Pular para o conteúdo
Ciência

Como uma tecnologia inovadora usa frio extremo para combater tumores — sem bisturi, com precisão milimétrica e guiada por ressonância magnética

Um procedimento minimamente invasivo vem ganhando espaço em centros de referência ao redor do mundo ao destruir células cancerígenas com temperaturas negativas extremas. Guiada por ressonância magnética, a crioablação promete mais precisão, menos danos aos tecidos saudáveis e uma recuperação mais rápida para pacientes selecionados.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A busca por tratamentos oncológicos mais eficazes e menos agressivos tem levado a medicina a explorar caminhos que, até pouco tempo atrás, pareciam futuristas. Um desses avanços é a crioablação guiada por ressonância magnética, uma técnica que utiliza frio extremo para destruir tumores sólidos sem a necessidade de cirurgias convencionais ou grandes incisões.

O princípio é simples, mas poderoso: células tumorais dependem da temperatura corporal — em torno de 37 °C — para sobreviver. Ao serem submetidas a temperaturas que variam entre –40 °C e –80 °C, essas células não resistem. “Esse frio intenso leva à morte celular”, explica o oncologista Diego Kaen, ex-presidente da Associação Argentina de Oncologia Clínica (AAOC), em entrevistas a veículos especializados.

Como funciona a crioablação guiada por ressonância

Dna Tumoral
© National Cancer Institute – Unsplash

O procedimento consiste na introdução de criossondas — agulhas especiais — diretamente no tumor. Essas sondas liberam gases extremamente frios, capazes de congelar o tecido canceroso de forma controlada. O diferencial está no uso da ressonância magnética como guia durante todo o processo.

A tecnologia permite visualizar em tempo real tanto o tumor quanto a chamada “bola de gelo” que se forma ao redor da área tratada. “A ressonância cumpre um papel central porque mostra exatamente onde o frio está agindo, reduzindo o risco de atingir tecidos saudáveis”, afirma Kaen.

Especialistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford destacam que esse acompanhamento contínuo antes, durante e após o procedimento aumenta a segurança e a eficácia do tratamento, além de diminuir complicações comuns em intervenções mais invasivas.

O que acontece com o tumor após o congelamento

Segundo a Interventional Radiology Society of Australasia (IRSA), a crioablação destrói as células por meio de ciclos alternados de congelamento e descongelamento. Após o procedimento, o tecido tumoral danificado é gradualmente reabsorvido pelo organismo.

Esse processo exige planejamento detalhado, com base em exames de imagem e na atuação de equipes multidisciplinares, que envolvem oncologistas, radiologistas intervencionistas, anestesistas e especialistas em imagem médica.

Em quais casos a técnica é indicada

A crioablação guiada por ressonância ainda não é um tratamento de uso amplo. Atualmente, ela é indicada sobretudo para tumores pequenos e localizados, como câncer renal em estágio inicial, tumores de próstata selecionados, lesões hepáticas específicas, tumores pulmonares periféricos e metástases ósseas ou de partes moles associadas à dor.

O método também é considerado uma alternativa importante para pacientes que não podem ser submetidos à cirurgia tradicional, seja por idade, comorbidades ou pela localização delicada do tumor. “Na maioria dos casos, é um tratamento complementar. Raramente substitui sozinho a cirurgia ou terapias sistêmicas, mas amplia muito as opções disponíveis”, ressalta Kaen.

Benefícios e limitações atuais

Entre as principais vantagens estão a menor agressividade, o menor tempo de internação e a recuperação acelerada. Muitos pacientes recebem anestesia geral e podem voltar para casa no mesmo dia, retomando suas atividades em poucos dias.

Os riscos existem, como em qualquer procedimento invasivo, e incluem sangramento, infecção, dor temporária ou danos a estruturas próximas, especialmente quando o tumor está perto de vasos sanguíneos ou órgãos sensíveis. Ainda assim, a visualização precisa oferecida pela ressonância magnética ajuda a minimizar esses efeitos.

Desigualdade no acesso à tecnologia

Células Cancerígenas
© Thanapipat-Kulmuangdoan

Enquanto hospitais de países como Estados Unidos e Austrália já utilizam a crioablação guiada por ressonância, em países como a Argentina e o Brasil o acesso ainda é limitado. O alto custo dos equipamentos e das criossondas, além da necessidade de infraestrutura avançada, restringe a adoção da técnica.

Mesmo assim, especialistas acreditam que o cenário tende a mudar. “Com mais evidências clínicas, maior disponibilidade tecnológica e equipes treinadas, esse método deve ganhar espaço nos próximos anos”, avalia Kaen.

A crioablação guiada por ressonância não é uma solução universal, mas representa um passo importante rumo a uma oncologia mais precisa, personalizada e menos invasiva — oferecendo novas possibilidades a pacientes que antes tinham opções limitadas.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados