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Ciência

O calor está reduzindo a capacidade das florestas de capturar carbono

Estudos mostram que temperaturas mais altas aumentam a liberação de CO₂ por plantas e solos, reduzindo parte do papel das florestas como freio para o aquecimento global
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Tempo de leitura: 4 minutos

As florestas do Hemisfério Norte podem perder parte de sua capacidade de retirar dióxido de carbono da atmosfera à medida que o planeta esquenta. Dois estudos recentes mostram que temperaturas mais elevadas aceleram a respiração de plantas, raízes e microrganismos, principalmente durante o verão e o outono.

Os resultados mostram que uma estação de crescimento mais longa não significa necessariamente maior armazenamento de carbono. O saldo depende de fatores como disponibilidade de água, idade da floresta, estação do ano e intensidade do aquecimento.

Uma floresta começou a liberar mais carbono do que absorvia

Bosques
© Irina Iriser – Unsplash

Um dos registros mais detalhados vem da Floresta Experimental Bartlett, nos Estados Unidos.

Pesquisadores liderados por Darby Bergl analisaram medições de dióxido de carbono realizadas entre 2004 e 2023. Durante esse período, a absorção líquida de carbono apresentou uma redução média de 12,52 gramas de carbono por metro quadrado a cada ano.

A principal explicação não foi uma queda equivalente na fotossíntese.

O fator dominante foi o aumento da respiração do ecossistema, que cresceu em média 15,82 gramas de carbono por metro quadrado ao ano.

Na prática, as plantas continuaram retirando CO₂ da atmosfera por meio da fotossíntese. Ao mesmo tempo, porém, árvores, raízes, microrganismos e outros processos do solo passaram a devolver uma quantidade maior desse carbono ao ambiente.

A mudança foi suficiente para alterar o balanço de alguns anos.

Em 2021, 2022 e 2023, a floresta funcionou como uma fonte líquida de carbono. Isso significa que liberou mais CO₂ do que conseguiu retirar da atmosfera durante esses períodos.

Invernos mais quentes também fazem diferença

Os pesquisadores identificaram outro efeito importante: invernos mais amenos podem prolongar a atividade biológica existente abaixo do solo.

Raízes, fungos e microrganismos continuam respirando e liberando carbono mesmo durante meses nos quais essa atividade historicamente seria menor.

Isso ajuda a explicar por que analisar apenas o crescimento das árvores pode produzir uma imagem incompleta do balanço climático de uma floresta.

O estudo de Bartlett, porém, acompanha uma única floresta durante um período específico. Portanto, os resultados não significam que todas as florestas temperadas estejam se transformando em fontes de carbono.

Eles revelam um mecanismo que pode ganhar importância conforme as temperaturas aumentam.

A primavera ajuda, mas o verão pode eliminar boa parte do ganho

Um segundo estudo ampliou consideravelmente a escala da análise.

Os pesquisadores examinaram 65 florestas boreais e temperadas do Hemisfério Norte, reunindo milhares de observações provenientes de redes internacionais de monitoramento.

O resultado revelou um padrão sazonal.

Primaveras mais quentes podem aumentar a absorção de CO₂ porque antecipam o início da atividade das plantas e prolongam o período disponível para a fotossíntese.

O benefício, porém, não continua necessariamente durante o restante do ano.

Temperaturas mais altas no verão e no outono foram associadas a uma redução da captura líquida de carbono.

Segundo os pesquisadores, as perdas observadas nessas duas estações podem anular cerca de 80% do ganho obtido durante a primavera.

A idade das árvores também muda a resposta

Florestas Definharam Durante Um Antigo Aquecimento Global — E A História Pode Se Repetir
© Shutterstock

Nem todas as florestas reagem ao aumento da temperatura da mesma maneira.

As formações mais maduras apresentaram uma resposta positiva mais acentuada durante a primavera. Já florestas jovens sofreram reduções maiores na absorção durante os meses mais quentes do verão e do outono.

Isso significa que observar apenas a temperatura média anual não é suficiente para prever quanto carbono uma floresta conseguirá armazenar.

É necessário considerar quando o aquecimento ocorre, a idade das árvores e as condições ambientais de cada região.

Falta de água pode limitar a fotossíntese

A disponibilidade de água é outro componente essencial desse equilíbrio.

Em regiões frias, temperaturas mais altas podem prolongar a estação de crescimento e permitir que as plantas realizem fotossíntese durante mais tempo.

Mas o calor também aumenta a respiração das raízes e do solo.

Quando existe pouca água durante o verão, as plantas podem fechar parcialmente seus estômatos — pequenas estruturas das folhas responsáveis pelas trocas gasosas — para evitar a perda excessiva de umidade.

Isso reduz a entrada de CO₂ necessária para a fotossíntese.

Enquanto isso, processos metabólicos das plantas e dos organismos presentes no solo continuam liberando carbono.

Florestas mediterrâneas enfrentam outro problema

Nas regiões mediterrâneas, a disponibilidade de água pode ser ainda mais determinante.

Ondas de calor, secas prolongadas, incêndios e mortalidade de árvores são capazes de modificar rapidamente o balanço de carbono de uma floresta.

A combinação entre temperaturas elevadas e falta de água também aumenta o risco de que ecossistemas liberem parte do carbono acumulado durante décadas.

Por isso, a produtividade bruta de uma floresta não deve ser confundida com armazenamento permanente.

Uma árvore pode retirar CO₂ da atmosfera enquanto cresce, mas parte desse carbono retorna posteriormente por meio da respiração, decomposição, incêndios ou morte da vegetação.

Plantar árvores não resolve tudo sozinho

Os resultados também têm implicações para estratégias de combate às mudanças climáticas.

Plantar árvores pode contribuir para retirar carbono da atmosfera, mas isso não garante que uma floresta continuará funcionando indefinidamente como um sumidouro eficiente.

A escolha das espécies, a disponibilidade de água, a conservação do solo e a capacidade de resistir a secas e incêndios também são fundamentais.

Entre as estratégias de manejo estão aumentar a diversidade de espécies e adaptar as florestas aos riscos climáticos específicos de cada região.

O futuro desses ecossistemas como grandes reservatórios de carbono dependerá de um equilíbrio delicado: quanto CO₂ conseguem retirar da atmosfera pela fotossíntese e quanto devolvem por meio da respiração e de outros processos.

Com o planeta mais quente, esse equilíbrio pode estar começando a mudar.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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