Na infância, amizades parecem acontecer quase automaticamente. Basta frequentar a mesma escola, brincar no mesmo lugar ou encontrar alguém todos os dias. Na vida adulta, tudo muda: trabalho, filhos, mudanças de cidade e agendas lotadas reduzem essas oportunidades. A boa notícia é que pesquisadores vêm estudando justamente como esses vínculos aparecem e sobrevivem. E algumas das estratégias mais eficazes são surpreendentemente simples, incluindo pedir pequenos favores e fazer ligações de apenas cinco minutos.
Duas condições aparecem repetidamente quando uma amizade começa
Jaimie Krems conhece pessoalmente o lado complicado das amizades. Em 2008, quando tinha pouco mais de 20 anos, descobriu mensagens em que duas pessoas próximas falavam negativamente sobre ela.
A experiência despertou uma pergunta que acabaria direcionando sua carreira: o que faz amizades surgirem, funcionarem ou se deteriorarem?
Hoje, Krems dirige o Centro de Pesquisa sobre Amizade da UCLA e estuda relações entre adultos. Segundo ela, pesquisas realizadas nessa área apontam para dois ingredientes particularmente importantes na formação de vínculos: interação frequente e atração mútua.
Não se trata necessariamente de atração romântica. É aquela sensação de afinidade que faz duas pessoas desejarem continuar conversando.
A parte interessante é que uma dessas condições pode ser criada deliberadamente.
Frequentar regularmente a mesma cafeteria, participar de um clube de corrida, fazer aulas de arte ou integrar alguma atividade coletiva aumenta as chances de encontrar repetidamente as mesmas pessoas.

A pesquisadora Janice McCabe, de Dartmouth, chama esses ambientes de “mercados de amizade”: lugares onde há outras pessoas abertas à possibilidade de estabelecer novos vínculos.
Existe um detalhe inesperado: pedir ajuda pode aproximar as pessoas
Depois do primeiro contato, surge outro desafio: transformar um conhecido em amigo.
Uma das estratégias mencionadas pelos pesquisadores parece contradizer nossa tendência de tentar não incomodar ninguém: pedir um pequeno favor.
Aplicativos assumiram diversas tarefas que anteriormente poderiam servir como oportunidades de interação. Chamamos um carro para ir ao aeroporto, pedimos compras pelo celular quando estamos doentes ou contratamos alguém para realizar pequenas tarefas.
É extremamente conveniente, mas também elimina situações nas quais dependíamos de pessoas próximas.
Segundo Krems, pesquisas indicam que prestar um favor pode fazer com que a pessoa que ajudou desenvolva maior afinidade por quem recebeu a ajuda. Em vez de necessariamente enxergar o pedido como um incômodo, ela pode experimentar satisfação por ter sido útil.
Mostrar alguma vulnerabilidade também ajuda.
Alison Nagel, da Universidade da Virgínia, explica que revelar gradualmente informações pessoais tende a estimular reciprocidade. Quando alguém compartilha algo sobre si, aumenta a possibilidade de a outra pessoa fazer o mesmo.
Isso não significa transformar o primeiro café em uma sessão de terapia. O segredo está justamente em avançar progressivamente e respeitar o nível de intimidade que aquela relação já suporta.
Cinco minutos podem valer mais do que aquela ligação que nunca acontece
Construir uma amizade é apenas metade da história. Depois é necessário mantê-la.
Na vida adulta, um erro comum é esperar pelo momento perfeito. Queremos duas horas livres para conversar tranquilamente com alguém que não vemos há meses. Como esse espaço nunca aparece na agenda, a ligação continua sendo adiada.
Krems sugere uma solução muito mais simples: ligue mesmo assim.
Cinco minutos de conversa genuína podem valer mais para preservar uma conexão do que uma longa conversa planejada indefinidamente.

A mesma lógica vale para interações aparentemente insignificantes.
Se você quer preparar aquela receita que uma tia fazia quando era criança, pode pesquisar no Google e encontrar centenas de versões em segundos. Mas também pode telefonar para ela e perguntar como preparava o prato.
A informação obtida talvez seja praticamente a mesma. Socialmente, porém, as duas decisões são completamente diferentes.
Pequenas conversas ajudam a manter vínculos que poderiam desaparecer silenciosamente.
Amizade não é apenas uma questão de felicidade
A importância dessas relações vai muito além de ter companhia para sair no fim de semana.
Pesquisas associam conexões sociais mais fortes a melhor gerenciamento do estresse e diferentes benefícios para a saúde. Krems também destaca estudos que relacionam amizades e conexões sociais entre adultos mais velhos a menores riscos de demência e acidente vascular cerebral.
A Mayo Clinic igualmente aponta que amizades podem aumentar a sensação de pertencimento, reduzir estresse e oferecer apoio durante situações difíceis. Adultos com relações sociais sólidas também apresentam menor risco para determinados problemas de saúde.
Isso ajuda a explicar por que a solidão deixou de ser tratada apenas como uma questão emocional e passou a ser discutida como problema de saúde pública.
Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que acontecimentos importantes da vida modificam nossas necessidades sociais. Criar novas relações pode ter maior associação com bem-estar entre adultos mais jovens, enquanto preservar vínculos existentes ganha particular importância conforme envelhecemos.
Talvez a principal descoberta seja justamente que amizade não precisa depender exclusivamente de sorte ou química instantânea.
Parte dela pode ser construída.
Voltar ao mesmo lugar, conversar novamente com aquela pessoa, aceitar alguma vulnerabilidade e fazer uma ligação rápida em vez de esperar pela oportunidade perfeita parecem atitudes pequenas. Mas são justamente essas repetições que transformam encontros ocasionais em algo muito mais difícil de encontrar na vida adulta: alguém que continua por perto.
[Fonte: cnn]