o que os cientistas descrevem como um fluxo de saída ainda jovem, em estágio inicial.

O que isso revela sobre a evolução da galáxia

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© Pexels

Segundo Lemoine-Goumard, compreender essas emanações é fundamental para decifrar o futuro da Via Láctea. Os raios cósmicos transportam uma fração significativa da energia liberada dentro dos aglomerados estelares e podem ajudar a impulsionar ventos galácticos, regular a formação de novas estrelas e redistribuir elementos químicos ao longo da galáxia.

Observações anteriores já indicavam algo incomum em Westerlund 1. Em 2022, um observatório terrestre na Namíbia havia detectado um anel de raios gama com energias trilhões de vezes superiores à da luz visível. O Fermi, sensível a energias um pouco mais baixas, permitiu agora enxergar o quadro completo e revelar a bolha em expansão.

Próximos passos e novas buscas

Para os pesquisadores, o trabalho está apenas começando. Um dos próximos objetivos é modelar como esses raios cósmicos viajam por grandes distâncias e como o espectro de energia dos raios gama muda ao longo do caminho. Também há interesse em procurar estruturas semelhantes em outros aglomerados estelares, embora poucos sejam tão favoráveis à observação quanto Westerlund 1.

Elizabeth Hays, cientista do projeto Fermi no Centro de Voo Espacial Goddard, destacou a importância da missão. Após 17 anos em operação, o telescópio continua revelando fenômenos inesperados. Como resumiu a pesquisadora, o céu em raios gama ainda guarda surpresas — e esta bolha gigante é mais uma peça essencial para entender como nossa galáxia respira, evolui e se transforma ao longo do tempo cósmico.

 

[ Fonte: La Nación ]

 

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