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Ciência

O que acontece quando uma seca transforma o solo de uma floresta em combustível

Um fenômeno difícil de enxergar está transformando áreas úmidas em verdadeiras fontes de poluição. O problema começa longe das grandes chamas e pode durar muito mais do que parece.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando pensamos em incêndios florestais, normalmente imaginamos árvores em chamas, colunas de fumaça e focos facilmente identificados. Mas existe outro tipo de incêndio que desafia essa imagem: ele pode avançar silenciosamente pelo solo, consumir matéria vegetal acumulada durante milhares de anos e continuar ativo mesmo sem grandes labaredas. Em determinadas condições climáticas, esse processo transforma um dos mais importantes depósitos naturais de carbono em uma perigosa fonte de emissões.

O fenômeno começa onde quase ninguém consegue enxergar

As turfeiras tropicais funcionam como gigantescos reservatórios naturais de carbono. Ao longo de milhares de anos, restos de plantas se acumulam em ambientes úmidos e se decompõem lentamente, formando uma camada rica em matéria orgânica.

Enquanto permanece saturada de água, essa turfa consegue manter grande parte do carbono armazenado no solo. O problema surge quando a região é drenada ou passa por períodos prolongados de seca.

É exatamente isso que acontece em diversas áreas da Indonésia. O país concentra aproximadamente 36% das turfeiras tropicais do planeta, mas muitas delas foram alteradas por décadas de drenagem para agricultura, plantações e exploração florestal.

Quando o solo perde umidade, aquela enorme reserva de matéria orgânica deixa de funcionar apenas como depósito. Ela pode se transformar em combustível.

E o mais preocupante é que o incêndio não precisa permanecer na superfície.

Uma chama pode desaparecer, mas o incêndio continua

A turfa pode entrar em combustão lenta, um processo conhecido como smoldering. Em vez das grandes chamas típicas de um incêndio florestal, o material queima lentamente, com pouco oxigênio e temperaturas relativamente baixas.

O fogo pode então avançar por baixo da superfície e reaparecer vários metros ou até mais longe do ponto onde começou. Isso torna extremamente difícil determinar a verdadeira extensão do incêndio.

Apagar esses focos também é complicado. A água lançada sobre o terreno nem sempre consegue alcançar as camadas profundas onde a combustão continua. Alguns incêndios subterrâneos podem permanecer ativos durante meses, até que chuvas suficientemente intensas voltem a encharcar o solo.

Na Indonésia, o risco aumenta durante períodos de seca associados ao El Niño. Em 2026, o fenômeno ocorreu junto a uma fase positiva do Dipolo do Oceano Índico, contribuindo para condições ainda mais secas.

Segundo dados citados pela NASA, cerca de 90% do país recebeu pouca ou nenhuma chuva no início de agosto, criando condições favoráveis para que os incêndios penetrassem profundamente nas turfeiras.

O problema não termina quando o fogo fica invisível

Existe ainda outra ameaça: a qualidade da fumaça produzida por esse tipo de combustão.

A queima lenta da turfa libera uma mistura particularmente preocupante de gases e partículas. Estimativas citadas pela NASA indicam que esses incêndios podem produzir aproximadamente três vezes mais partículas finas, cinco vezes mais dióxido de enxofre e cerca do dobro de metano e monóxido de carbono em comparação com outros incêndios tropicais.

A fumaça pode se espalhar por grandes áreas da Indonésia e atingir países vizinhos, afetando a saúde da população, a visibilidade, o funcionamento das escolas e até o tráfego aéreo.

A dimensão do problema ficou evidente em 2015. Naquele ano, os incêndios no país liberaram aproximadamente 1,75 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente. Durante 26 dos 44 dias analisados no período mais crítico, as emissões diárias estimadas chegaram a superar a média diária de toda a economia dos Estados Unidos.

E existe uma ironia: justamente quando a situação parece pior, os satélites podem ter mais dificuldade para encontrar os focos.

Fumaça, nuvens e o fogo escondido abaixo do solo podem impedir que instrumentos como MODIS e VIIRS detectem corretamente as áreas em combustão. Em episódios extremos, o número de incêndios identificados do espaço pode até diminuir, apesar de o problema continuar crescendo no terreno.

Por isso, combater esse fenômeno não significa apenas apagar as chamas. A estratégia mais importante começa antes: preservar as turfeiras, impedir sua drenagem e manter o solo úmido.

O que está em jogo é muito maior do que evitar um incêndio. É impedir que um enorme estoque de carbono acumulado durante milhares de anos volte rapidamente para a atmosfera.

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