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Ciência

Físicos conseguem provar que átomos podem estar em dois lugares ao mesmo tempo — e o experimento pode aproximar a teoria do todo

Um experimento na Australian National University mostrou algo que parecia impossível: átomos de hélio se comportando como se estivessem em vários lugares ao mesmo tempo. O resultado reforça fenômenos quânticos estranhos e pode ajudar a conectar duas das maiores teorias da física moderna.
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Tempo de leitura: 3 minutos

 A mecânica quântica sempre desafiou o senso comum, mas um novo experimento levou isso a outro nível. Pesquisadores na Austrália conseguiram demonstrar, pela primeira vez, o entrelaçamento quântico envolvendo o movimento de átomos com massa. O resultado não apenas confirma previsões feitas há mais de um século, como também abre um caminho promissor para resolver um dos maiores dilemas da ciência: unir o mundo quântico à gravidade.

Quando a realidade desafia a lógica

Cinco átomos
© Zoltan Tasi – Unsplash

A ideia de que uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo — conhecida como superposição quântica — sempre pareceu mais ficção científica do que realidade. Ainda mais estranho é o entrelaçamento quântico, no qual duas partículas permanecem conectadas independentemente da distância.

Esse fenômeno foi descrito com desconfiança por Albert Einstein, que o chamou de “ação fantasmagórica à distância”. Mesmo assim, experimentos ao longo das décadas confirmaram que ele realmente existe — embora, até agora, principalmente com partículas de luz.

O diferencial: átomos com massa

O grande avanço deste novo estudo, publicado na revista Nature Communications, é que ele demonstrou esses efeitos usando átomos de hélio — objetos com massa.

Isso faz toda a diferença. Ao contrário dos fótons, os átomos são influenciados pela gravidade. Demonstrar entrelaçamento nesse contexto permite explorar uma fronteira ainda pouco compreendida: como a física quântica se relaciona com a gravidade.

Segundo o físico Sean Hodgman, líder da pesquisa, o experimento confirma que “a matéria pode existir em múltiplos estados e trajetórias ao mesmo tempo, interferindo consigo mesma”.

Como o experimento funciona

Para alcançar esse resultado, os cientistas resfriaram átomos de hélio a temperaturas próximas do zero absoluto, criando um condensado de Bose-Einstein — um estado no qual os átomos passam a se comportar como uma única onda quântica.

Em seguida, duas nuvens desses átomos foram colididas com precisão usando lasers. Em vez de se comportarem como partículas clássicas, os átomos seguiram múltiplas trajetórias simultaneamente. Durante a queda, passaram por um interferômetro, dispositivo que mede suas propriedades quânticas.

O resultado foi claro: os padrões detectados só podem ser explicados se os átomos estiverem entrelaçados.

A prova matemática do “estranho”

Para confirmar o fenômeno, os pesquisadores recorreram à chamada desigualdade de Bell, um teste fundamental que distingue efeitos quânticos reais de explicações clássicas.

Os resultados violaram essa desigualdade, indicando que as correlações observadas não podem ser explicadas por variáveis ocultas ou coincidências. Em outras palavras: o comportamento “estranho” da mecânica quântica é, de fato, real.

Um passo rumo à teoria do todo

O impacto do experimento vai além da curiosidade. Ele toca em um dos maiores problemas da física: a incompatibilidade entre a relatividade geral e a mecânica quântica.

A relatividade descreve a gravidade e o comportamento do universo em larga escala. Já a mecânica quântica explica o mundo subatômico. Ambas funcionam extremamente bem — mas não juntas.

Ao estudar sistemas quânticos que possuem massa e sofrem influência gravitacional, os cientistas começam a explorar justamente essa interseção. É aí que pode surgir, no futuro, a tão buscada teoria do todo.

O que vem pela frente

Apesar do avanço, o experimento ainda tem limitações. Para eliminar completamente dúvidas sobre possíveis “comunicações ocultas” entre partículas, será necessário aumentar a distância entre os átomos durante as medições.

Os pesquisadores também pretendem ir além: planejam entrelaçar diferentes isótopos, como hélio-3 e hélio-4. Isso permitiria testar o princípio de equivalência — base da relatividade — em sistemas quânticos.

Um universo mais estranho do que imaginávamos

O resultado reforça uma ideia desconcertante: a realidade, em nível fundamental, não segue as regras da nossa intuição. Objetos com massa — que parecem sólidos e definidos — podem se comportar como ondas, existir em múltiplos estados e permanecer conectados à distância.

Mais de um século depois, o universo continua desafiando até mesmo as dúvidas de Einstein. E, ao que tudo indica, ainda há muito mais a descobrir.

 

[ Fonte: DW ]

 

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