Ter muita memória RAM no celular não significa que os aplicativos possam utilizá-la sem limites. O Google decidiu apertar o cerco contra programas que ocupam recursos excessivamente e acabam prejudicando todo o sistema. As novas regras transformarão o consumo de memória em um indicador ainda mais importante de qualidade no Android. Para os usuários, a mudança promete celulares mais estáveis. Para alguns desenvolvedores, porém, existe um prazo se aproximando.
O Android vai começar a controlar mais de perto quanto cada aplicativo consome

O Google está preparando uma mudança importante na maneira como o Android administra um de seus recursos mais valiosos: a memória RAM.
A empresa introduziu no Android 17 limites de memória por aplicativo, inicialmente em dispositivos Pixel, como forma de impedir que um único programa prejudique o desempenho geral do telefone.
A expectativa é que fabricantes adotem progressivamente o mecanismo em aparelhos com configurações bastante diferentes, desde modelos com 4 GB até dispositivos que ultrapassam 16 GB de RAM.
Quando um aplicativo começa a atingir seu limite, o sistema pode recorrer à zRAM, comprimindo páginas de memória para tentar evitar uma interrupção imediata. Isso, porém, exige processamento adicional e pode provocar engasgos na interface.
Se o consumo continuar aumentando, a consequência fica mais severa: o Android poderá encerrar o processo para proteger o restante do sistema.
A ideia é evitar um efeito dominó conhecido pelos usuários. Um aplicativo consome recursos demais, o celular fica lento, outros processos precisam ser encerrados e programas que estavam em segundo plano demoram mais para abrir novamente.
Mas o sistema operacional não será o único lugar onde aplicativos pouco eficientes poderão encontrar problemas.
A Play Store também vai transformar memória em critério de qualidade

O Google está ampliando o Android vitals, conjunto de indicadores utilizado para acompanhar o comportamento dos aplicativos distribuídos pela Play Store.
Entre os novos elementos monitorados está o consumo de memória conhecido tecnicamente como Anonymous RSS + Swap.
Em termos simples, essa métrica ajuda a mostrar quanto da memória ocupada por um aplicativo não pode simplesmente ser descartada pelo sistema quando faltam recursos.
O Google analisará esse consumo considerando diferentes situações. Um aplicativo pode estar aberto diante do usuário, executando um serviço perceptível ou trabalhando em segundo plano.
Também serão consideradas as diferentes quantidades de RAM disponíveis nos aparelhos.
Isso é importante porque consumir determinada quantidade de memória em um smartphone equipado com 16 GB não produz necessariamente o mesmo impacto que em outro com apenas 4 GB.
Outra métrica acompanhará especificamente o consumo provocado por bitmaps, imagens armazenadas na memória que podem se tornar particularmente pesadas quando não são administradas corretamente.
O código também entrou na mira.
Aplicativos deverão apresentar níveis adequados de otimização DEX, reduzindo componentes desnecessários e evitando que programas excessivamente inchados desperdicem recursos.
Fevereiro de 2027 será uma data importante para os desenvolvedores
Essas métricas não servirão apenas para produzir gráficos dentro do Play Console.
A partir de fevereiro de 2027, aplicativos e jogos deverão permanecer abaixo dos limites de comportamento inadequado definidos pelo Google para consumo de memória, bitmaps e otimização do código.
Programas que ultrapassarem repetidamente esses parâmetros poderão sofrer impacto em sua visibilidade dentro do Google Play.
Ao mesmo tempo, o próprio Android poderá agir quando determinado aplicativo exceder os limites disponíveis no aparelho, reduzindo seu desempenho ou encerrando seu processo.
Para ajudar os desenvolvedores a evitar esse cenário, o Google está ampliando as ferramentas de diagnóstico.
O Android vitals permitirá acompanhar o comportamento de um aplicativo em diferentes faixas de RAM e estados de execução. Os desenvolvedores poderão comparar usuários típicos com casos extremos e identificar possíveis vazamentos de memória.
O Google também recomenda ferramentas como Android Studio, Perfetto e análises de heap para descobrir quais partes do programa estão mantendo recursos ocupados desnecessariamente.
A mensagem é clara: não bastará desenvolver pensando nos celulares mais poderosos do mercado.
Celulares mais simples podem ser alguns dos grandes beneficiados
Para o usuário, grande parte dessa transformação deverá acontecer silenciosamente.
Aplicativos mais eficientes significam menos pressão sobre a memória, menos travamentos e uma menor necessidade de o sistema eliminar processos em segundo plano.
Também existe potencial para reduzir o consumo de bateria.
Quando falta memória, o Android precisa gastar recursos de processamento reorganizando informações, comprimindo dados ou encerrando aplicativos. Esse trabalho adicional pode provocar lentidão e aumentar o gasto energético.
As novas regras também chegam em um momento no qual o ecossistema Android precisa funcionar em uma variedade gigantesca de equipamentos.
Um mesmo aplicativo pode rodar em um smartphone econômico com pouca RAM e, minutos depois, ser aberto em um modelo premium com várias vezes mais memória disponível.
O objetivo do Google não é exigir que todos consumam exatamente a mesma quantidade, mas estabelecer limites adaptados às características dos dispositivos e detectar comportamentos considerados excessivos.
Para os desenvolvedores, isso significa meses de trabalho analisando bibliotecas, imagens, vazamentos e código desnecessário.
Para quem simplesmente abre um aplicativo no celular, a mudança pode ser muito menos visível, mas igualmente importante.
Se tudo funcionar como planejado, a próxima geração do Android poderá fazer algo que usuários esperam há anos: impedir que um aplicativo mal otimizado transforme um celular inteiro em um aparelho lento.
[Fonte: Semana]