Boas notícias sobre o câncer costumam ser raras. Nos últimos anos, estudos alertaram para o aumento de diagnósticos entre pessoas jovens e para fatores onipresentes da vida moderna — como poluição do ar e microplásticos — que podem elevar o risco da doença. Ainda assim, o mais recente relatório anual da American Cancer Society (ACS) traz um dado que muda o tom do debate: o combate ao câncer, apesar dos desafios, está funcionando.
De acordo com o estudo, publicado nesta semana, 70% dos pacientes diagnosticados entre 2015 e 2021 sobreviveram pelo menos cinco anos após receberem o diagnóstico. É a primeira vez que esse patamar é alcançado. Para efeito de comparação, em meados da década de 1970, a taxa de sobrevida em cinco anos era de apenas 49%.
Um salto histórico construído ao longo de décadas
Para a ACS, o avanço não é fruto do acaso. “Essa vitória impressionante é resultado direto de décadas de pesquisa em câncer, que deram aos médicos ferramentas mais eficazes e transformaram muitos tipos da doença de uma sentença de morte em uma condição crônica”, afirmou Rebecca Siegel, diretora científica sênior de vigilância oncológica da entidade.
O relatório se baseia em dados populacionais de registros de câncer e do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde dos EUA. O período de cinco anos é usado como referência internacional porque, segundo instituições médicas como a Cleveland Clinic, tumores que não reaparecem nesse intervalo raramente voltam a se manifestar.
Até os cânceres mais letais estão menos fatais
Um dos pontos mais relevantes do estudo é que os maiores ganhos ocorreram justamente em cânceres historicamente associados a baixas taxas de sobrevivência. Casos de mieloma múltiplo, por exemplo, passaram de uma sobrevida em cinco anos de 32% para 62% desde meados dos anos 1990. No câncer de fígado, o índice subiu de 7% para 22%, enquanto no câncer de pulmão avançou de 15% para 28%.
O progresso também é visível em estágios avançados da doença. A taxa de sobrevivência em cinco anos para todos os cânceres combinados em fases avançadas dobrou, passando de 17% para 35%. No câncer de pulmão — frequentemente diagnosticado tardiamente — os números são ainda mais expressivos: entre pacientes com doença localmente avançada, a sobrevida subiu de 20% para 37%; já nos casos metastáticos, passou de 2% para 10%.
Milhões de vidas poupadas
Segundo os autores, a combinação de tratamentos mais eficazes, detecção precoce e a redução do tabagismo evitou cerca de 4,8 milhões de mortes por câncer entre 1991 e 2023 nos Estados Unidos. Esse número ajuda a dimensionar o impacto concreto das políticas de saúde pública e do investimento contínuo em ciência.
Avanços desiguais e disparidades persistentes
Apesar do cenário positivo, o relatório destaca desigualdades profundas. Povos indígenas americanos apresentam as maiores taxas de mortalidade por câncer, com índices até duas vezes superiores aos da população branca em tumores como os de rim, fígado, estômago e colo do útero.
“Falta de acesso a cuidados oncológicos de qualidade e fatores socioeconômicos continuam desempenhando um papel central nas disparidades raciais persistentes”, explicou Ahmedin Jemal, vice-presidente sênior da ACS. Para ele, o desafio agora é garantir que os avanços cheguem de forma mais equitativa a toda a população.
Diagnósticos em alta e ameaças ao progresso
Nem tudo no relatório é motivo de celebração. O câncer segue como a segunda principal causa de morte nos EUA. As projeções indicam que mais de 2 milhões de novos casos serão diagnosticados em 2026, com mais de 600 mil mortes.
Além disso, a incidência de vários cânceres comuns continua crescendo, incluindo mama, próstata, pâncreas, cavidade oral e endométrio. Entre mulheres, também há aumento nos casos de câncer de fígado e melanoma.
Outro ponto sensível é o contexto político. Cortes de financiamento e de pessoal em instituições de pesquisa ameaçam desacelerar — ou até reverter — parte dos avanços conquistados. “Durante décadas, o governo federal foi o maior financiador da pesquisa oncológica, o que se traduziu em vidas mais longas”, alertou Shane Jacobson, CEO da American Cancer Society.
A lição central do relatório
O recado do estudo é claro: investir em pesquisa salva vidas. Os ganhos observados ao longo de cinco décadas não seriam possíveis sem novos tratamentos, métodos de diagnóstico precoce e investigações profundas sobre as causas do câncer.
Se essa curva positiva continuará se inclinando a favor dos pacientes dependerá menos da biologia e mais das decisões políticas e econômicas tomadas agora. Pela primeira vez em muito tempo, os dados mostram que a luta contra o câncer pode ser vencida — desde que o esforço não seja interrompido.